‘Vamos continuar juntos’, escreveu Queiroz a mulher de miliciano empregada por Flávio

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‘Vamos continuar juntos’, escreveu Queiroz a mulher de miliciano empregada por Flávio

Contatos com Capitão Adriano e seus familiares reforçaram suspeitas da Promotoria, que levaram à prisão do ex-assessor ligado a família Bolsonaro, investigado por esquema de 'rachadinha' na Alerj

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

19 de junho de 2020 | 05h00

“Vamos continuar juntos em 2019”, escreveu Fabrício Queiroz, o ex-chefe de gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ) preso nesta quinta-feira, 18, alvo da Operação Anjo, do Ministério Público do Rio.

A mensagem de 27 de novembro de 2018 – um mês após a eleição do presidente Jair Bolsonaro – foi enviada para Danielle Mendonça da Nóbrega, a ex-mulher do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano, morto pela polícia em fevereiro.

A ex-mulher e a mãe do miliciano, Raimunda Veras de Magalhães, eram empregadas no gabinete do filho mais velho do presidente na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Juntas, as duas receberam R$ 1 milhão em salários da Alerj e devolveram pelo menos R$ 202 mil em transferências identificadas para a conta de Queiroz e outros R$ 200 mil ainda não identificados.

A conversa faz parte dos documentos que levaram o Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc) a apontar que Queiroz ainda mantinha contato com o criminoso, acusado de homicídios e de chefiar uma das mais violentas milicias do Rio, que controla a comunidade de Rio das Pedras – a segunda maior da capital fluminense.

Miliciano. Queiroz, principal alvo do Ministério Público do Rio, foi preso em Atibaia (SP) em uma casa do advogado Frederick Wassef, homem de confiança do presidente.

“No fim do ano de 2018, as mensagens trocadas entre Danielle Mendonça e Fabrício Queiroz revelaram que a intenção da organização criminosa seria manter Danielle Mendonça como ‘funcionária fantasma’ no ano de 2019”, escrevem os promotores do Gaecc.

“Mas ela acabou sendo exonerada depois da publicação na imprensa da notícia de que o Coaf teria detectado movimentação atípica de recursos na conta bancária de Fabrício Queiroz.”

O nome do ex-chefe de gabinete de Flávio na Alerj caiu no radar das autoridades em 2018. Relatório de inteligência financeira, do antigo Coaf (atual Unidade de Inteligência Financeira), revelado pelo Estadão em dezembro de 2018, listou centenas de operações financeiras suspeitas de políticos, assessores parlamentares, servidores e ex-servidores, relacionadas a 22 núcleos de gabinetes.

Queiroz trocou mensagem com Capitão Adriano e com a ex-mulher mesmo após ter sido demitido do gabinete de Flávio, em 15 de outubro, mesmo dia em que sua filha Nathalia Queiroz foi exonerada do gabinete do então deputado e candidato Jair Bolsonaro na Câmara. Ambos foram demitidos no dia 15 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018.

“Acho que vai da para continuar”, escreve Queiróz.

“Que assim seja”, responde a ex-mulher do miliciano, empregada desde 2007 na Alerj.

As conversas foram encontradas em um telefone celular dela e fazem parte das apurações do Ministério Público Estadual do Rio, sobre “rachadinha” – apropriação indébita de salários de assessores – no gabinete de Flávio, na Alerj.

Exonerada. Uma semana depois da primeira conversa, Danielle questiona Queiroz sobre o seu pagamento. Era dia 6 de dezembro, dia em que reportagem do Estadão revelou a existência de relatório de inteligência financeira, que apontava movimentação suspeita de Queiroz.

“Você sabe quando vai entrar o pagamento”, pergunta a ex-mulher do miliciano. “Ainda não caiu?”, pergunta Queiroz.

Danielle responde, “entrou isso no final e novembro”, e envia uma imagem com a “REMUNERAÇÃO SALARIO R$ 2.510,22”. E escreve: “Dia 30/11”.

“Então vc foi para exonerada”, responde Queiroz.

Danielle responde: “Ahhh, me tira de lá”. “Tem como?”

O ex-chefe de gabinete de Flávio na Alerj então responde, em duas mensagens: “Sério”; “Tá havendo problemas”. Aí acrescenta um alerta: “Cuidado com o que vai falar no celular”.

