Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Cabo Daciolo: De grevista a fruto de Deus vivo

Deputado federal já foi expulso do Corpo de Bombeiros, disse que queria militares no Ministério da Defesa e foi excluído de partido por apresentar projeto que pedia para acrescentar trecho religioso na Constituição

Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2018 | 13h33
Atualizado 10 Agosto 2018 | 22h08

RIO - Autodenominado “fruto de um Deus vivo”, Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos – o deputado federal conhecido como Cabo Daciolo (RJ) – mistura atitudes rebeldes, pedidos de mais amor e orações em momentos inusitados.  Defensor de militares e evangélicos, o catarinense de Florianópolis começou sua carreira política no  PSOL, passou pelo  PTdoB  e pelo Avante e está atualmente no Patriota (ex-PEN). Sempre faz pronunciamentos marcados por citações religiosas e em tom que mescla messianismo e até teorias conspiratórias.

O deputado-bombeiro de 42 anos, terceiro sargento da reserva, ganhou notoriedade por sua atuação na greve da corporação no Rio em 2011, no governo de Sergio Cabral Filho (MDB). Líder do movimento que pedia auxílio-transporte para os bombeiros militares, melhores condições de trabalho e aumento do piso salarial da corporação, Daciolo foi um dos militantes que ocuparam o Quartel Central, no Centro velho do Rio, em ação dos praças da corporação e seus familiares.

Acabou preso disciplinarmente e, junto com outros 13 bombeiros, foi expulso da corporação. O Conselho de Disciplina dos Bombeiros do Rio o considerou culpado de incitamento e aliciamento para motim, articulação, “de caráter político-partidário” e por levar a tropa “à prática de ilícitos de natureza disciplinar e penal militar”. Também foi responsabilizado por adoção de conduta incompatível com a missão de bombeiro-militar. 

O líder-bombeiro e seus colegas  foram anistiados pelo Estado e pelo governo federal, mas seu carisma chamou a atenção do PSOL, que se aproximara da categoria durante o movimento. Em 2014, o partido o convidou a integrar a legenda e concorrer à Câmara. Foi eleito deputado federal com 49.831 votos. A votação expressiva veio mesmo depois que Daciolo foi excluído da propaganda da TV pelo PSOL. A legenda avaliou que, por ter pouco tempo, deveria priorizar candidatos com mais potencial de votação. 

Daciolo teve muitos votos entre PMs de baixa patente, por sua defesa da PEC 300. A proposta vincula vencimentos de bombeiros e policiais militares de todos os Estados aos da PM do Distrito Federal, os mais altos do País.

O romance do bombeiro com o  esquerdista e laico PSOL durou menos de um ano, porque sua atuação na Câmara surpreendeu – negativamente – o partido. Daciolo repetia da tribuna parlamentar que seu mandato “era de Deus” e apresentou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para que o texto constitucional afirmasse que “todo poder emana de Deus”. O texto diz que "todo poder emana do povo" e determina que o Estado brasileiro seja neutro em relação às religiões. Também anunciou que queria os militares no comando do Ministério da Defesa, de preferência um oficial-general.

O líder bombeiro também irritou o partido quando acusou de ilegal a prisão preventiva dos PMs acusados da tortura, assassinato e desaparecimento do auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, em 2013. Daciolo afirmou que os réus eram inocentes e reivindicou que seu então companheiro de partido, o deputado estadual Marcelo Freixo, conhecido por sua atuação na defesa dos direitos humanos, visitasse os presos. Foi expulso do PSOL, acusado de descumprir as orientações da liderança do partido.

Daciolo  “profetizou” a "cura" de sua colega, a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP), tetraplégica após um acidente de carro em 1994. Em uma sessão no plenário da Câmara dos Deputados, advertiu os colegas que o que ia dizer seria visto como loucura por alguns. A deputada, afirmou, ia “levantar da cadeira e começar a andar”.

“Há dois anos Deus me cobra para falar algo para essa deputada. Quero diante de todos profetizar a cura da deputada Mara. Eu creio que aquela mulher vai levantar da cadeira e começar a andar. Eu peço ao Deus das causas impossíveis que Ele possa estender a mão Dele e possa tocar na sua serva", afirmou, apontando para a deputada, com a Bíblia nas mãos. “Eu saio daqui e vou me direcionar a ela. Vou a um lugar em particular. Creio que em alguns minutos ela voltará a andar", disse. 

É justamente da mistura de religião e política que reclamam bombeiros que militaram com Daciolo. Eles dizem que atualmente o parlamentar é um representante na Câmara de setores evangélicos, não deles.

O ápice desse estranhamento teria ocorrido durante a organização de uma mobilização dos bombeiros para ocupar as galerias da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em 2015. Eles protestariam contra o parcelamento do 13º salário da categoria, e pediam que Daciolo, já eleito deputado federal, os apoiasse. Ouviram, porém, do líder que a “guerra” da corporação deveria ser “espiritual” e que não era para ninguém ir para as ruas. 

“Ali acabou a nossa amizade”, diz Mesac Eflaíno, que foi presidente da Associação dos Bombeiros Militares do Rio de 2013 até este ano. 

Mesac também conta que o cabo costumava pedir rodas de oração nos momentos mais imprevisíveis. Um exemplo ocorreu foi durante a invasão de policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no Quartel-Central, durante a greve.

 “Ele nos pediu que, quando o Bope invadisse o quartel, nós nos ajoelhássemos e começássemos a rezar. Lógico que isso não deu certo, porque eles entraram com muita truculência, disparando bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e até de arma de fogo”, disse. “Antes de começar qualquer passeata ele também nos pedia que fizéssemos uma oração”, conta. 

Outro fato inusitado ocorreu quando Daciolo pediu a cerca de 900 bombeiros que foram a Brasília pedir anistia que fizessem greve de fome até que o pedido entrasse na pauta de votação.

“Nós ficamos umas quatro horas em jejum, até que decidiram incluir o pedido na pauta do dia seguinte. É claro que alguns desobedeceram e comeram biscoito”, contou.

No PSOL, Daciolo também provocou desilusão. Militantes do partido que o chamaram para integrar o partido postaram, nesta sexta-feira, 10, no Facebook que preferiam “nem ter passado na (Avenida) Rio Branco”, no dia em que se encantaram com o líder Daciolo da manifestação dos bombeiros que desfilava pela via.

“O problema nunca esteve com o Daciolo, o cabo sempre foi aquilo, mas com nossas imprecisões, nossas análises apenas empíricas, nossos oportunismos, sindicais ou eleitoreiros, e ainda com nossas fantasias classistas e revolucionárias”, escreveu Rafael Nunes. “Que assumamos os nossos erros”, completou.

Segundo o militante, Daciolo sempre foi, em última instância, “movido por Deus através de sonhos e de um suposto canal direto de comunicação”. 

“Um belo dia, inclusive, disse que Deus mandou ele (sic) ser presidente do Brasil. Ocorreram muitos erros, mas era fato que o Daciolo era um grande líder sindical, na mesma proporção do fanatismo religioso”, contou.

Daciolo já foi frequentador da igreja evangélica Bola de Neve, criada por um surfista. Hoje, vai à Assembleia de Deus, porém prefere não ser vinculado  a nenhuma igreja. 

As menções a Cabo Daciolo superaram aos principais candidatos no Twitter no debate presidencial. Ele ficou em segundo lugar entre os temas mais comentados da rede social, abaixo apenas da hashtag geral do debate da Band.

O Estado tentou entrevistar o deputado, mas não teve êxito.

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