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Críticas de Cid Gomes ampliam isolamento do PT

Irmão de Ciro Gomes expõe mal-estar entre as siglas de esquerda; campanha Haddad vê como cada vez mais remota a possibilidade de uma frente contra Bolsonaro

Ricardo Galhardo, Daniel Weterman e Renan Truffi, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2018 | 14h45
Atualizado 16 Outubro 2018 | 23h17

A pouco mais de uma semana da votação em segundo turno, as críticas do senador eleito Cid Gomes (PDT) – irmão de Ciro Gomes – ao PT expuseram o mal-estar na esquerda e fizeram com que a campanha de Fernando Haddad se resignasse com a cada vez mais remota possibilidade de atrair o apoio de uma frente de partidos na disputa contra Jair Bolsonaro (PSL).

Até o momento a campanha de Haddad vive um isolamento no campo ideológico e conquistou adesões protocolares entre siglas de esquerda (PCB, PSB, PSOL) que não estavam coligadas com o PT no primeiro turno. O PDT, principal cobiça, porém, anunciou apenas um “apoio crítico”.

Em ato realizado em Fortaleza (CE), na noite desta segunda-feira, 15, Cid disse que o PT deveria fazer uma autocrítica e assumir que fez “muita besteira” para não “perder feio” de Bolsonaro. O pedetista foi vaiado pela plateia, que começou a gritar o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Operação Lava Jato

Nesta terça-feira, em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele reiterou as críticas. “Se tem uma possibilidade de reversão desse quadro (liderança de Bolsonaro), extremamente avesso ao Haddad, que eu considero o melhor candidato, é a gente ir no nó da questão, que é essa ânsia, essa raiva, essa vingança, que boa parte dos brasileiros tem em relação ao PT”, disse. “Penso que a única forma de se contrapor a esse sentimento é desvincular. É um pedido de desculpas, é o reconhecimento de erros (por parte do PT).”

A reação de Haddad foi tentar minimizar o episódio – que foi explorado por Bolsonaro em seu programa eleitoral na TV. “Uma coisa meio acalorada, não vou ficar comentando isso até porque eu tenho uma amizade com o Cid, ele fez elogios à minha pessoa”, disse o petista. 

Após o primeiro turno, o PT esperava formar o que chegou a ser chamado de “frente democrática” contra Bolsonaro. Ao atrair apoio de outros partidos e de parte da sociedade civil, a campanha buscava criar um caráter suprapartidário para defender a eleição de Haddad. 

A principal expectativa da campanha petista era atrair Ciro no segundo turno. Porém, o ex-presidenciável do PDT viajou para a Europa e não aceitou chefiar a equipe do programa econômico do petista. Ele também não deverá subir no palanque com Haddad, muito menos fazer fotos para indicar o “apoio crítico”, aprovado em reunião da executiva nacional do PDT na semana passada.

Não foi o único contratempo enfrentado até agora pela campanha do PT. Haddad tentou se aproximar do ex-ministro e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa. O ex-relator do processo do mensalão na Corte, contudo, não se comprometeu com um apoio público ao petista. Barbosa se filiou ao PSB e chegou a ensaiar uma candidatura ao Palácio do Planalto, mas recuou. 

Não houve avanço também na aproximação do partido com integrantes do PSDB, com quem o PT polarizou a disputa eleitoral nos últimos anos. Em entrevista ao Estado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que não aceitava “coação moral” dos que agora buscam seu apoio. 

Diante das críticas de Cid Gomes, o articulador político da campanha de Haddad à Presidência, Jaques Wagner, disse que aposta em um apoio da sociedade, sinalizando que não conta mais com a ampliação de acordos com outros partidos.

Para Wagner, as críticas de Cid Gomes foram feitas “no calor da campanha” e já é suficiente contar com o “apoio crítico” do PDT. “As pessoas vão votar já. O Fernando Henrique diz que não vota no outro, o Ciro já disse que não vota no outro.”

Em conversas reservadas, alguns dirigentes do PT afirmam que os ataques de Cid somados às declarações recentes do presidente do PDT, Carlos Lupi, e à viagem de Ciro para o exterior seriam movimentos que visam definir o papel do PDT. A avaliação é que a sigla quer demarcar diferenças em relação ao PT por um protagonismo na oposição em eventual governo Bolsonaro.

A análise também é feita entre os pedetistas em relação ao PT. Ao Estadão/Broadcast, Cid afirmou que parte do PT já deu por perdida a disputa presidencial no segundo turno das eleições e está “se lixando” para Haddad. “Eles (petistas) querem ser hegemônicos inclusive na oposição. Boa parte da companheirada aí já deu por perdido (o segundo turno) e está pensando nisso, em ser hegemônico na oposição. Estão se lixando para o Haddad.” / COLABOROU MATHEUS LARA

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