Reprodução/Estadão
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Russomanno reforça elo com Bolsonaro e diz ser contra vacina obrigatória para covid-19

Candidato à Prefeitura de SP pelo Republicanos se diz amigo do presidente, mas evitou comentar escândalos de corrupção no entorno do Planalto

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 15h50
Atualizado 19 de outubro de 2020 | 21h54

O candidato à Prefeitura de São Paulo pelo Republicanos, Celso Russomanno, reforçou sua relação com o presidente Jair Bolsonaro como solução para problemas da administração municipal. Em sabatina com jornalistas do Estadão, ele disse que sua proximidade com o presidente  criaria condições favoráveis em uma renegociação da dívida da capital com o governo federal, e disse que Bolsonaro seria “muito bem-vindo” em seu partido. O candidato do Republicanos disse, ainda, ser contra a obrigatoriedade da vacinação contra o novo coronavírus

“Eu tenho amizade com o presidente Bolsonaro desde 1995, amizade particular. Eu o conheço profundamente”, disse Russomanno. “Ele é muito bem vindo no Republicanos.”

Embora tenha dito mais de uma vez que é “amigo” de Bolsonaro e se apresentando como vice-líder do governo, Russomanno evitou dar uma resposta direta às perguntas sobre suspeitas contra a família do presidente e seu entorno. Ao ser perguntado sobre os depósitos de R$ 89 mil de Fabrício Queiroz para a primeira-dama Michelle Bolsonaro e sobre outro vice-líder do governo, o senador Chico Rodrigues, preso com R$ 33 mil na cueca, o candidato se esquivou.

“Não existe crime de amizade. Não se pode imputar crime a alguém por ser amigo. Recebo com muita alegria o apoio do presidente Bolsonaro", disse. “Essas questões estão sendo apuradas. Ministério Público e Judiciário têm competência para isso.”

Vacina contra covid-19

Questionado sobre o uso político das vacinas contra a covid-19 que estão em desenvolvimento, Russomanno disse ser contra a obrigatoriedade da vacinação. Ele ressaltou ser "legalista", deixou a entender que o processo de vacinação deve seguir as leis vigentes e disse que é contra “inventar”. 

“Os nossos empregos foram embora, nós somos obrigados a uma série de coisas, agora querem obrigar a tomar vacina?”, questionou Russomanno. “Eu sou um legalista, nós temos leis, e nós vamos cumprir as leis. A gente não pode inventar." 

Dívida e auxílio municipal

Uma das promessas de campanha do candidato é a criação de um programa de transferência de renda, semelhante ao auxílio emergencial do governo federal. Russomanno evitou prometer um valor para o auxílio paulistano. 

A campanha tem dito que a liberação de verbas para o pagamento do benefício está atrelada à renegociação da dívida da capital com a União. Russomanno tem insistido que sua relação com Bolsonaro vai viabilizar uma negociação favorável à cidade. 

“Eu posso dar alguns dados: a dívida está em R$ 57 bilhões; em 2030 ela vai ser em torno de R$ 200 bilhões. Ela tem de ser negociada, como o Rio de Janeiro já fez”, disse o candidato. “Ninguém melhor do que o governo federal para me dar apoio e transformar essa dívida num subsídio, e não no que ela é hoje: um forma de lucrar com a dívida de São Paulo. O governo federal não precisa disso.” 

Acusações contra genro e filha

O candidato foi questionado sobre os 18 processos na Justiça que sua filha e seu genro respondem, por uma prática descrita como “esquema da pirâmide”. O caso foi revelado pelo Estadão no mês passado. Russomanno negou que a prática descrita nas ações seja realmente “pirâmide”, disse que seu genro passou por problemas financeiros e que deve devolver o dinheiro. 

“Isso não tem nada a ver comigo, nunca autorizei ninguém a usar meu nome, nem o meu genro. Ninguém nunca foi autorizado”, ele disse. “Não se trata de uma pirâmide. (Em uma) pirâmide, você tem de ter várias pessoas ‘embaixo’ para aumentar o investimento, conheço bastante isso. Se trata de contratos de mútuo, e o meu genro diz que vai vender os imóveis que tem, vai acertar com as pessoas que tem de acertar e, para mim, isso é ponto resolvido.” 

Coronavírus e moradores de rua

Russomanno afirmou novamente que moradores de rua podem ter maior imunidade ao novo coronavírus, apesar de especialistas apontarem para a subnotificação de casos nesta população. Na semana passada ele disse que a falta de banho poderia ser uma das explicações para uma suposta taxa de contágio e mortalidade mais baixa – afirmação que não tem respaldo na ciência –, e durante a sabatina disse que os cientistas deveriam explicar esses dados. 

“Eu não contesto a ciência, os especialistas têm de provar em vez de ficar falando sem os dados. Estou falando em cima dos dados”, disse Russomanno. “Os dados mostram que a incidência é muito menor nas pessoas em situação de rua.” 

Sobre a Cracolândia, o candidato disse que a Prefeitura deveria organizar o trabalho conjunto de secretarias, organizações não-governamentais (ONGs) e igrejas no local para um atendimento individualizado. Para ele, a Guarda-Civil Metropolitana deveria auxiliar no trabalho de inteligência da Polícia Civil para identificar a atuação do crime organizado para levar drogas à Cracolândia.  

