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Eliane Cantanhêde
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Campanha catatônica

A facada em Bolsonaro atinge uma pessoa, o líder nas pesquisas e a própria eleição

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 05h00

O ataque contra Jair Bolsonaro é de extrema gravidade porque atinge uma pessoa, um deputado, o líder nas pesquisas presidenciais. E mais: afeta diretamente as eleições e joga a pobre democracia brasileira no perigoso terreno das fake news, do oportunismo político e do jogo das acusações levianas, recheadas de interesses os mais diversos e danosos.

O mais importante, neste primeiro momento, é a solidariedade humana com Bolsonaro. Goste-se ou não das suas ideias e do que projeta caso seja eleito presidente, ele é a vítima. Jamais podemos transformar vítimas em réus, como muitas vezes ocorre com mulheres estupradas, espancadas e até mortas. Vítimas são sempre e, simplesmente, vítimas.

Mas, a menos de um mês da eleição, e tratando-se de quem se trata, é fundamental também investigar eventuais motivações políticas, evitar a contaminação mortal das eleições e, principalmente, uma metralhadora giratória contra “culpados” que só têm “culpa” nas irresponsáveis ou manipuladas redes sociais. Se já estão fora do controle normalmente, imagine-se onde podem parar depois dessa tragédia...

O fato, em si, é lamentável e condenável sob todos os aspectos e une os candidatos dos diferentes partidos e tendências na indignação. Mas é preciso, a bem do processo, a bem da democracia, que fique restrito ao que é, não ao que querem que seja.

O criminoso atribuiu sua ação a “questões pessoais”, mas toda a sua vida e todas as suas ligações ou preferências políticas estão sendo levantadas, para que não pairem dúvidas nem fantasmas que às vezes duram anos ou décadas, aqui e lá fora. Vide os assassinatos de John Kennedy, na maior democracia do planeta, e de Celso Daniel e de PC Farias, nas nossas barbas.

No caso de Bolsonaro, nenhuma versão política está autorizada, não apenas pelo mero bom senso como pela gravidade que tudo isso assumiu. Não se invente que os bolsonaristas tentaram criar um “mártir”, nem que as esquerdas tentaram eliminar à faca um candidato que cresce à custa de armas, nem que sei lá quem tenta incriminar o partido tal ou qual para demonizá-lo no eleitorado, na opinião pública.

Até este momento, tudo isso não é apenas elucubração, é o mais torpe uso político de um ataque que poderia ter custado a vida de alguém, e alguém que lidera as pesquisas – e a rejeição – na corrida à Presidência da República.

O atentado ocorre justamente no dia seguinte à divulgação da pesquisa Ibope que mostra o crescimento de dois pontos nas intenções de votos de Bolsonaro, de 20% para 22%, confirmando a consolidação de sua liderança. Quem esperava que ele “esfarelaria” com a campanha enganou-se.

Mas, se é campeão de intenções de votos, ele é também campeão de rejeição. E, neste caso, a subida não foi apenas de dois pontos, mas de sete pontos: de 37% para 44%. Dizem os experts em pesquisas que uma rejeição acima de 40% costuma ser fatal para candidatos e o próprio Ibope ilustra com clareza essa constatação. 

Se é o favorito no primeiro turno, Bolsonaro perde no segundo, de nove a onze pontos, para Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. E empata em 37% a 36% com o petista Fernando Haddad, que só assumirá oficialmente a candidatura no dia 11, terça-feira. 

De toda forma, Jair Bolsonaro já conquistou o título de grande fenômeno destas eleições e a facada que o atingiu ontem atinge também todo o processo eleitoral, que está em suspenso. Ciro Gomes, Marina e Alckmin já tinham cancelado seus compromissos de campanha desde ontem e, se a eleição já era imprevisível, agora está catatônica.

Tudo parou, tudo congelou e o País inteiro só fala numa coisa: Bolsonaro. Inclusive, ou principalmente, os próprios adversários dele.

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