Procuradoria denuncia Witzel e PF prende quatro desembargadores do TRT do Rio por desvios de R$ 16 milhões

Procuradoria denuncia Witzel e PF prende quatro desembargadores do TRT do Rio por desvios de R$ 16 milhões

Ao todo, 18 pessoas são acusadas pelos crimes de corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa; Ministério Público Federal diz que magistrados cobravam propinas para incluir empresas no plano especial de execução da Justiça Trabalhista

Rayssa Motta e Fasto Macedo

02 de março de 2021 | 14h21

Além de abrir a Operação Mais Valia, que prendeu quatro desembargadores do Tribunal Regional de Trabalho do Rio de Janeiro (TRT-RJ) suspeitos pelo recebimento de propinas para beneficiar empresários ligados ao grupo político do governador afastado Wilson Witzel (PSC), o Ministério Público Federal decidiu denunciar o grupo por desvios na ordem de R$ 16 milhões.

Ao todo, 18 pessoas são acusadas pelos crimes de corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa – incluindo os magistrados e o próprio Witzel. O documento foi encaminhado nesta terça-feira, 2, ao gabinete da ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

“Está-se diante de uma sofisticada organização criminosa, arraigada no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, composta por desembargadores do Trabalho, incluindo o atual e o ex-presidente da Corte. Os integrantes do grupo criminoso, além de se locupletarem, prejudicam os jurisdicionados que deixam de receber verbas imprescindíveis para sua sobrevivência, em razão de decisões voltadas exclusivamente para beneficiar as empresas que pagam altas quantias à orcrim”, afirma a subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo na denúncia.

O governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Foto: Wilton Júnior / Estadão

A frente de investigação foi aberta na esteira das apurações da Operação Tris in Idem, que afastou Witzel do governo fluminense em agosto do ano passado. O suposto esquema, no entanto, seria anterior ao atual governo: teria começado a operar em 2017, na gestão do ex-governador Luís Fernando Pezão, e beneficiado organizações sociais, construtoras, consórcio de transporte e empresas de tecnologia.

De acordo com o Ministério Público Federal, os desembargadores aceitaram, por dezenas de vezes, vantagens indevidas para incluir empresas no plano especial de execução da Justiça Trabalhista.

Veja a lista de denunciados com foro junto ao STJ:

  • Governador afastado Wilson Witzel: corrupção passiva e lavagem de dinheiro;
  • Desembargador Marcos Pinto da Cruz: corrupção ativa, corrupção passiva (103 vezes), lavagem de dinheiro e organização criminosa;
  • Desembargador José da Fonseca Martins Junior: corrupção passiva (8 vezes), lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa;
  • Desembargador Fernando Antônio Zorzenon da Silva: corrupção passiva (95 vezes), lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa;
  • Desembargador Antônio Carlos de Azevedo Rodrigues: corrupção passiva (16 vezes), lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Desembargadores citados por delator

Os desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio de Janeiro, entraram na mira da Procuradoria Geral da República com a delação do ex-secretário de Saúde Edmar Santos.

Na primeira denúncia contra Witzel, a Procuradoria-Geral da República transcreveu acusações contra um dos magistrados, Marcos Pinto da Cruz, acusado pelo delator de propor um esquema de propinas envolvendo decisões judiciais favoráveis a organizações sociais da área da Saúde com dívidas trabalhistas e valores a receber do Estado a título de ‘restos a pagar’. O desembargador foi afastado das funções administrativas em setembro do ano passado.

Agora formalmente denunciado, Marcos Cruz é acusado de negociar vantagens indevidas com o grupo político de Witzel. Os pagamentos teriam sido discutidos com o próprio governador afastado e com o ex-secretário Edmar Santos, mas também com outros aliados do governo, como Pastor Everaldo, o empresário Edson Torres e o advogado Manoel Peixinho.

“O intuito do desembargador era conseguir com que o estado do Rio de Janeiro pagasse os valores devidos a organizações sociais (OSs) por meio de depósitos em contas judiciais. Essas contas foram abertas após a inclusão das OSs em planos especiais de execução – providência esta que só foi tomada após o pagamento de vantagens indevidas a outros desembargadores do Trabalho”, afirma o MPF.

