Fortuna de operador do PSDB é maior que o bunker de Geddel, diz procurador da Lava Jato

Fortuna de operador do PSDB é maior que o bunker de Geddel, diz procurador da Lava Jato

Roberson Pozzobon, da força-tarefa do Ministério Público Federal do Paraná, revela que R$ 100 milhões de Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa preso nesta terça, 19, na fase 60 da operação, estavam acondicionados em um apartamento em São Paulo; em setembro de 2017, PF encontrou R$ 51 milhões em dinheiro vivo em um apartamento de Geddel (foto), em Salvador

Julia Affonso, Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

19 de fevereiro de 2019 | 11h23

Bunker dos R$ 51 milhões de Geddel Vieira Lima. Foto: PF

O procurador da República Roberson Pozzobon, da força-tarefa da Operação Lava Jato, afirmou nesta terça-feira, 19, que o ‘bunker’ da fortuna do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, operador do PSDB, corresponde ao dobro do tamanho e da riqueza do ‘bunker’ do ex-ministro Geddel Vieira Lima (Governo Temer).

Em setembro de 2017, a Polícia Federal encontrou R$ 51 milhões (foto) em notas de R$ 100 e R$ 50 e em dólares em caixas e malas em um apartamento usado por Geddel, em Salvador. O local ficou afamado como o ‘bunker’ de Geddel, que está preso desde setembro de 2017.

Paulo Vieira detém um tesouro que supera a casa dos R$ 100 milhões, diz a Operação Ad Infinitum, fase 60 da Lava Jato deflagrada nesta terça, 19. Ele foi preso preventivamente, por ordem da juíza federal Gabriela Hardt. O ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira (Governo Temer/Relações Exteriores) foi alvo de buscas.

Nesta terça-feira, 19, após ser alvo da Operação, Aloysio Nunes pediu demissão da Investe São Paulo.

Paulo Vieira de Souza estava em recolhimento domiciliar integral e monitoramento por meio de tornozeleira eletrônica. A decisão havia sido tomada pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro de 2018. O ex-diretor da Dersa é investigado pela Lava Jato Paraná como operador financeiro do esquema de lavagem de dinheiro em favor da empreiteira Odebrecht.

“Paulo Preto possuía um grande volume de recursos em espécie no Brasil. Segundo Adir Assad relatou, ele pretendia remeter esses valores ao exterior e fez isso com essa operação casada para a Odebrecht”, afirmou o procurador Pozzobon.

O procurador se impressionou com tanto dinheiro. “Adir Assad revelou que Paulo Preto possuía entre cerca de R$ 100 milhões e R$ 110 milhões no brasil, em espécie, em notas. Imaginem o volume desse dinheiro. É muito volume.”

Pozzobon destacou que a dinheirama estava acondicionada em dois endereços.

“Estava acondicionado em uma residência em São Paulo e também num apartamento que, segundo revelado por Adir Assad, era local onde Paulo Preto tinha um bunker para guardar as propinas. Nos remete aqui o bunker conhecido como bunker de Geddel, da família Geddel, foi alvo de uma fotografia e escandalizou a população brasileira muito recentemente. Se formos levar em consideração, talvez o bunker de Paulo Preto tivesse o dobro do dinheiro do bunker de Geddel.”

A Lava Jato afirma que Paulo Vieira de Souza disponibilizou, a partir do segundo semestre de 2010, R$ 100 milhões em espécie a Adir Assad no Brasil. Este, por sua vez, entregou os valores ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, aos cuidados do doleiro Álvaro José Novis – que fazia pagamentos de propinas, a mando da empresa, para vários agentes públicos e políticos, inclusive da Petrobrás.

Em depoimento, Adir Assad contou que ‘retirava o dinheiro vivo com Paulo Vieira de Souza em uma casa situada no bairro da Vila Nova Conceição, em São Paulo’. Adir Assad controlava a empresa Rock Star no esquema de lavagem.

