Bolsonaristas fazem autocrítica após fracasso nas urnas

Aliados do presidente tentam explicar o revés no primeiro turno e criticam até o Centrão, aliado do próprio governo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2020 | 18h04

Caro leitor,

O bolsonarismo foi para o divã. A derrapada dos conservadores no primeiro turno das eleições municipais, neste domingo, 15, provocou uma avalanche de avaliações desencontradas para explicar derrotas de candidatos apoiados por Jair Bolsonaro e traçar os próximos passos do confronto. Enquanto o presidente e seu filho Carlos Bolsonaro, reeleito vereador pelo Republicanos, minimizaram o impacto do revés político, aliados bolsonaristas usaram as redes sociais para mostrar preocupação com o mau desempenho nas urnas.

Em postagens publicadas nesta segunda-feira, 16, o assessor-chefe para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, pregou uma autocrítica da extrema-direita, disse ser preciso entender o que ocorre no dia-a-dia da população e insinuou que partidos do Centrão só colheram resultados promissores porque contaram com a ajuda financeira do governo. Chamado de “velha política” por Bolsonaro em um passado não muito distante, o Centrão foi resgatado pelo presidente e virou aliado de primeira hora do Palácio do Planalto em troca de cargos e verbas.

“Com uma abstenção elevada, a constância da mobilização esquerdista falou mais alto e a esquerda ressuscitou; e a motivação permanente ($$$) dos partidos fisiológicos se impôs mais uma vez e permitiu que eles voltassem a crescer. Ou enfrentamos isso, ou seguiremos perdendo”, escreveu Filipe Martins no Twitter.

O triunfo eleitoral do Centrão, chefiado pelo deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), candidato à sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Câmara, aumentou o poder de fogo do bloco no Congresso e jogou os holofotes sobre a desidratação das candidaturas apoiadas pelo presidente. Os resultados também chamaram a atenção para o fiasco do PSL. O partido que elegeu Bolsonaro em 2018 e foi abandonado por ele no ano passado teve problemas na largada deste ano nas urnas. Candidata do PSL à Prefeitura de São Paulo, a deputada Joice Hasselmann (SP), que foi líder do governo no Congresso e brigou com Bolsonaro, entrou para o time dos nanicos.

Na propaganda política que fez em “lives” gravadas no Palácio da Alvorada, ao longo das últimas semanas,  o presidente pediu voto para 59 candidatos. Somente dois concorrentes a prefeito avalizados por Bolsonaro foram eleitos – um em Ipatinga (MG) e outro em Parnaíba (PI) – e outros dois conseguiram passar para a próxima etapa da disputa – Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio, e Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza. Dos 45 candidatos a vereador apoiados por Bolsonaro, apenas 9 foram vitoriosos.

A ala ideológica do governo e os adeptos do “bolsonarismo raiz”  também ficaram incomodados com o avanço do discurso antagônico à pauta de costumes defendida por Bolsonaro. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que o PSOL foi o partido que elegeu o maior número de pessoas LGBTI no País, com 25%. Em segundo lugar vem o PT, com 22,7%, e em terceiro, o PDT, com 2,3%.  Dois candidatos transexuais ficaram na lista dos dez mais votados para a Câmara Municipal de São Paulo.

Além disso, o candidato do PSOL à Prefeitura, Guilherme Boulos, um dos maiores críticos de Bolsonaro nessa corrida, foi para o segundo turno e será o desafiante do prefeito Bruno Covas (PSDB). Boulos atropelou o deputado Celso Russomanno (Republicanos), que contava com respaldo do presidente e amargou o quarto lugar na disputa.

Embora tenha sido reeleito vereador no Rio com aproximadamente 35 mil votos a menos do que em 2016, Carlos Bolsonaro, o “zero dois”, não concorda com a necessidade de autocrítica no bolsonarismo. Ao contrário: responsável pelas redes sociais do pai, e comandante do chamado “gabinete do ódio” no Planalto, o vereador apontou o fiasco eleitoral para o lado do PT.

“Se engana quem acha que o presidente sai derrotado dessa aí. Essa narrativa vai por água abaixo. Basta você olhar o que aconteceu no Nordeste, onde o PT perdeu praticamente todas as capitais e isso não acontecia há muito tempo. Tenha certeza que isso é trabalho do presidente e de seus ministros”, disse Carlos, ainda no domingo, em vídeo publicado nas redes sociais.

