REPRODUÇÃO
O filósofo Olavo de Carvalho REPRODUÇÃO

Olavo de Carvalho já perdeu 250 financiadores desde a eleição de Bolsonaro

'Guru' do Bolsonarismo é o principal alvo do Sleeping Giants, que pressiona empresas a retirarem recursos de páginas com conteúdos que classifica como de ódio e desinformação

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 11h45

BRASÍLIA - A influência exercida pelo “guru” do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, não é mais a mesma. O astrólogo da Virginia (EUA) comprou briga com governistas, perdeu espaço no Ministério da Educação, fez críticas ao presidente e, nos últimos meses, também passou a viver um ocaso financeiro. Ele é o principal alvo da nova etapa de campanha do Sleeping Giants, o movimento que pressiona empresas a retirarem recursos de páginas com conteúdos que classifica como de ódio e desinformação.

O grupo levou mais de 250 companhias a desassociarem suas marcas de conteúdos produzidos por Olavo. O controverso escritor, referência da extrema-direita brasileira, chegou a perder cerca de 30% dos alunos que pagavam para receber seus ensinamentos via PayPal, uma das companhias que o baniu. Uma chuva de queixas e problemas interditou o site do seu “seminário de filosofia”.

Agora, o Sleeping Giants direciona seus esforços para secar uma das principais fontes remanescentes de receita do escritor. O movimento orienta seus quase 400 mil seguidores os caminhos para que bombardeiem com reclamações caixas de mensagem de executivos da CPP Investments. A firma canadense é acionista da PagSeguro, empresa brasileira que não cedeu à pressão e mantém a conta pela qual Olavo arrecada com a venda de cursos. Até o início da semana passada, 10 mil pessoas haviam enviado mensagens, de acordo com o movimento.

A versão brasileira do Sleeping Giants se apresenta como um coletivo e não revela a identidade das pessoas que o conduzem. Em respostas a perguntas enviadas pelo Estadão, o grupo ressaltou, por escrito, que Olavo de Carvalho é, para eles, a figura que mais contribui para a radicalização da sociedade por conta do “conteúdo odioso” que propaga e do alcance que tem. “Estamos absolutamente convencidos de que a propaganda 'olavista' é parte fundamental desse processo de deterioração da democracia brasileira, pois efetivamente inflama a população, designa inimigos internos, dificulta o debate democrático, destrói a coesão social, adia a causa da paz e enfraquece valores civilizacionais sob os quais se assenta a frágil democracia brasileira”, disseram.

Olavo de Carvalho já usou seus canais e cursos para negar a existência do novo coronavírus, recomendar que as pessoas não deem vacinas aos filhos porque elas “matam ou endoidam”, atacar religiões, minimizar caso de estupro, defender prisão “sem direito de falar” para ministro da Suprema Corte brasileira e até recomendar que jornalistas sejam tratados “a ponta pé, como um cachorro”. “Esse pessoal que vem do Haiti e Senegal sabem o quê? Eles sabem o Alcorão, fumar maconha e vender crack”, disse o escritor em uma de suas aulas. “Eu acho que essas macumbas dão um azar desgraçado, porque onde tem isso todo mundo se ferra.”

Diante da ofensiva do Sleeping Giants, o escritor sentiu a pressão e pediu ajuda aos súditos. No fim de outubro, fez uma série de publicações com queixas contra as ações do site. Pediu para que seus alunos, leitores e amigos escrevam ao PayPal em protesto contra o bloqueio que lhe foi imposto e ao PagSeguro, com pedido para que a empresa não tome a mesma decisão.

Sobrou até para o chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência. “General Heleno, a sua querida Abin (Agência Brasileira de Inteligência) vai investigar as operações de boicote financeiro e intimidação realizadas por organizações comunoglobalistas contra aliados do governo? Vai nada. Vocês todos, somados, se cagam de medo até do Felipe Feto (referência pejorativa ao youtuber Felipe Neto)”, escreveu.

A intensificação da campanha contra as receitas de Olavo coincide com a cobrança de uma dívida robusta. O “guru” foi processado pelo cantor Caetano Veloso, em 2017, por publicações que acusavam o artista de pedofilia. No mesmo ano, a Justiça do Rio determinou a remoção dos posts, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. Olavo descumpriu a determinação e o valor alcançou, este mês, R$ 2,9 milhões.