Danielle ainda pergunta se “há a possibilidade ainda de receber algo”. Queiroz responde: “não”. E envia então cópia da reportagem publicada naquele dia pelo Estadão sobre relatório do Coaf que identificava movimentação suspeita em sua conta.

“Não estava sabendo de nada”, diz a ex-mulher do miliciano. “Mas vc acha que eu volto?”

Queiroz responde: “Pode ser que sim”.

Morto. No mesmo dia, Danielle escreve para Capitão Adriano e diz que precisava falar “urgente”. “Oi. Diga”, responde o miliciano, que era investigado em outra frente por liderar a milícia que comanda a comunidade Rio das Pedras, no Rio.

“O amigo disse que fui exonerada”, comunica Danielle, ao ex-marido. “E só veio isso de $”, complementa, com imagem do último depósito da Alerj.

O miliciano trabalhou junto com Queiroz – que é policial da reserva – na Polícia Militar, em 2003, e era amigo do ex-assessor de Flávio. Ele diz ter sido o responsável pela indicação ao deputado dela e da mãe do Capitão Adriano – que foi duas vezes homenageado com comendas da Alerj, por indicação do Zero Um.

“Ele não sabe se irá continuar”, escreve Danielle ao ex-marido, que reponde: “Vou ver”.

Em 15 de janeiro de 2019, quando Capitão Adriano era foragido, ele troca mensagens com a ex-mulher e cita contato que teve com Queiroz e fala sobre orientação para depoimento ao Ministério Público.

“O amigo pediu para vc não ir em lugar nenhum e tbm não assinar nada”, escreve o miliciano morto. Danielle havia sido intimada para depor nas investigações sobre “rachadinha”. Ela não compareceu.

Homem de confiança da família Bolsonaro, Queiroz admitiu responsabilidade pela indicação da mãe e da ex-mulher do miliciano. Em declaração feita por escrito, via defesa, nas investigações, ele assumiu a captação de parte dos salários dos assessores do gabinete, sem conhecimento do ex-chefe.

Ao todo, foram R$ 2 milhões identificados em 483 depósitos de outros assessores na conta de Queiroz. No mesmo período, ele sacou R$ 2,9 milhões em espécie. Para a Promotoria, a movimentação em dinheiro vivo serviu para ocultar a origem e o destino dos valores. Quase R$ 1 milhão, seguem sem identificação.

COM A PALAVRA, AS DEFESAS

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) nega irregularidades em seu gabinete na Assembleia e diz ser alvo de investigação ilegal desde o início do caso, em 2019. Por meio de sua defesa, busca a anulação das apurações e de provas, como as quebras de sigilos fiscal, bancário e telefônico, com recursos no Tribunal de Justiça do Rio, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

O criminalista Frederick Wassef, que defende Flávio, afirmou que os investidores do Rio “quebraram ilegalmente” o sigilo fiscal e bancário do senador.

Flávio Bolsonaro divulgou nota em 2019 em que afirmou que era “vítima de uma campanha difamatória com objetivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro”. “A funcionária que aparece no relatório do Coaf foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que era quem supervisionava seu trabalho. Não posso ser responsabilizado por atos que desconheço, só agora revelados.”

Sobre a contratação de familiares do miliciano Adriano da Nóbrega, a defesa de Flávio afirmou em nota divulgada anteriormente que desconhecia o passado de crimes do ex-policial militar, considerado, até então, um ex-policial do Bope. Adriano chegou a ser homenageado por Flávio quando estava preso. “Sobre as homenagens prestadas a militares, sempre atuei na defesa de agentes de segurança pública e já concedi centenas de outras homenagens. Aqueles que cometem erros devem responder por seus atos”, disse Flávio na ocasião.

Em nota divulgada anteriormente, o advogado que representava Fabrício Queiroz informou que ele “repudiava veementemente qualquer tentativa espúria de vincular seu nome à milícia”. Queiroz confirmou que “solicitou a nomeação da esposa e mãe” de Adriano porque a família “passava por grande dificuldade”. E desconhecia o suposto envolvimento dele com “eventuais atividades milicianas”.

 

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