Lava Jato Rio denuncia ‘doleiro dos doleiros’, ex-presidente do Paraguai e mais 17 na Operação Patrón

Lava Jato Rio denuncia ‘doleiro dos doleiros’, ex-presidente do Paraguai e mais 17 na Operação Patrón

Ministério Público Federal mapeia 'rede de crimes' entre Brasil, Paraguai e Uruguai e denuncia Dario Messer, Horacio Cartes, Najun Turner por organização criminosa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e câmbio ilegal

Ricardo Brandt, Pepita Ortega e Fausto Macedo

20 de dezembro de 2019 | 13h45

O ex-presidente do Paraguai Horácio Cartes e o doleiro Dario Messer. Fotos: Adriano Machado/Reuters e Facebook/Reprodução

A partir de apurações da Operação Patrón, o Ministério Público Federal ofereceu à Justiça denúncia contra 19 investigados, incluindo os doleiros Dario Messer (o ‘doleiro dos doleiros’) e Najun Turner e o ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes. Na denúncia apresentada nesta quinta, 19, à 7.ª Vara Federal Criminal do Rio, a força-tarefa Lava Jato/RJ pediu a condenação de 11 brasileiros, sete paraguaios e um uruguaio, além de Messer, naturalizado paraguaio.

DOCUMENTO: A DENÚNCIA DA PATRÓN

Eles são acusados de formar uma organização especializada em lavagem de dinheiro e outros crimes que operava pelo menos desde os anos 2000.

“A organização comandada por Messer vinha praticando câmbio ilegal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro a partir dos países de origem de seus integrantes”, sustenta a Procuradoria.

A denúncia diz que ‘o braço transnacional da organização foi rastreado a partir das apurações de esquemas de um de seus clientes: o ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral, chefe de uma organização especializada em corrupção e que usou serviços da rede de Messer no Uruguai para ocultar cifras milionárias oriundas de crimes no Palácio Guanabara e na Assembleia Legislativa’.

Deflagrada em 19 de novembro, a Operação Patrón aprofundou as investigações da Lava Jato Rio nas operações ilícitas do grupo de Messer em países do Mercosul.

Na denúncia de 211 páginas, o Ministério Público Federal apontou 17 fatos criminosos supostamente cometidos pela organização desde 2011. A Procuradoria sustenta que ‘certos crimes não cessaram mesmo após a prisão de Messer, em julho’.

Ele ficou 14 meses foragido da Justiça.

Para os onze procuradores da Lava Jato/RJ, o ramo da organização de Messer no Paraguai era ‘tão poderoso que lhe permitiu continuar a ocultar grandes somas de dinheiro ilícito – cerca de US$1,5 milhão foi movimentado – ‘e financiar sua fuga’.

As tarefas eram divididas entre os membros do grupo, que o MPF identificou com três núcleos especializados.

Núcleo financeiro

Messer se aliou a doleiros de sua confiança no Brasil, Paraguai e Uruguai e os denunciados incluem os atuantes naqueles dois países (uma dupla radicada em Montevidéu colabora com a Justiça, prestando informações a autoridades).

Duas lideranças nesse núcleo eram o uruguaio Najun Turner, que movimentou mais de US$ 14,6 milhões pela rede de Messer entre 2011 e 2017, e o paraguaio Lucas Paredes, cujas transações movimentaram quase US$ 20 milhões nesse período.

O câmbio ilegal, a evasão de divisas e a lavagem de dinheiro envolviam depósitos ocultos de dólares no exterior e a entrega de reais no Brasil.

Um grupo maior de denunciados atuava com depósitos ocultos de dólares no Paraguai e repatriação dissimulada da conversão em reais no Brasil.

Para dissimular a origem criminosa de cifras ocultadas no Paraguai, eram usadas “contas de passagem” de empresas de diferentes ramos.

Núcleo político

Formado por denunciados com poder político ou próximos dele, o núcleo reunia empresários, políticos e advogados que garantiam as atividades da organização e sua impunidade.

O Ministério Público Federal identificou a associação do ex-presidente Cartes à organização ao menos entre maio de 2018 e julho de 2019, período em que Messer ficou foragido e o ex-presidente do Paraguai intercedeu por ele, apesar das ordens de prisão nos dois países.

“A participação de Cartes na organização foi demonstrada por seu financiamento de US$ 500 mil ao doleiro foragido”, afirma o Ministério Público Federal.

“Esse valor foi ocultado pelo empresário Antonio Joaquim da Mota até sua entrega a Myra Athaide, companheira de Messer.”

A denúncia reconstitui como atuou cada integrante desse núcleo, como a proposta de uma apresentação de Messer a autoridades paraguaias com o compromisso de ficar cinco meses preso e depois gozar a liberdade sem ser extraditado – o acordo lhe foi dito pela advogada Leticia Bobeda.

Núcleo operacional

Outro núcleo era composto por quem apoiou o transporte e o recebimento de recursos ocultos de Messer.

Além de Myra, integraram esse núcleo a mãe Alcione Maria Athayde, o padrasto Arleir Francisco Bellieny e o operador Filipe Arges Cursage.

“Os quatro garantiram o fluxo de dinheiro para Messer e, no caso de Bellieny, seu nome foi usado com seu consentimento para o doleiro foragido se matricular em uma academia de ginástica em São Paulo. O padrasto também atuou a serviço da organização, fazendo ao menos duas viagens para Assunção em meados de 2019.”

Denunciados

1. Dario Messer – Organização Criminosa (OC), Câmbio Ilegal (CI), Evasão de Divisas (ED) e Lavagem de dinheiro (LD)

2. Najun Azario Flato Turner – OC | CI | ED | LD

3. Lucas Lucio Mereles Paredes – OC | CI | ED | LD

4. Roque Fabiano Silveira – OC | LD

5. Filipe Arges Cursage – OC | LD

6. Luiz Carlos de Andrade Fonseca – OC | LD

7. Valter Pereira Lima – OC | LD

8. Horácio Manuel Cartes Jara – OC

9. Myra de Oliveira Athayde – OC | LD

10. Antonio Joaquim da Mota – OC | LD

11. Cecy Medes Gonçalves da Mota – OC

12. José Fermin Valdez Gonzalez – OC | ED | LD

13. Felipe Cogorno Alvarez – OC | LD

14. Edgar Ceferino Aranda Franco – OC | LD

15. Jorge Alberto Ojeda Segovia – OC | ED | LD

16. Alcione Maria Mello de Oliveira Athayde – OC | ED | LD

17. Arleir Francisco Bellieny – OC | ED | LD

18. Roland Pascal Gerbauld – OC | LD

19. Maria Letícia Bobeda Andrada – OC

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