A decisão que o intimou a pagar a dívida é de 10 de outubro. O prazo vence nos próximos dias. Enquanto isso, ele aguarda o julgamento de recurso ao Tribunal de Justiça do Rio para rediscutir o valor. Caso perca a apelação e não faça o pagamento, poderá ter bens penhorados no futuro.

Paralelamente, empresários liderados por Luciano Hang, aliado de primeira hora do bolsonarismo, preparam uma “vaquinha” para socorrer o escritor. A oferta de amparo surgiu no contexto de um vídeo, de junho, no qual Olavo de Carvalho esbravejou contra o suposto desinteresse do presidente Jair Bolsonaro em defendê-lo. “Bolsonaro, o que ele fez para me defender? Bosta nenhuma! Chega lá, me dá uma condecoraçãozinha… enfia essa condecoração no seu cu”, reclamou o “guru”. “Essas multas que esses caras estão cobrando de mim vão me arruinar totalmente.”

Desde a gestão de Ricardo Vélez na Educação, Olavo exercia forte influência na pasta. Após Milton Ribeiro assumir a função no lugar do também olavista Abraham Weintraub, duas pessoas que gozavam da plena simpatia do astrólogo foram demitidas. A secretária da educação básica, Ilona Becskeházy, e o assessor especial Sérgio Sant'Ana.

A última demonstração de insatisfação com o presidente foi no fim de setembro. O escritor usou as redes sociais para referir-se a Bolsonaro como “ingrato”. O distanciamento entre ambos coincide com a consolidação da aliança do presidente com o bloco dos partidos do Centrão e setores que antes criticava. Também ocorre no momento em que Bolsonaro mergulha numa fase moderada, interrompida somente pelos discursos na guerra das vacinas com o governo de São Paulo.

Atuação do Sleeping Giants no Brasil

O Sleeping Giants, em sua versão brasileira, passou a atuar em maio, por meio do Twitter. A inspiração veio de página homônima que surgiu nos Estados Unidos em 2016 para alertar empresas sobre o fato de seus anúncios aparecerem em sites famosos por notícias falsas.

Banners de publicidade são inseridos pelo Google Adsense em diversos sites e aplicativos. As empresas selecionam apenas o perfil do público alvo. Quando a conta anônima alerta para a associação das marcas com um conteúdo nocivo, elas pedem a restrição de seus anúncios para aquela página.

No Brasil, mais de 600 empresas reagiram às pressões do Sleeping Giants. Entre elas, gigantes como Dell, Submarino, Claro, McDonalds Brasil, Sky, Fiat e Riachuelo. No site de Olavo de Carvalho, cerca de 250 empresas anunciaram a remoção de anúncios. No canal que ele mantém no YouTube, mais de 80.

É um fenômeno propício aos tempos em que as grandes empresas demonstram preocupação em assumir posturas sociais e políticas. A crítica feita por grupos de direita é a de que uma página que oculta seus atores e alcança universo relativamente restrito de pessoas está determinando as políticas de publicidade das companhias com base em definições próprias, de um grupo anônimo, sobre o que é discurso de ódio e desinformação.

Especialista vê empresas "assustadas"

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidad Autónoma de Barcelona (Espanha) e professor da ESPM, Luiz Peres Neto avalia que empresas soam “assustadas” com as mudanças sociais e, em muitos casos, acabam tomando decisões empurradas pelas circunstâncias. Ele compara com adesões por conveniência ao Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”), sem qualquer política interna de combate ao racismo, por exemplo.

Peres Neto também chama a atenção para o fato de um grupo anônimo definir quem é ou não propagador de ódio. Mesmo assim, classifica como saudável a contribuição do Sleeping Giants para o debate público. “É preocupante que uma conta anônima diga o que é discurso de ódio, intolerância e fake news. Do ponto de vista de uma filosofia moral ou política, quem controla esse grupo? Como podem ser auditados? Mas, se eles não fazem, quem está fazendo? De alguma maneira, para o debate público, isso é muito saudável. Houve reação em vários âmbitos. O Sleeping Giants conseguiu propor um debate no sentido amplo”, comentou.

A reportagem procurou Olavo de Carvalho por meio dos sites que ele mantém e foi orientada a acionar a mulher dele, por telefone. Diante do pedido de entrevista, ela não deu retorno. A canadense CPP Investments também não se manifestou, assim como a PagSeguro.