O Tribunal Regional do Trabalho no Rio. Foto: Reprodução/Facebook

“A quantia ofertada pelo desembargador aos outros agentes públicos envolvidos no esquema criminoso correspondeu a 20% do montante a ser recebido com a inclusão de organizações sociais no Plano Especial de Execução da Justiça do Trabalho. Desse modo, o esquema se concretizou entre março e agosto de 2020. Em quatro oportunidades distintas, os envolvidos desviaram R$ 752.964,24 do valor depositado pelo estado do Rio de Janeiro no processo judicial relativo ao plano especial de execução da organização social Pró-Saúde – que deveria ser utilizado para pagar trabalhadores da OSs que tiveram seus créditos reconhecidos judicialmente. Vale ressaltar que o valor prometido inicialmente era de R$ 5.647.231,80”, acrescenta o Ministério Público.

O ex-presidente do TRT, desembargador Fernando Antonio Zorzenon da Silva, também foi citado pela PGR na primeira denúncia contra Witzel por ter emitido ato favorável a uma empresa ligada a Mário Peixoto, preso da Operação Lava Jato. Na ocasião, o magistrado disse, por meio de nota, que sua carreira de quase 40 anos foi pautada na ‘mais absoluta retidão, não havendo um único ato sequer tomado fora dos estritos limites legais’.

Além de Marcos Pinto da Cruz e Fernando Antonio Zorzenon da Silva, os colegas desembargadores Antônio Carlos de Azevedo Rodrigues e José da Fonseca Martins Junior também foram denunciados e presos preventivamente.

COM A PALAVRA, O TRT
“Diante do seu compromisso com a legalidade, a presidência do TRT/RJ informa que está à disposição das autoridades no que for necessário para auxiliar nas investigações que levem ao total esclarecimento dos fatos. E que, desde a manhã desta terça-feira (2/3), está colaborando, com sua Polícia Judiciária, no atendimento dos agentes da Polícia Federal que estão no prédio-sede cumprindo cinco mandados de busca e apreensão.”

COM A PALAVRA, OS CITADOS

A reportagem entrou em contato com os gabinetes dos desembargadores. Os assessores de Antônio Carlos de Azevedo Rodrigues e Fernando Antonio Zorzenon Da Silva informaram que não havia manifestação sobre a denúncia. Os demais não retornaram. O espaço está aberto (rayssa.motta@estadao.com).

COM A PALAVRA, O GOVERNADOR AFASTADO DO RIO

Quando a operação foi deflagrada, a assessoria do governador afastado informou ele ‘não tem relação com a operação de hoje e não irá se pronunciar’. Após a denúncia, a reportagem entrou em contato com a defesa de Witzel e aguarda reposta.

COM A PALAVRA, A PRÓ-SAÚDE
Citada no inquérito, a organização social Pró-Saúde enviou a seguinte nota:

“Sobre a operação deflagrada nesta terça-feira, 2/3, pela Polícia Federal em conjunto com a Procuradoria Geral da República, a Pró-Saúde, instituição filantrópica, esclarece que desde 2012 tem sido vítima da falta de repasse de recursos do governo fluminense por serviços efetivamente prestados no gerenciamento de serviços estaduais de saúde.

A inadimplência gerada pelo Governo do Rio de Janeiro gerou 4.800 reclamações trabalhistas contra a entidade.

Por isso, além de cobrar a administração estadual pelo recebimento dos valores, a Pró-Saúde recorreu a um escritório de advocacia respeitado em Direito do Trabalho com a finalidade de requerer junto ao Poder Judiciário, a inclusão dos débitos trabalhistas instituição no Plano Especial de Pagamento Trabalhista. O único objetivo da Pró-Saúde é tão somente liquidar a dívida perante os profissionais da saúde.

A Pró-Saúde não recebeu um único centavo sequer dos valores trabalhistas atrasados. Os poucos valores pagos foram depositados diretamente nas contas dos profissionais da saúde. Portanto, nenhum recurso foi movimentado pela entidade.

A Pró-Saúde também nunca pagou honorários para a senhora Eduarda Pinto da Cruz. Os valores recebidos pela  advogada foram determinados pela Justiça e levantados diretamente por ela.

A instituição está à inteira disposição do Ministério Público para quaisquer esclarecimentos que se fizerem necessários.”

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