O Brasil ‘liberal’ e seus esquemas

O Brasil ‘liberal’ e seus esquemas

Humberto Dantas*

23 de julho de 2019 | 05h02

Assembleia Legislativa de São Paulo. Foto: Paulo Liebert/AE

* Artigo com base na reportagem ‘Contrato de R$ 9,7 mi passa de pai para filho na Assembleia de São Paulo’.

Faz poucos anos um representante de um partido recém-criado de cunho liberal me convidou para dar uma palestra para simpatizantes numa capital do Nordeste. Comecei minha fala perguntando quantos ali tinham parentes lotados em cargos de livre provimento do poder estatal que deveria ser enxuto. Quantos passaram pela administração pública em tempos recentes, ou ao longo de suas carreiras. Quantos filhos, esposas, amantes e sobrinhos receberam como resultado de um pedido de favor político um emprego pequeno que não atrapalharia ninguém. Por fim: quantas das empresas ali representadas tinham seus principais contratos assinado com o serviço público. Quantos topavam ser vítima da redução trazida pelos ventos do liberalismo. Silêncio na sala.

Parte do empresariado brasileiro que se diz liberal deseja pagar menos impostos e continuar garantindo seus benefícios junto ao Estado. Como costuma acontecer no Brasil: a conta não fecha. Definitivamente, entre benesses e corrupção, o brasileiro não tem sequer a alma republicana para tentar, um dia se for de interesse da nação, falar sobre o espírito liberal.

O que temos no caso da TV ALESP é a junção mais bem-acabada do quanto esse sentimento de não separação entre o universo público e privado – relatado em clássicos que estão próximos a completar um século na Sociologia brasileira sem perderem o vigor – está vivo. A história, naturalmente, pode ser contada de outra forma. O pai que zela pelo espírito empreendedor do filho parece mais próximo daquele que sonha em deixar como herança, quiçá como legado, a velha forma de o poder privado ser contratado. Que belíssimo exemplo de empreendedorismo! O empresário que não pisa na ALESP desde 2011 deveria explicar por que seu escritório, durante anos, foi a poucos quarteirões do parlamento paulista. Tudo uma enorme coincidência. Paciência. São todas vítimas de uma alucinação jornalística, que ironicamente encontrou dezenas de conexões casuais em matéria que atinge alto grau de complexidade, restando à sociedade esperar da justiça a boa vontade capaz de promover uma Operação Lava-Jato ou os interesses capazes de escamotear tantas outras aberrações.

Licitações desse tipo relatadas na matéria existem em diversos organismos públicos e em distintas áreas de atuação – aqui o ditado “cada enxadada, uma minhoca” para encontrar anomalias é preciso. Agências de publicidade, escritórios de advocacia, assessorias das mais diversas, consultorias espalhadas por todo tipo de ramo de atividade se especializam nesse tipod e atividade corrupta. Quando diferentes CNPJ’s se juntam para vencer um certame desse tipo, não é incomum a existência de ligação entre seus sócios. Seja porque trabalharam juntos, seja porque frequentam o mesmo clube ou prestaram serviços para uma mesma campanha. Aqui entram os políticos e os partidos. Alianças estranhas, como aquela que garante que PSDB e PT controlem o parlamento estadual paulista faz anos, são muito mais corriqueiras do que o senso comum imagina. O que está em jogo na eleição de uma mesa diretora não é representatividade política, mas o controle de contratos e a distribuição de cargos. O mesmo jornalista que assina essa reportagem já foi capaz de cruzar os nomes de assessores que mal comparecem na ALESP com um volume imenso de candidatos em eleições municipais espalhados pelo estado. Nesse caso, para além de casa do povo, a Assembleia Legislativa é a imensa incubadora de campanhas, que contém em suas frentes não apenas os postulantes, mas também seus fornecedores.

No mundo da TV, esquemas desse tipo começam de forma conhecida. Políticos são atraídos para escritórios com a promessa de que aparecerão em um programa gravado para falarem bem de suas gestões. A vaidade lhes rende facilmente, e antes dos holofotes passam por um escritório para serem convencidos de como seria bacana constituir uma TV para o parlamento, ou para o Executivo, contratando uma empresa que sequer precisa de licitação para operar. Em troca da instalação de algo que dá transparência à gestão pública, tem a seus serviços todo um aparato técnico para fazer suas campanhas. Com a modernidade, inclusive, existe quem tenha vendido até mesmo a geração de conteúdos diários para as redes sociais. Isso mesmo: na nossa realidade, nada diferente de tantas outras, existe quem passe horas, dias, pensando em uma forma de se aproximar de políticos e do universo público para lhes vender grandes esquemas de corrupção. Os mais geniais trafegam em velocidade estrondosa pela máquina. O mito da “vontade política” se corporifica aqui e as etapas processuais são vencidas rapidamente. Para validar tudo isso, a teia se espraia por funcionários, sócios, amigos, servidores e chega até mesmo à justiça, que não estranho contrata as mesmas empresas e se nutre dos mesmos esquemas. Sem defender qualquer bandeira ideológica, fico imaginando quem poderia defender aqui o liberalismo diante de tal espírito nada republicano.

*Humberto Dantas, doutor em Ciência Política pela USP, pesquisador da FGV-SP e coordenador do blog Legis-Ativo do Estadão.

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