Bolsonaro e Flávio demitiram Fabrício Queiroz e filha no mesmo dia: 15 de outubro de 2018

Bolsonaro e Flávio demitiram Fabrício Queiroz e filha no mesmo dia: 15 de outubro de 2018

Exoneração do chefe de gabinete do Zero Um, que aparecia em relatório do Coaf sobre movimentações financeiras suspeitas, na Alerj, e de Nathalia Queiroz, empregada pelo presidente, na Câmara, saíram antes de documento ser tornado publico, em data que bate com versão de Paulo Marinho, de vazamento de operação policial por 'delegado' da PF do Rio, às vésperas do 2.º turno das eleições

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

20 de maio de 2020 | 17h11

O senador Flávio Bolsonaro. Foto: Dida Sampaio / Estadão

A filha de Fabrício de Queiroz, o ex-chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro e suposto operador financeiro do esquema “rachadinha” no gabinete do atual senador, quando ele era deputado estadual no Rio, foi exonerada em 15 de outubro de 2018, do gabinete do presidente, Jair Bolsonaro, na Câmara dos Deputados – eleito no dia 7 daquele mês para o segundo turno das eleições presidenciais, realizada dia 28.

Queiroz – o estopim do escândalo – foi demitido do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) no mesmo dia. É o que mostram os registros oficiais de exoneração dos assessores parlamentares do clã Bolsonaro, agora alvo de investigação por suposto vazamento de informações e tentativa de interferências na Polícia Federal.

As datas coincidem com o período da suposta reunião entre três pessoas de confiança de Flávio Bolsonaro, narrada pelo suplente de senador Paulo Marinho – ex-aliado do clã e pré-candidato à Prefeitura do Rio -, com um suposto “delegado” da PF, que teria vazado dados sigilosos da Operação Furna da Onça – de 8 de novembro de 2018. A investigação mirava um “mensalinho” (pagamentos mensais de propinas) a deputados estaduais, no governo Sérgio Cabral. Nem Flávio, nem seus assessores em alvos.

Marinho presta depoimento nesta quarta-feira, 20, em apuração sobre o suposto vazamento, que teria beneficiado Bolsonaro. A reunião teria ocorrido entre o primeiro e segundo turno das eleições de 2018 – realizados nos dias 7 e 28 de outubro. Empresário, ligado ao ex-ministro Gustavo Bebianno (morte em março), ele em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo ter ouvido de Flávio, em dezembro de 2018, que um “delegado simpatizante” da família teria alertado sobre a Furna da Onça e sobre os riscos dela atingir seu gabinete e seus aliados.

Bolsonaro teria determinado, segundo Marinho, a imediata demissão de Queiroz e de sua filha – que tinha cargo na Câmara. O ex-chefe de gabinete de Flávio, a filha Nathalia e outros assessores de confiança da família Bolsonaro são alvos de investigação por suposto esquema criminoso de desvios de recursos da Alerj.

Desde julho de 2018, o Ministério Público Estadual do Rio  investiga esquema de “rachadinha” – quando o político se apropria de parte dos salários dos assessores contratados.

São apurados crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, envolvendo Fabrício Queiroz, suas duas filhas, o atual chefe de gabinete de Flávio no Senado, Miguel Ângelo Braga Grillo, o próprio senador, sua mulher, seu sócio, a família da ex-madrasta, Ana Cristina Siqueira Valle, e familiares do miliciano Adriano da Nóbrega Magalhães, o Capitão Adriano (morto em fevereiro, na Bahia).

Documento

A exoneração de Nathalia Queiroz foi publicada no “Suplemento ao Boletim Administrativo n.º 199 de 17 de outubro de 2018, que inclui uma série de outras exonerações. Ela recebia em setembro daquele ano, salário bruto de R$ 10 mil. “Exonerar, de acordo com o artigo 35 da Lei n .º 8.112, de 11 de dezembro de 1990, a partir de 15 de outubro de 2018”, registra a portaria que dispensa a filha de Queiroz do cargo de secretário parlamentar SP02 “no gabinete do Deputado Jair Bolsonaro”.

Documento enviado para o Ministério Público do Rio, mostra que Queiroz – que é ex-policial militar e era amigo do miliciano Capitão Adriano –  começou a trabalhar no gabinete de Flávio em 2007. Nessa mesma época, a filha Nathalia também é contratada como assessora parlamentar na Alerj. Ela ocupa cargo no gabinete de Flávio até dezembro de 2016, quando é exonerada e contratada no gabinete de Jair Bolsonaro, na Câmara dos Deputados.

No mesmo dia em que Nathalia foi exonerada da Alerj, em 2016, para ser contratada na Câmara, em Brasília, outra filha de Queiroz é contratada por Flávio como assessora, Evelyn Melo de Queiroz – que ocupou o cargo até final de 2018 – Evelyn também é alvo da apuração de ‘rachadinha’. Todos tiveram os sigilos bancários, fiscal e telefônicos quebrados por ordem da Justiça, em 2019.

