‘Rei’ no Whatsapp de Dario Messer, Horácio Cartes deu US$ 500 mil para doleiro dos doleiros, diz Procuradoria

‘Rei’ no Whatsapp de Dario Messer, Horácio Cartes deu US$ 500 mil para doleiro dos doleiros, diz Procuradoria

Representação do Ministério Público Federal pela deflagração da Operação Patron, nesta terça, 19, se baseou no conteúdo de mensagens apreendidas durante a prisão de Dario Messer, o 'doleiro dos doleiros', em julho, em um apartamento nos Jardins, em São Paulo

Pepita Ortega

19 de novembro de 2019 | 13h32

O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes. Foto: Ronen Zvulun / Reuters

Segundo investigação do Ministério Público Federal, o ex-presidente do Paraguai Horácio Cartes era identificado como ‘Rei’ no Whatsapp de Messer. Em algumas mensagens, o doleiro ainda se referia ao paraguaio como seu ‘irmão de alma’, tendo o próprio ex-presidente, hoje senador vitálicio, saudado Messer de tal modo, em evento público em 2016. Em representação que culminou no desencadeamento da Operação Patron, na manhã desta terça, 19, a Procuradoria revela as conversas entre os investigados que teriam dado apoio à fuga e à ocultação de bens do ‘doleiro dos doleiros’.

“(Horácio) não só teria disponibilizado US$ 500 mil ao seu ‘irmão de alma’, como também o teria determinado a continuar foragido”, dizem os procuradores.

Documento

Por ordem do juiz Marcelo Bretas da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio, a Polícia Federal cumpriu na manhã desta terça, 19, um total de 37 mandados no âmbito da Patron – 16 de prisão preventiva, 3 de prisão temporária e 18 de busca e apreensão. O doleiro Najun Azario Flato foi preso em São Paulo no âmbito da ação, que busca ainda Horácio Cartes.

Segundo a força-tarefa da Lava Jato no Rio, o grupo investigado teria disponibilizado ao menos US$ 2,5 milhões a Messer.

A operação foi batizada com o nome Patron, espanhol para ‘patrão’, para fazer referência ao termo que Dario Messer utilizava para se referir a Cartes.

Messer foi preso no fim de julho, em São Paulo, em uma ação coordenada da Polícia Federal e da Procuradoria da República.

Foi a partir da análise do material apreendido durante a prisão do doleiro – documentos, celulares e computadores – que a Polícia Federal identificou como o ‘doleiro dos doleiros’ conseguiu se manter refugiado, ora no Paraguai, ora no Brasil, ‘com o auxílio de pessoas e autoridades que lhe deram abrigo e ocultaram os seus recursos financeiros, em comunhão com outras pessoas que forneceram apoio logístico para que esses recursos pudessem chegar ao foragido’.

Segundo o Ministério Público Federal, Roque Silveira, um empresário que atua na fronteira do Paraguai, teria dado proteção e esconderijo a Messer, além de ter sido o elo entre o então presidente Horácio Cartes e o doleiro.

De acordo com a representação, o primeiro contato entre o doleiro e o então presidente do Paraguai se deu em junho de 2018, pouco tempo depois da deflagração da primeira fase da Operação Câmbio, Desligo, que fez de Dario Messer um foragido da justiça brasileira.

Em carta enviada ao ex-mandatário paraguaio, Messer chama o então presidente de ‘Patrão’ e escreve que ‘nessa primeira etapa’ precisaria de US$ 500 mil para os seus ‘gastos jurídicos’, que deveriam ser entregues ao seu portador, Roque Silveira.

No texto, o doleiro diz ainda que vai ‘precisar do apoio de sempre’ de Horácio Cartes.

Outros diálogos indicam outros financiamentos, dizem os procuradores.

A investigação identificou ainda que o contato de Horácio Cartes era salvo como ‘Rei’ no telefone de Dario Messer.

Segundo o documento, o doleiro tinha o plano de se entregar para as autoridades paraguaias sob o compromisso de não ser extraditado ao Brasil. O doleiro, no entanto, abandonou a ideia.
Ao pedir a prisão do ex-presidente paraguaio, a força tarefa da Lava Jato destaca a ‘posição de destaque’ de Horácio Cartes no núcleo político do grupo que auxiliou Dario Messer.

“Não é preciso muito esforço para concluir que solto Horácio Cartes permanecerá impondo graves riscos à ordem pública, pois se mesmo como presidente da República manteve-se alinhado à organização criminosa brasiguaia, sem mandato e, portanto, sem preocupação em se expor, terá muito mais desenvoltura para continuar financiando, com seu enorme poder econômico, e tramando, com o seu não menor poder político, para que as autoridades de persecução não o atinjam e nem ao seu ‘irmão de alma’ Dario Messer, que não hesitou em cobrar do ‘patrão’ em carta manuscrita de próprio punho, além de dinheiro, ‘o seu apoio de sempre'”, registra a representação do Ministério Público do Rio.

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