“Nessas operações específicas, o colaborador entrava na garagem da residência com um automóvel estilo perua e carregava, por viagem, de 12 a 15 malas com aproximadamente R$ 1,5 milhão cada; que, além das retiradas nessa casa, funcionários da Rock Star retiraram valores com Paulo Vieira em um apartamento situado na Av. Brigadeiro Luís Antônio, mantido exclusivamente para armazenar dinheiro, que Paulo Vieira também dizia ser de sua cunhada”, contou.

“Os funcionários da Rock Star contavam que ali havia um quarto inteiro cheio de dinheiro, e que por vezes testemunharam Paulo Vieira colocar notas para tomar sol, a fim de evitar que embolorassem; que, as retiradas pela Odebrecht foram feitas regularmente no escritório das empresas do colaborador na Rua Iraí, em regra por duas pessoas ligadas à empreiteira no Rio de Janeiro, conhecidos pelo colaborador apenas como cariocas; que, o colaborador estima ter retirado com Paulo Vieira de Souza e repassado à Odebrecht algo entre 100 a 110 milhões de reais nas operações ora descritas, aproximadamente entre fins de 2010 e meados de 2011.”

Vieira de Souza já é réu de duas ações penais da Lava Jato em São Paulo. No processo que trata de desvios de R$ 7,7 milhões em obras de reassentamento do Rodoanel, Aloysio Nunes foi arrolado como testemunha de defesa de Tatiana, filha de Paulo, também ré na ação.

Ligado a governos do PSDB no Estado, ele foi diretor da Desenvolvimento Rodoviário S.A (Dersa), estatal paulista. Suas relações com tucanos é muito antiga. Ele desfruta da fama de que detém informações privilegiadas. Certa vez, na campanha presidencial em 2010, Vieira de Souza protagonizou episódio emblemático. Aparentemente ‘ignorado’ pelo então candidato do PSDB José Serra, que em debate na TV Bandeirantes com sua oponente Dilma Rousseff (PT) disse ‘não se lembrar’ do ex-diretor da Dersa, ele declarou à jornalista Andrea Michael. “Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro.” O recado de Vieira de Souza soou como um aviso ao ninho tucano sobre o alcance e o peso que suas informações podem ter.

COM A PALAVRA, ALOYSIO

O ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira, presidente da Investe São Paulo, disse que ainda ‘não teve acesso às informações’ da Operação Ad Infinitum, a fase 60 da Lava Jato. Segundo ele, o delegado da Polícia Federal que conduziu as buscas em sua residência nesta terça, 19, ‘foi muito cortês’, mas não revelou a ele os motivos da diligência. “O inquérito está em segredo, eu estou buscando saber o que há.”

Aloysio negou ter recebido cartão de crédito da conta do operador do PSDB Paulo Vieira de Souza, preso na Ad Infinitum.

COM A PALAVRA, PAULO VIEIRA DE SOUZA

A reportagem fez contato com a assessoria de Paulo Vieira de Souza. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“A Odebrecht tem colaborado de forma eficaz com as autoridades em busca do pleno esclarecimento dos fatos narrados pela empresa e seus ex-executivos. A Odebrecht já usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente.”

COM A PALAVRA, A CAMARGO CORRÊA

“A Construtora Camargo Corrêa foi a primeira empresa de seu setor a firmar um acordo de leniência e, desde então, vem colaborando continuamente com as autoridades.”

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

A Andrade Gutierrez informa que apoia toda iniciativa de combate à corrupção, e que visa a esclarecer fatos ocorridos no passado. A companhia assumiu esse compromisso público ao pedir desculpas em um manifesto veiculado nos principais jornais do país e segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado com o Ministério Público Federal. A empresa incorporou diferentes iniciativas nas suas operações para garantir a lisura e a transparência de suas relações comerciais, seja com clientes ou fornecedores, e afirma que tudo aquilo que não seguir rígidos padrões éticos será imediatamente rechaçado pela companhia.