Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Covas nacionaliza campanha e afirma que Bolsonaro ‘virou as costas’ para SP

Em sabatina do ‘Estadão’, prefeito acusa presidente, que apoia o rival Celso Russomanno, de diminuir os recursos federais repassados à cidade pelo governo federal

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2020 | 15h36
Atualizado 16 de outubro de 2020 | 14h49

O prefeito e candidato à reeleição em São Paulo, Bruno Covas (PSDB), criticou uma queda nos recursos federais repassados pelo governo Jair Bolsonaro à capital paulista e nacionalizou a campanha durante a primeira sabatina do Estadão nas eleições municipais da capital paulista realizada nesta quinta-feira, 15.

Covas disse que Bolsonaro “virou as costas à cidade”, e que o presidente deve explicações pela diminuição no envio de recursos. A declaração serviu como crítica também a seu principal concorrente na disputa, Celso Russomanno (Republicanos), que é apoiado pelo presidente.

“O presidente podia aproveitar então, já que está dedicado e focado na campanha do Celso Russomanno, (para explicar) por que ele diminuiu as transferências voluntárias à cidade de São Paulo em 97%, quando comparado o último ano da gestão (Michel) Temer com o ano de 2020”, disse Covas. 

Transferência voluntária é o nome que se dá ao repasse de recursos da União para Estados ou municípios. A conta exclui transferências obrigatórias, como repasse de dinheiro para o Sistema Único de Saúde.

“Ele podia explicar por que virou as costas para a cidade de São Paulo nesses dois anos, e o candidato dele (Russomanno) pode explicar por quê, nesses dois anos, ele não ajudou a cidade de São Paulo a buscar esses recursos que foram reduzidos pela administração federal”, disse Covas. Ele esclareceu no entanto, que apesar da queda nos repasses voluntários, a Prefeitura conseguiu um total de R$ 2,5 bilhões com os governos estadual e federal para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. Procurado para comentar o assunto, o Planalto não respondeu.

O prefeito também evitou chamar a queda nos repasses como de “boicote deliberado”, mas deixou aos espectadores a conclusão. “Vocês podem classificar o que é isso”, ele disse os jornalistas.

Abaixo, veja outros destaques da sabatina do ‘Estadão’ com Bruno Covas

Relação com João Doria

Questionado sobre a ausência de João Doria (PSDB) na campanha, Covas garantiu que seu colega de chapa em 2016 deve aparecer nas peças da propaganda eleitoral. “Não tenho nenhum problema em mostrar pessoas que me apoiam, não escondo meus apoiadores”, disse o prefeito.

Ele também rejeitou a hipótese de estar escondendo o nome do seu partido nas peças de campanha. “Todo mundo sabe que eu sou do PSDB, meu nome é do PSDB”, disse o prefeito em referência ao seu avô, o ex-governador Mário Covas

Posicionamento no espectro político

No contexto da polarização política no Brasil entre a esquerda e a direita, o tucano também foi questionado sobre o seu posicionamento no espectro político, já que mesmo dentro do próprio partido há uma divisão de alas mais conservadoras do chamado “novo PSDB” e as mais progressistas do “PSDB raiz”.

Em resposta, Covas disse que, durante os governos petistas, foi chamado de neoliberal, enquanto no governo atual já foi chamado de comunista. Segundo ele, isso depende da visão individual de cada um. “As pessoas têm entendimentos distintos do que é esquerda e do que é direita. Não tenho problema em aprofundar parcerias com o setor privado.”

Ele também destacou a sua visão sobre o papel do Estado. “Eu não sou a favor do Estado mínimo ou do Estado máximo, eu sou a favor do Estado necessário para reduzir desigualdades.”

Medidas ‘eleitoreiras’

Covas negou que tenha deixado obras para este ano com intenção de angariar apoio eleitoral. Reportagem do Estadão mostrou que a previsão de gastos para obras e compras de equipamentos neste ano, R$ 10,6 bilhões, é 30% maior do que a média dos três anos anteriores – R$ 8,1 bilhões. “Não dá para governar a cidade apenas por três anos, sou prefeito até o dia 31 de dezembro e não vou ter receio de continuar a governar a cidade de São Paulo só porque vão levantar a possibilidade de que as ações são eleitoreiras.”.  

Obras no Vale do Anhangabaú

Alvo de críticas, a reforma na região central foi defendida pelo prefeito como um investimento na retomada econômica da cidade. Os concorrentes de Covas têm questionado o valor da obra, calculado em torno de R$ 100 milhões. O tucano diz que o valor foi orçado durante a gestão de Fernando Haddad (PT) na Prefeitura, e apenas executado agora. 

“Levantamentos da Prefeitura mostram que, entre revalorização da região e geração de emprego e renda, nós temos um ganho na cidade de R$ 250 milhões por ano”, justificou. 