 

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Sleeping Giants: 'Propaganda olavista tem papel fundamental na radicalização da sociedade'

Grupo que mira Olavo de Carvalho se apresenta como um coletivo e não revela a identidade das pessoas que o conduzem

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 11h44

BRASÍLIA - Para o movimento Sleeping Giants Brasil, a propaganda do astrólogo Olavo de Carvalho "tem papel fundamental no processo de radicalização da sociedade".  A versão brasileira do movimento que pressiona empresas a retirarem recursos de páginas com conteúdos que classifica como de ódio e desinformação começou a atuar em maio. O grupo levou mais de 250 companhias a desassociarem suas marcas de conteúdos produzidos por Olavo, "guru" do bolsonarismo.

O Sleeping Giants se apresenta como um coletivo e não revela a identidade das pessoas que o conduzem. Leia abaixo entrevista com o grupo:

O Sleeping Giants (EUA), no qual os senhores se inspiraram, compartilha conteúdo que vocês publicam. Para além disso, tem algum amparo financeiro, jurídico?

O movimento global do Sleeping Giants funciona através de células anônimas, autonômas e descentralizadas. Sendo assim, não há qualquer amparo financeiro ou jurídico, as células funcionam de maneira completamente independentes umas das outras.

Legislativo e Judiciário têm dificuldades em assentar o que é "fake news". Às vezes, há uma proximidade com opinião ou conteúdo fora de contexto. Ou às vezes nem todo o conteúdo de uma página é falso. Quais critérios usam para definir o que é discurso de ódio e fake news?

É necessário considerar que o discurso de ódio é uma limitação à liberdade de expressão amplamente difundida na sociedade ocidental após o advento do nazifascismo. De tal sorte, diferentemente das fake news, existe um conceito bem definido na doutrina jurídica a respeito do que constitui um discurso de ódio. Segundo a comissão dos 27 Estados-membros da União Européia, o discurso de ódio é a "incitação pública à violência ou ódio com base de certas características, incluindo raça, cor, religião, descendência; origem nacional ou étnica; orientação sexual, identidade de gênero e deficiência". Portanto, trata-se de um discurso legitimamente vetado por alguns Estados com base em critérios definidos. Quanto às Fake News é compreensível que os órgãos do Estado sejam cautelosos em sua definição. Isso porquê conferir ao Estado (seja Estado-juiz, Estado-legislador ou Estado-executor) o poder de dizer o que é a verdade pode provocar consequências sérias para a liberdade de expressão dos cidadãos caso realizado de forma inadequada.

No entanto, o movimento Sleeping Giants Brasil não é um braço do Estado, mas uma organização da sociedade civil e, portanto, um coletivo privado que se vale de sua própria liberdade de expressão para comunicar às empresas (ou seja, atores sociais também privados e que possuem ampla liberdade negocial) a respeito de um comportamento que pode financiar, ainda que indiretamente, uma atividade ou prática indesejada. Para tanto, adotamos um procedimento próprio para identificar canais de Fake News, qual seja, sites que veicularam reiteradamente conteúdo considerado falso por agências de checagem como Lupa, Aos Fatos, Estadão, Comprova, Fato ou Fake, assim como pela imprensa em sua totalidade. Também é relevante para nós o fato de esses canais e sites manterem no ar a informação falsa após tomar conhecimento de que a informação não se sustenta, eis que tal comportamento revela que a prática é deliberada e não mero erro jornalístico. Ainda é importante mencionar que faz parte de nossas análises o histórico judicial do portal e de seus integrantes, a fim de checar possíveis condenações por calúnia, injúria, difamação e crimes de ódio.

Sabemos que Matt Rivitz é a pessoa por trás do Sleeping Giants EUA. Esta entrevista está se dando com a condição de anonimato e por escrito. Por qual razão os representantes do Slepping Giants BR não se apresentam publicamente?

Nosso anonimato é mantido por questões de segurança, nos manifestamos sem medo de sofrermos represália através do nosso sigilo. Pode-se tomar como exemplo o próprio Matt Rivitz, fundador do Sleeping Giants EUA , já que quando teve sua identidade exposta através de hackers foi alvo de graves ameaças, inclusive de morte. Há de se ter em mente que estamos combatendo o lucro de pessoas que se utilizam do ódio e de notícias fraudulentas para ganhos pessoais e políticos, são pessoas perigosas, investigadas em inquéritos no STF e também na CPMI das Fake News, por exemplo. Além disso, o Sleeping Giants é um movimento e não um indivíduo, os nomes pouco importam porque somos um coletivo, todos que seguem, cobram, retwitam, e pressionam por uma internet livre de conteúdo falso ou odioso formam o Gigante!

