PF abre Lava Jato 60, faz buscas contra Aloysio e prende operador do PSDB

PF abre Lava Jato 60, faz buscas contra Aloysio e prende operador do PSDB

Operação Ad Infinitum, deflagrada nesta terça, 19, cumpre 12 mandados de busca e apreensão e uma ordem de prisão preventiva nas cidades de São Paulo, São José do Rio Preto, Guarujá e Ubatuba; agentes vasculham endereços do ex-ministro das Relações Exteriores (Governo Temer), hoje presidente da Investe São Paulo do governo Doria; preso, Paulo Vieira de Souza acompanha audiência na Justiça Federal em São Paulo antes de ser removido para Curitiba

Julia Affonso, Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

19 de fevereiro de 2019 | 07h31

Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A Polícia Federal prendeu nesta terça, 19, em São Paulo, o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, apontado como operador do PSDB. Vieira de Souza é um dos alvos principais da Operação Ad Infinitum, fase 60 da Lava Jato, que mira também o ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores/Governo Temer), presidente da Investe São Paulo (Agência Paulista de Promoção de Investimento e Competitividade) do governo João Doria.

Nesta terça-feira, 19, após ser alvo da Operação, Aloysio Nunes pediu demissão da Investe São Paulo.

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Agentes federais fizeram buscas em imóveis de Aloysio. Um dos endereços do ex-ministro que a PF busca documentos é o apartamento residencial dele, na Rua Pernambuco, em Higienópolis, na capital paulista.

Paulo Vieira de Souza estava em recolhimento domiciliar integral e monitoramento por meio de tornozeleira eletrônica. A decisão havia sido tomada pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro de 2018.

A Operação Ad Infinitum foi deflagrada por ordem da juíza Gabriela Hardt, da 13. Vara Criminal Federal de Curitiba. A ação mira um esquema com ‘diversas camadas de lavagem’ envolvendo Paulo Vieira de Souza.

Paulo Vieira de Souza. Foto: ROBSON FERNANDJES/AE

Vieira de Souza já é réu de duas ações penais da Lava Jato em São Paulo. No processo que trata de desvios de R$ 7,7 milhões em obras de reassentamento do Rodoanel, Aloysio Nunes foi arrolado como testemunha de defesa de Tatiana, filha de Paulo, também ré na ação. No dia 13 de fevereiro, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes atendeu um pedido da defesa de Paulo Vieira de Souza e adiou o fim deste processo.

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Ligado a governos do PSDB no Estado, ele foi diretor da Desenvolvimento Rodoviário S.A (Dersa), estatal paulista. Suas relações com tucanos é muito antiga. Ele desfruta da fama de que detém informações privilegiadas. Certa vez, na campanha presidencial em 2010, Vieira de Souza protagonizou episódio emblemático. Aparentemente ‘ignorado’ pelo então candidato do PSDB José Serra, que em debate na TV Bandeirantes com sua oponente Dilma Rousseff (PT) disse ‘não se lembrar’ do ex-diretor da Dersa, ele declarou à jornalista Andrea Michael. “Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro.”

O recado de Vieira de Souza soou como um aviso ao ninho tucano sobre o alcance e o peso que suas informações podem ter.

Em nota, o Ministério Público Federal informou que a operação mergulha em ‘complexo esquema de lavagem de dinheiro de corrupção praticada pela Odebrecht, que envolveu os operadores Paulo Vieira de Souza, Rodrigo Tacla Duran, Adir Assad e Álvaro José Novis, que mantiveram relações pelo menos entre 2007 e 2017′. As transações investigadas superam R$ 130 milhões, que correspondiam ao saldo de contas controladas por Vieira de Souza na Suíça no início de 2017.

Um efetivo de 46 policiais federais cumpre 12 mandados de busca e apreensão e a ordem de prisão preventiva nas cidades de São Paulo, capital, São José do Rio Preto, Guarujá e Ubatuba. Também foi determinada ordem judicial de bloqueio de ativos financeiros dos investigados.

A PF informou que o objetivo da fase 60 da Lava Jato é apurar a existência de um complexo e sofisticado método de lavagem de dinheiro envolvendo o repasse de quantias milionárias ao chamado Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, por meio da atuação de operadores financeiros, entre os anos de 2010 a 2011, para que a empresa irrigasse campanhas eleitorais e efetuasse o pagamento de propina a agentes públicos e políticos aqui no Brasil.