Queiroz. O desligamento de Queiroz da Alerj consta como dia 16 de outubro, em registros enviados ao Ministério Público do Rio. O ex-chefe de gabinete do filho Zero Um é homem de confiança da família e estopim do escândalo da “rachadinha” e agora do episódio d suposto vazamento na PF, que teria beneficiado a candidatura do presidente Bolsonaro, no segundo turno.

Contratado em cargo de comissão desde abril de 2007 na Alerj, como servidor da PM cedido, Queiroz foi dispensado oficialmente no dia 15, “a pedido” – quando a pessoa pede demissão -, como mostra ato oficial da Alerj, publicado na edição de 16 de outubro de 2018, do Diário Oficial do Estado do Rio.

As demissões antecedem a revelação de existência do documento do Coaf nas apurações da Furna da Onça, em reportagem do Estadão, de 6 dezembro de 2018: “Coaf relata conta de ex-assessor de Flávio Bolsonaro“. São anteriores também à deflagração da operação, que aconteceria dia 8 de novembro.

O nome do ex-chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj caiu no radar das autoridades no final de 2017, início de 2018. Relatório de inteligência financeira, do antigo Coaf (atual Unidade de Inteligência Financeira), listou centenas de operações financeiras suspeitas de políticos, assessores parlamentares, servidores e ex-servidores, relacionadas a 22 núcleos de gabinetes. Entre eles, o esquema ligado a Flávio, que tinha seu Queiroz como alvo central.

A Furna da Onça não tinha Flávio Bolsonaro e seus assessores como alvos. O documento do Coaf, no entanto, integrava o processo.

O material do Coaf era usado, desde fevereiro de 2018, para instruir as investigações de “rachadinha” pelo MP do Rio.

Três nomes citados pelo suplente como pessoas ligadas ao clã Bolsonaro, que teriam participado da reunião com o delegado da PF, Miguel Ângelo Braga Grillo,  Victor Granado Alves e Valdenice de Oliveira Meliga, já eram investigados em outubro nesse esquema. Eles tiveram seus sigilos bancário e fiscal quebrados pela Justiça do Rio, em 2019.

Militar reformado, o Coronel Braga – mais conhecido nos gabinete como Grillo – assumiu o posto de chefe de gabinete de Flávio na Alerj, logo que Queiroz foi demitido, e é hoje chefe do gabinete no Senado.

Victor Alves é advogado de confiança do senador, ex-assessor na Alerj e prestador de serviços para o PSL. Seu nome também apareceu no relatório do Coaf, por movimentações suspeitas de recursos. Valdenice Meliga também é assessora política ligada à família e foi tesoureira do partido, e irmão de dois acusados de integrarem milicias no Rio.

Na semana do suposto vazamento, as apurações de “rachadinha” do MP do Rio estavam em andamento. No início de 2019, o Grupo de Atuação Especializada contra a Corrupção (Gaecc) assumiu o caso. Nas quebras de sigilo – que atingiram Flávio, Queiroz, sua filha, os assessores citados no suposto vazamento -, a Promotoria do Rio descobriu que houve pelo menos 483 depósitos identificados, atingindo valor de R$ 2 milhões (sendo 339 depósitos de dinheiro em espécie, 127 transferências bancárias e 17 depósitos de cheques), na conta de Queiroz, no suposto esquema de “rachadinha”.

Pelo menos 13 assessores repassavam mensalmente valores para Queiroz, que sacava integralmente os valores. Na apuração, 103 tiveram os sigilos quebrados, entre elas Flávio, sua mulher Fernanda, ex-policiais, familiares do Capitão Adriano, o sócio do senador, Alexandre Diniz, entre outros.

‘Invenção’. Flávio nega as acusações. O senador classificou a acusação de “invenção” e afirmou que o empresário tem interesse em prejudica-lo, já que é suplente. Em nota publicada no domingo, 17, em suas redes sociais, o filho mais velho do presidente diz que “o desespero de Paulo Marinho causa um pouco de pena” e que o empresário “preferiu virar as costas a quem lhe estendeu a mão”, ao trocar a “família Bolsonaro por Doria e Witzel”, e “parece ter sido tomado pela ambição”.

Via seu advogado, Fláviu negou que tenha sido informado sobre a Furna na Onça e diz que nem ele nem assessores em investigados na operação. Frederick Wassef, advogado que defende Flávio no caso Queiroz, reforçou que nenhum membro da família Bolsonaro solicitou postergação ou teve ingerência em qualquer investigação movida pela PF. 

Wassef fez ainda um exercício hipotético. Para ele, caso fossem comprovados vazamento de informações e motivação política por trás das datas estabelecidas pelos investigadores para deflagrar a operação, esses fatos não implicariam em ‘nada mais do que um procedimento administrativo da própria corregedoria da Polícia Federal para apurar as condutas praticadas pelo referido delegado federal’.

“Portanto, no máximo e no pior dos cenários, objeto de apuração dessa história teria como único participante, como único alvo e objeto, o delegado federal”, defendeu o advogado.

Grillo, Valdenice, Alves e Queiroz não foram encontrados para comentar. O espaço está aberto. Em outras ocasiões, a defesa de Queiroz negou crime de “rachadinha”.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: