Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Análise: Alckmin mira Bolsonaro com escolha de Ana Amélia

Presidenciável tucano afirmou que senadora do PP era a 'vice dos sonhos' nas eleições 2018; ela pode ser o 'empurrão' que a campanha precisa para engrenar

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2018 | 10h07

A escolha da senadora Ana Amélia (PP-RS) para a vaga de vice foi definida por Geraldo Alckmin (PSDB) e seus principais aliados para tentar recuperar parte dos votos perdidos para Jair Bolsonaro (PSL) na corrida presidencial. Parado nas pesquisas, Alckmin viu tradicionais eleitores tucanos trocarem sua candidatura pela de Bolsonaro, especialmente no Sul e no Centro-Oeste, onde o discurso incendiário do ex-capitão do Exército tem funcionando muito mais do que seu tom conciliador.

Essa migração do voto tucano para Bolsonaro não foi à toa nessas regiões. Ele se comunicou muito melhor com o agronegócio, que é predominante nas duas regiões. Enquanto Alckmin passava, mesmo que involuntariamente, a imagem de ser um político mais preocupado com o mercado e com questões mais próximas dos grandes centros urbanos, Bolsonaro pregou furiosamente contra a esquerda, defendeu armar os proprietários rurais contra o MST, disse que ia fundir os ministérios da Agricultura com o do Meio Ambiente para que o produtor rural não fosse atrapalhado pelas demandas ambientais. Rapidamente, caiu nas graças do eleitorado que queria ouvir qualquer coisa que indicasse algum tipo de reação contra os problemas do setor.

A chegada de Ana Amélia pode equilibrar esse jogo. Jornalista popular no Rio Grande do Sul, construiu sua trajetória política conservadora com grande foco na defesa do desenvolvimento do agronegócio. Outro ponto fundamental com sua presença é a construção de uma comunicação direta com o majoritário eleitorado feminino. Bolsonaro vai mal nessa área e Alckmin tem em Ana Amélia um caminho para buscar eleitoras que querem se ver mais representadas na disputa presidencial.

Ana Amélia traz também o discurso contra a esquerda. Dia sim, dia não, ela se contrapõe aos senadores do PT no plenário, criticando o partido e as políticas defendidas pelos aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato. De quebra, sua participação como vice faz uma ponte com o PSDB mais tradicional, já que é muito amiga do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Mas, se essa estratégia parece ser promissora hoje, faltou pouco para que não ocorresse. Influenciado pela ideia de trazer para vice alguém ligado ao setor produtivo e sem perfil político, Alckmin achou que o empresário Josué Gomes (PR), filho do ex-vice-presidente José Alencar, poderia ser perfeito. Na prática, Josué traria força onde Alckmin já é considerado forte, que é o setor produtivo. E ainda levantaria suspeitas de baixa afinidade entre os dois, pela sua proximidade com Lula.

A recusa de Josué ao convite aumentou o desgaste de Alckmin, mas pode ter aberto passagem para que ele encontrasse a parceira perfeita para que sua candidatura consiga decolar. Preso entre 6% e 8% nas intenções de voto, o tucano passa a ter, com Ana Amélia, a perspectiva de crescer imediatamente pelo menos no Sul do País. Um crescimento de dois ou três pontos dará o movimento que sua campanha precisa para ter competitividade. Conseguido isso, o enorme tempo de televisão que seus acordos garantiram poderá garantir o empurrão para sua campanha engrenar de vez.

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