Das nove capitais do Nordeste, o PT disputou oito com candidatos próprios – apenas em São Luiz fez aliança com o PC do B. Perdeu em sete e só conseguiu ir para o segundo turno no Recife (PE) com Marília Arraes. Pesquisas indicaram que a popularidade de Bolsonaro cresceu na região desde que o governo passou a pagar um auxilio-emergencial para conter os efeitos da pandemia de coronavírus. A ajuda financeira paga pelo governo começou com R$ 600, passou para R$ 300 e deve continuar no ano que vem, mas o presidente ainda não chegou a um acordo com a equipe sobre como fazer o que o ministro da Economia, Paulo Guedes, chama de “aterrissagem”.

As urnas mostraram que o Nordeste não é mais um celeiro de votos do PT. Candidatos petistas em Salvador, Fortaleza, Natal e Teresina – capitais de Estados governados pelo partido – foram derrotados, mas nem todos os eleitos na região nem os que passaram para o segundo turno são ligados a Bolsonaro. 

“(...) Precisamos aprender com os nossos erros, tanto coletivos quanto individuais. Se seguirmos pensando, cada um, no erro do outro, seguiremos fracassando. A auto-crítica deve ocorrer em todos os níveis: do nível governamental, passando pelo da base, até o nível pessoal”, disse Filipe Martins no Twitter.

Discípulo do escritor Olavo de Carvalho e um dos expoentes da ala ideológica do governo, o assessor de Bolsonaro afirmou que a vitória eleitoral do grupo em 2018 foi “circunstancial”, fruto de uma conjunção de uma conjuntura favorável, “construída” desde 2013. Na sequência de posts, Martins deu uma bronca virtual nos militantes.

“Para obtermos novas vitórias, precisamos de muito mais: temos que ter constância, organização estratégica e ritmo tático, para entrar e sair de qualquer confronto sem nos afetarmos por variáveis incontroláveis, sejam elas quais forem – de epidemias a sistemas eleitorais opacos”, observou, em referência indireta à pandemia do coronavírus e à eleição de Joe Biden nos Estados Unidos.

A vitória em cidades estratégicas nas disputas municipais é considerada um passo importante para a posição dos partidos e seus candidatos no jogo de 2022, quando haverá nova eleição presidencial. Bolsonaro está em campanha por um novo mandato e, por isso, a performance ruim foi vista como um revés importante para o Palácio do Planalto.

Bode expiatório

Na busca por bodes expiatórios, enquanto aliados do governo, como a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), citavam possíveis fraudes na apuração e Bolsonaro defendia o voto impresso, questionando a eficácia das urnas eletrônicas, Olavo de Carvalho empurrava a culpa para os generais.

“O péssimo desempenho dos bolsonaristas na eleição não tem mistério nenhum: ludibriado pela conversa mole de generais-melancias, o presidente confiou demais no sucesso inevitável de sua liderança pessoal, sem perceber que ela não passava, precisamente, disso: uma liderança pessoal sem respaldo militante e incapaz, por isso, de transmitir seu prestígio a qualquer aliado”, afirmou Olavo nas redes sociais. No linguajar do guru do bolsonarismo, “generais-melancias” são aqueles “verdes por fora”, por causa da farda, e “vermelhos por dentro”. Para o escritor, os militares que estão ao lado do presidente têm ideias comunistas.

Ao responder às críticas sobre a derrota nas eleições, Bolsonaro, por sua vez, jogou a culpa de tudo na mídia. “Parabéns pelo fiasco nas eleições municipais, continue ouvindo os generais do comando maluco que você vai longe”, afirmou no Facebook o internauta Leonardo Hotolian. Bolsonaro encerrou a conversa: “(...) Continue lendo a Folha e assistindo a TV Globo. Bom dia”.

O ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, não quis entrar na polêmica. No seu diagnóstico, a derrota foi da esquerda, e não de Bolsonaro. “(...) A esquerda perdeu muito espaço no cenário político. Além disso, os partidos aliados às pautas e ideais do Governo Bolsonaro saíram vitoriosos!”, afirmou ele no Twitter, discordando da ala ideológica do governo.

Em conversa com apoiadores no Alvorada, nesta segunda-feira, 16, Bolsonaro não quis fazer gravações, alegando ter dormido pouco. “Peço, por favor, eu não quero gravar nada. Não estou passando bem hoje. Desculpa aí”, disse o presidente.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.