FERNANDO GOMES/AGÊNCIA RBS
FERNANDO GOMES/AGÊNCIA RBS

Para preservar campanha, Bolsonaro impõe silêncio a Mourão

A dirigentes lojistas, general comparou pagamento de direitos trabalhistas a ‘jabuticabas’; ao reagir, candidato do PSL diz que crítica é ‘desconhecer a Constituição’

Constança Rezende, Tânia Monteiro, Leonencio Nossa, Fernando Nakagawa e Filipe Strazzer, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2018 | 22h27

A declaração do general Hamilton Mourão, vice na chapa de Jair Bolsonaro, sobre o 13.º salário e o pagamento de adicional de férias no País, causou uma crise na campanha do candidato do PSL. Em palestra na Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, Mourão criticou os benefícios previstos na lei trabalhista, que foram classificados por ele como “jabuticabas” – ou seja, só ocorrem no Brasil.

Filiado ao PRTB (legenda que se coligou com o PSL), o candidato a vice de Bolsonaro coleciona declarações polêmicas na disputa presidencial.

Após a divulgação do vídeo, Bolsonaro, líder nas pesquisas de intenção de voto, usou o Twitter para contestar o próprio vice afirmando que criticar o 13.º salário, “além de uma ofensa à (sic) quem trabalha”, é de alguém que “confessa desconhecer a Constituição”.

Além da resposta dura do candidato, a campanha de Bolsonaro determinou o cancelamento de todas as agendas públicas de Mourão até o dia da votação do primeiro turno, 7 de outubro. A declaração serviu de munição para os adversários.

Na noite desta quinta-feira, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, explorou o tema no horário eleitoral na TV, fazendo ainda uma associação com os atos anti-Bolsonaro de mulheres previstos para amanhã: “Campanha de Bolsonaro quer acabar com o 13º. Prepare seu bolso. EleNão, 13º sim”.

“Esses caras estão com a cabeça no século 19. Abolimos a escravidão e eles não acordaram para isso ainda”, disse o candidato petista Fernando Haddad, em Porto Alegre. 

Assessores relataram que o candidato do PSL chegou ao limite de sua paciência com o companheiro de chapa. Internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde se recupera da facada que levou em Juiz de Fora (MG), no dia 6, Bolsonaro fez questão de mandar para o próprio Mourão o texto que publicaria no Twitter ressaltando que o general ofendeu trabalhadores e demonstrou desconhecer a Constituição. “Siga em frente, Bolsonaro”, respondeu o vice, resignado, por mensagem pelo WhatsApp.

Prioridade era estancar crise na campanha

No entorno de Bolsonaro a conclusão foi de que a prioridade era estancar uma crise com potencial de tirar, na reta final do primeiro turno, a liderança nas pesquisas. Para assessores, não havia sentido em poupar o vice da chapa e deixar a campanha naufragar. Segundo assessores, o impacto da declaração de Mourão no núcleo da campanha foi mais forte que o anúncio do economista Paulo Guedes, conselheiro de Bolsonaro, de criar dois impostos nos moldes da extinta CPMF, na semana passada

Durante a tarde, até generais próximos de Mourão chegaram a defender em grupos de WhatsApp a possibilidade da retirada do vice da chapa, tamanha a irritação. Bolsonaro acertou com seu vice um encontro assim que ele deixar o hospital. A bronca pública foi fruto de uma máxima conhecida entre a cúpula do PSL de que ninguém deve se meter em conflitos entre o presidenciável e seu vice.

Na palestra no Sul, Mourão tratou dos benefícios trabalhistas ao falar sobre “umas jabuticabas” que “são uma mochila nas costas de todo empresário”. “Jabuticabas brasileiras: 13º salário. Como a gente arrecada 12 (meses) e pagamos 13? O Brasil é o único lugar onde a pessoa entra em férias e ganha mais”, completou. “São coisas nossas, a legislação que está aí. A visão dita social com o chapéu dos outros e não do governo.”

Mourão nunca foi a primeira opção de Bolsonaro para a vice. Em julho, quando o então pré-candidato à Presidência buscava um parceiro de chapa, o general da reserva era considerado apenas um entre vários jogadores que estavam no “banco” como opção para a vaga. Antes de optar por Mourão, Bolsonaro tentou o senador Magno Malta (PR-ES), o general da reserva Augusto Heleno Ribeiro (PRP) e a professora Janaína Paschoal (PSL). Heleno, a figura que Bolsonaro tem mais apreço no setor militar, estava filiado ao partido de Antony Garotinho, o que dificultou a escolha de seu nome.

‘Vou ficar em silêncio obsequioso’, diz general

Ao Estado, Mourão disse que não defendeu o fim do 13.º, e que suas palavras foram distorcidas.  Mourão afirmou que, após a polêmica causada por suas declarações, pretende se impor um “silêncio obsequioso”. “Vou ficar igual ao frei Leonardo Boff. Vou ficar em silêncio obsequioso. É uma boa linha de ação”, disse ele, que no fim de semana pretende visitar Bolsonaro.

Mourão afirmou que “não se sentiu desautorizado” “nem constrangido” e que não pensou em se afastar da campanha. “Estamos em combate e, quando a gente está em combate, ocorrem estas coisas.”

Ele afirmou que, antes de divulgar mensagem no Twitter, na qual diz que Bolsonaro lhe mandou a íntegra do texto informando o teor. “E eu achei que estava muito bem colocado e disse a ele: siga em frente.” Na rede social, Bolsonaro afirma que o 13.º é cláusula pétrea e que quem o critica “confessa desconhecer a Constituição”.

O general afirmou que não se sentiu desautorizado. “Não falei o que estão dizendo que eu falei. Falei dentro de um contexto de gerenciamento”, disse. Segundo ele, foi “um alerta sobre o custo extra para os empresários e os próprios governos, de um planejamento gerencial necessário para que o 13.º salário seja pago”. “Trata-se de um custo social, que faz parte do chamado custo Brasil”, disse. 

Mourão afirmou ainda que “obviamente” não é contra o pagamento do 13º salário “porque não posso ser contra algo que eu recebo”. “O problema é que, dentro deste contexto que estamos vivendo, a pessoa pega e distorce. Estou aguardando a onda passar”, disse. 

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