Qual costuma ser a reação das empresas que vocês alertam sobre a presença de anúncios? Tomam a providência por causa da repercussão imediata ou tentam buscar outros anúncios em outros sites que vocês identificam como problemáticos?

Na grande maioria das vezes as empresas prontamente removem os anúncios e nos agradecem pela comunicação de que sua campanha publicitária foi distribuída para um canal com conteúdo nocivo. Temos percebido, também, que o mercado publicitário passa por uma transformação profunda em grande parte ocasionada por nossas ações, já que as empresas preferem se adiantar e retirar os anúncios de canais de ódio e desinformação antes de serem associadas àquele conteúdo.

Uma crítica dos publicadores que são alvo de ações do Sleeping Giants é a de que a atuação não é a mesma contra páginas alinhadas à esquerda. Essa é uma opção do grupo?

Não, o movimento não faz parte de nenhuma luta política partidária e isso fica mais claro em uma pesquisa que a FGV fez a respeito do assunto. O Sleeping Giants Brasil tem pleno conhecimento que o discurso de ódio e as fake news estão presentes em todo o espectro político e escolhemos os nossos alvos objetivamente levando em conta dois aspectos: o primeiro é o conteúdo odioso e fraudulento produzido, o segundo é o alcance que esse conteúdo acaba atingindo naquele determinado momento.

Por que Olavo de Carvalho é hoje o principal alvo do Sleeping Giants BR?

Olavo se tornou o atual alvo do movimento com base em seu conteúdo, que se encaixa nos dois aspectos, já que ele é uma pessoa que infelizmente possui grande influência sobre outros indivíduos e que tem muito presente em seus posicionamentos as notícias falsas, como a afirmação que fez alegando que Coronavírus não matou ninguém. Além disso, as falas de Olavo de Carvalho variam, desde discursos de ódio contra imigrantes, religiões de matriz africana, mulheres, e LGBTs até a negação da ciência e da história, bem como ataques às universidades brasileiras, às instituições democráticas e à imprensa livre. Consideramos que nesse contexto em que a democracia brasileira se deteriora rapidamente, a propaganda olavista tem desempenhado um papel fundamental no processo de radicalização da sociedade, e Carvalho, assim como seus 'alunos', estão na linha de frente do que eles próprios chamam publicamente de 'Guerra Cultural. Sara Winter, Allan dos Santos, Bernardo Küster e Roberto Alvim, demitido da secretaria de cultura por parafrasear Goebbels, são apenas alguns dos exemplos do que constitui o olavismo no Brasil. Por essas razões, estamos absolutamente convencidos de que a propaganda 'olavista' é parte fundamental desse processo de deterioração da democracia brasileira, pois efetivamente inflama a população, designa inimigos internos, dificulta o debate democrático, destrói a coesão social, adia a causa da paz e enfraquece valores civilizacionais sob os quais se assenta a frágil democracia brasileira. Não se trata, portanto, de uma escolha: Olavo de Carvalho é o alvo natural daqueles que lutam contra o ódio e a desinformação no Brasil.

Têm alguma estimativa sobre o impacto financeiro que essas remoções tiveram para o filósofo?

É muito difícil fazer esse cálculo sem acesso aos ganhos do guru, mas sabemos que conseguimos o declínio de 1/3 dos seus alunos com o apoio do PayPal à nossa campanha e o site do "filósofo" no momento inicia com uma mensagem dizendo para não cancelarem a conta do PayPal porque eles perderam todos os outros cursos vendidos previamente. Também é difícil fazer o cálculo de quanto retiramos através da remoção dos banners na mídia programática do seu site ou YouTube, mas a quantidade de empresas é grande, foram mais de 250 empresas removendo anúncios do seu site e já passamos de 80 empresas interrompendo a veiculação de seus anúncios no canal.

Têm um balanço de todas as empresas que se manifestaram após tuítes, que removeram anúncios de determinadas páginas ou relatório com lista de sites/páginas de conteúdo que condenam?

Temos alguns números bem interessantes, 85% das empresas removem os anúncios após serem informadas por nós, 35% das respostas que chegam até nós vieram de seguidores e já ultrapassamos a resposta de 600 empresas que vem assumindo a sua responsabilidade social. Dois anúncios emblemáticos que foram retirados é o do TCE-MS e também do Banco do Brasil após decisão do TCU. Também conseguimos derrubar 9 campanhas de crowdfunding e recentemente o PayPal encerrou a conta do Olavo após nós demonstrarmos as violações aos termos de uso que o "guru" cometia em seus cursos.

 

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