Cracolândia

Covas foi questionado sobre a situação da Cracolândia e quais são os planos da campanha dele para a região. Ele  afirmou que vai continuar com ações que já tinham sido implementadas e que têm sido efetivas na área.

“Vamos continuar uma ação lá que é a presença permanente da GCM e de redução de danos, com área assistencial, hospital de acolhimento e oferta de um tratamento de saúde individualizado”, explicou. “Aí sim, a porta de saída é acesso ao emprego depois do tratamento.”

O tucano também destacou o processo de demolição de várias estruturas na região da Cracolândia nesta quarta-feira, que, segundo ele, para viabilizar a Parceria Público Privada (PPP) da Habitação na região.

Parque do Minhocão

Quando Covas assumiu a Prefeitura de São Paulo com a saída de João Doria para as eleições para governador, um dos principais motes da gestão era transformar o Minhocão em um parque permanente. Essa meta não estava no plano de governo e Covas foi questionou se ele tinha desistido da ideia.

O prefeito respondeu que só não implementou o projeto do Parque do Minhocão pois tinha sido barrado na justiça até recentemente. Ele afirmou que ainda pretende criar o parque, mesmo que não esteja explícito no seu plano de governo. “Não está no plano porque o plano é apresentado e sofre alterações durante a campanha. Não há problemas.”

Projeto de Renda mínima

O prefeito afirmou que há recursos em caixa para pagar uma complementação do auxílio emergencial federal para um milhão de moradores até o fim deste ano. Ele reiterou seu apoio a um projeto de lei do vereador Eduardo Suplicy (PT) que trata da transferência de renda. 

“Já fizemos as contas, é possível complementar (o valor) para um milhão de pessoas na cidade de São Paulo, algo em torno de R$ 100 por mês em outubro, novembro e dezembro”, disse. Segundo o prefeito, o assunto não havia sido discutido antes pois havia incerteza sobre a situação orçamentária. “Fomos tratando a cada semana com uma nova avaliação das contas públicas.”

Morador de rua

Covas também foi questionado sobre proposta do seu plano de governo que prevê um hospital exclusivo para morador de rua e que, como o Estadão mostrou, é considerado excludente por especialistas. “Eu disse que seria um hospital de referência e que ajudaria a rede a atender a população de rua.” A campanha disse que vai corrigir o plano entregue à Justiça.

 

Volta às aulas

O prefeito reiterou sua decisão de reabrir escolas municipais apenas para atividades extracurriculares, sem o retorno de aulas com conteúdo curricular. Ele disse que a gestão municipal aguarda o resultado de pesquisas que devem mostrar quantos alunos e professores estão imunizados contra a covid-19. “Estamos seguindo o recomendado pela área da Saúde. Não tenho satisfação em determinar fechamento de escola, mas sou responsável pela saúde dos alunos na rede municipal.” 

Periferia

Covas refutou reclamações de que não fez obras nas periferias da capital, e disse que a marca de sua gestão foi o investimento social. Ele diz que destinou R$ 900 milhões para construção de moradia, urbanização de favelas e regularização fundiária no orçamento municipal de 2021, que ainda deve ser aprovado pela Câmara.

“Só ali em Paraisópolis nós ampliamos os cinco equipamentos que a Prefeitura tem na área da saúde. Hoje Paraisópolis é 100% atendida pelos profissionais das equipes da Saúde da Família, os 12 CEUs que nós inauguramos são na periferia da cidade”, disse Covas. “Toda ação que é feita de ampliação de leitos hospitalares é para poder atender a população da periferia da cidade.”

Negros e mulheres nas secretarias

Bruno Covas também foi questionado sobre a diversidade na prefeitura. Ela perguntou quantos secretários negros e quantas mulheres há no governo e o que ele vai fazer para ampliar a inclusão. Em resposta, o prefeito admitiu que também não está satisfeito com a atual falta de diversidade na gestão.

“Não há nenhum secretário negro. Secretárias mulheres há cinco. E há a comandante da GCM, uma mulher negra”, contabilizou ele. O tucano prometeu, se for reeleito, que sua próxima gestão terá mais negros, homens e mulheres, em cargos de comando na Prefeitura.

Tratamento do câncer e transparência

Por fim, o prefeito também foi questionado por Vera sobre a sua saúde, já que desde 2019 ele trata de um câncer metastático no sistema digestivo. Covas respondeu que seus últimos exames foram bastante otimistas e que o tratamento de imunoterapia feito para combater o último tumor nos linfonodos tem surtido efeito. “Os médicos estão animados, estou liberado para qualquer atividade e trabalho, sem restrições. Estou confiante.”

O tucano ainda destacou a importância de ser transparente com a população com relação ao seu estado de saúde, que ele diz ser obrigação de todo político. “É obrigação minha prestar esclarecimentos. Quis dar 100% de transparência às etapas das descobertas”, afirmou. /ADRIANA FERRAZ, PEDRO VENCESLAU, TULIO KRUSE e DIEGO KERBER

 

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