O nome da operação remete ao fato de o caso parecer tratar de mais uma repetição do modo de atuação de alguns integrantes da organização criminosa, remetendo a um ciclo criminoso que nunca termina.

As investigações tiveram início a partir de depoimentos e colaborações colhidas dos próprios funcionários da Odebrecht e de doleiros investigados em fase anteriores da operação e permitiu apurar que, entre os anos de 2010 e 2011, um dos investigados mantinha em território brasileiro cerca de R$ 100 milhões em espécie, relativamente aos quais, conseguiu, ao longo deste período, repassar ao Setor de Operações Estruturadas da empreiteira, a fim de possibilitar que esta fizesse caixa para financiamento de campanha eleitorais e pagamento de propina a agentes públicos.

“Para tanto, a fim de ver recebido o dinheiro de volta, após o empréstimo ilícito, o investigado principal se valeu de cooperação de operadores financeiros que atuavam lavando dinheiro devolvidos pela Odebrecht através de empresas e contas no exterior que passavam assim a justificar os recursos usados indevidamente”, afirma a nota da PF.

Segundo o procurador da República Roberson Pozzobon, o ex-diretor da Dersa ‘é investigado no âmbito da Lava Jato em Curitiba como um operador financeiro’.

“Na investigação aqui em curso o que se revelou foi que Paulo Preto, no interesse da Odebrecht, participou de um esquema de lavagem de mais de R$ 100 milhões. Foi ele o responsável, segundo o averiguado por diversas fontes de prova, por fornecer R$ 100 milhões ou R$ 110 milhões, a quantia gira em torno disso, em dinheiro, para o setor de propinas da Odebrecht, o Setor de Operações Estruturadas da empresa”, afirmou.

O procurador afirmou que o ‘bunker’ da fortuna de Paulo Vieira de Souza corresponde ao dobro do tamanho e da riqueza do ‘bunker’ do ex-ministro Geddel Vieira Lima (Governo Temer). Segundo o investigador, delatores contaram que o operador do PSDB colocava dinheiro ao sol ‘para não mofar’.

Em depoimento, Adir Assad contou que ‘retirava o dinheiro vivo com Paulo Vieira de Souza em uma casa situada no bairro da Vila Nova Conceição, em São Paulo’. Adir Assad controlava a empresa Rock Star no esquema de lavagem.

“Nessas operações específicas, o colaborador entrava na garagem da residência com um automóvel estilo perua e carregava, por viagem, de 12 a 15 malas com aproximadamente R$ 1,5 milhão cada; que, além das retiradas nessa casa, funcionários da Rock Star retiraram valores com Paulo Vieira em um apartamento situado na Av. Brigadeiro Luís Antônio, mantido exclusivamente para armazenar dinheiro, que Paulo Vieira também dizia ser de sua cunhada”, contou.

A reportagem está tentando contato com os citados. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, ALOYSIO

O ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira, presidente da Investe São Paulo, disse que ainda ‘não teve acesso às informações’ da Operação Ad Infinitum, a fase 60 da Lava Jato. Segundo ele, o delegado da Polícia Federal que conduziu as buscas em sua residência nesta terça, 19, ‘foi muito cortês’, mas não revelou a ele os motivos da diligência. “O inquérito está em segredo, eu estou buscando saber o que há.”

Aloysio negou ter recebido cartão de crédito da conta do operador do PSDB Paulo Vieira de Souza, preso na Ad Infinitum.

COM A PALAVRA, PAULO VIEIRA DE SOUZA

A reportagem fez contato com a assessoria de Paulo Vieira de Souza. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“A Odebrecht tem colaborado de forma eficaz com as autoridades em busca do pleno esclarecimento dos fatos narrados pela empresa e seus ex-executivos. A Odebrecht já usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente.”

COM A PALAVRA, A CAMARGO CORRÊA

“A Construtora Camargo Corrêa foi a primeira empresa de seu setor a firmar um acordo de leniência e, desde então, vem colaborando continuamente com as autoridades.”

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

A Andrade Gutierrez informa que apoia toda iniciativa de combate à corrupção, e que visa a esclarecer fatos ocorridos no passado. A companhia assumiu esse compromisso público ao pedir desculpas em um manifesto veiculado nos principais jornais do país e segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado com o Ministério Público Federal. A empresa incorporou diferentes iniciativas nas suas operações para garantir a lisura e a transparência de suas relações comerciais, seja com clientes ou fornecedores, e afirma que tudo aquilo que não seguir rígidos padrões éticos será imediatamente rechaçado pela companhia.