“Eu começaria pela Igreja Católica, eu sou católico, tenho um trabalho grande dentro da minha igreja”, disse Russomanno, após ser questionado sobre como Organizações Sociais ligadas a igrejas poderiam participar de um plano para a região, e se isso pode resultar em convênios municipais com as entidades. “Eles (evangélicos) não me pediram absolutamente nada, o trabalho deles é um trabalho evangélico, é um trabalho para levantar a autoestima das pessoas. A Prefeitura vai fazer um trabalho que tem de ser feito, mas nós precisamos sim de um amparo das organizações religiosas, todas elas que quiserem ajudar.”

Clã Bolsonaro na campanha

Russomanno garantiu que integrantes do clã Bolsonaro, como o próprio presidente e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), devem participar ativamente da campanha “na hora certa”. Pressionado a dizer qual seria o momento certo, a menos de um mês da votação em primeiro turno, o candidato disse que seu marqueteiro deve orientar esse tema. 

“A minha equipe decide, para isso tenho uma equipe muito bem montada”, respondeu Russomanno. 

Habitação e auxílio-moradia

Após ser questionado sobre seu programa de governo – que promete reduzir gradativamente o repasse de auxílio-aluguel, para investir a mesma verba na construção de unidades habitacionais –, Russomanno disse que não vai tirar o auxílio de beneficiários sem que eles tenham moradia garantida. 

“O que não podemos é fazer com que esse auxílio se torne eterno, a obrigação da Prefeitura é fazer com que a Cohab, a companhia do municipal, funcione. Ela não construiu nenhuma casa ao longo desses últimos anos”, disse o candidato. “Depois que nós tivemos habitações, vamos reduzindo o auxílio, porque essas pessoas já têm moradia.”

Declaração de Covas sobre repasse de recursos do governo federal

Russomanno foi perguntado sobre a opinião dele com relação à declaração dada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) durante a entrevista dele à série de sabatinas do Estadão, na última quinta-feira, 15. O tucano acusou o governo federal de ter dado às costas à capital paulista e não ter enviado recursos para o combate à pandemia.

O candidato defendeu o presidente Jair Bolsonaro, afirmando que ele não negou ajuda a São Paulo “independente da questão política”. “A cidade foi isenta de pagamentos de dívidas durante a pandemia, houve recursos para a covid”, disse. Segundo ele, a afirmação de Covas é enganosa. “Eu posso juntar todos os números com facilidade. Não é uma verdade.”

Volta às aulas e recuperação de conteúdo pós-pandemia

Outra pergunta feita ao candidato do Republicanos foi a visão dele sobre a reabertura de escolas, que ele já defendeu, desde que fossem seguidas as orientações da Organização Mundial da Saúde. Ao ser questionado sobre como contornar as diferentes situações de contaminação nas várias regiões da cidade, Russomanno defendeu abrir primeiro as escolas particulares.

“Elas têm distanciamento, equipamento, banheiros, uma série de cuidados para que as crianças voltem às aulas”, disse ele. “O que está difícil é não ter seus filhos na escola. A Prefeitura não fez a lição de casa. As escolas públicas não têm condição de receber os alunos.”

Já quando perguntado sobre como garantir a homogeneidade do aprendizado na rede pública, candidato afirmou que deve trabalhar de acordo com os bairros. “Tem que ser feita a lição de casa. Temos que consultar os pais, mas o poder público não pode ficar de braços cruzados.”

Outro questionamento sobre o tema foi qual a proposta do deputado para recuperar o conteúdo didático que não foi ensinado por conta da pandemia o do fechamento das escolas. Segundo ele, esse conteúdo foi perdido por falta de preparo dos professores da rede pública e esse vai ser o foco da sua gestão. “Os professores não foram treinados para essa aulas, são muitas dificuldades. Algumas universidades estão dispostas a treinar professores do ensino público gratuitamente para o ensino à distância.”

Transporte público

Russomanno também foi questionado sobre as suas propostas para melhorar o transporte público na cidade, citando inclusive uma sugestão sua nas eleições municipais de 2012, em que o preço da passagem de ônibus seria proporcional à distância percorrida.

Segundo ele, a interpretação da sua proposta anterior foi equivocada. “A passagem continuaria custando o mesmo valor e quem rodasse no bairro teria um valor menor. Para criar economia local”, explicou ele.

Sobre sua proposta na atual eleição, o deputado afirmou que, para o transporte público, ele segue a sua bandeira de defesa do consumidor e qualidade. “Ônibus de piso baixo, com ar condicionado, wifi. Queremos que ônibus passem mais rápido. Queremos que a SP Transporte seja ressuscitada. Precisamos de pessoas trabalhando.”

Revitalização do centro e retrofit

Quando perguntado sobre suas propostas para revitalizar o centro da capital, Russomanno criticou a legislação atual, que não incentiva a iniciativa privada a investir na região. “Os prédios estão fechados e abandonados, os proprietários tentando vendê-los, mas a legislação impede. Quem investe se a legislação é insegura?”, questiona.

Uma das leis que, segundo ele, poderiam ser úteis nesse sentido seria um incentivo maior ao chamado Retrofit, o processo pelo qual se reforma e moderniza um equipamento ou edifício considerado ultrapassado para que volte a cumprir as normas vigentes. O candidato acredita que a legislação atual não torna o procedimento vantajoso, o que afasta as empresas. “Precisamos de uma lei para que a iniciativa privada invista no centro da cidade.” /ADRIANA FERRAZ, PAULA REVERBEL, TULIO KRUSE  e DIEGO KERBER

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