Lava Jato rastreia ‘Cabelo’, ‘Morcego’ e ‘600 mil de macarronada’

Lava Jato rastreia ‘Cabelo’, ‘Morcego’ e ‘600 mil de macarronada’

Fase 67 da operação, deflagrada nesta quarta, 23, indica que multi ítalo-argentina Techint Engenharia usava Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht para distribuir propinas a executivos da Petrobrás

Pepita Ortega

24 de outubro de 2019 | 07h29

Atualizada às 07h41 de 24.10 com posicionamento da Techint

Foto: Reprodução

A força-tarefa da Lava Jato suspeita que a multi ítalo-argentina Techint Engenharia e Construção, alvo da etapa 67 da operação, deflagrada na manhã desta quarta, 23, utilizava o famoso Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht para realizar pagamento de propinas a executivos da Petrobrás. A Techint é investigada por supostamente integrar o ‘Clube’ – cartel de empresas formado para vencer e adjudicar licitações das grandes obras da petrolífera.

A Operação Tango & Cash, nome dado à fase 67 da Lava Jato, cumpriu 23 mandados de busca e apreensão por ordem do juiz da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, Luiz Antonio Bonat.

Documento

A investigação apura se o grupo Techint repassava valores via empresas offshore a ex-diretores e ex-gerentes da Petrobrás, mediante a celebração de contratos fraudulentos de assessoria e consultoria.

Os procuradores do Ministério Público Federal acreditam que o grupo multinacional ítalo-argentino Techint pagou, entre 2008 e 2013, cerca de US$ 12 milhões de propina, aproximadamente R$ 49 milhões, a Renato de Souza Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobrás.

Renato Duque. Foto: Reprodução

Na representação enviada à 13.ª Vara Federal de Curitiba, o Ministério Público Federal do Paraná destacou a vinculação do grupo com o ‘departamento da propina’ da Odebrecht, que controlava, organizava e operacionalizava pagamentos ilícitos.

Documento

Os procuradores da Lava Jato receberam informações da Suíça que tem rastreado as operações bancárias da Odebrecht no país europeu. Além disso, foram utilizados no pedido dados de autoridades italianas, que terão acesso às informações da mais recente etapa da Lava Jato.

No âmbito das investigações por suspeitas de lavagem de dinheiro, as autoridades suíças identificaram uma conta bancária que recebeu da empreiteira, direta ou indiretamente, entre fevereiro de 2009 e março de 2010, cerca de US$ 1,2 milhão. A conta, em nome de José Roberto Langenstrassen, transferiu parte do dinheiro – cerca de US$ 578 mil – para André Gustavo Garcia Goulart – ambos eram sócios na Pipeconsult, empresa de consultoria alvo de buscas na fase 67 da Lava Jato.

Segundo o Ministério Público Federal, a dupla teria, no mínimo, cerca de US$ 700 mil movimentados e sem localização conhecida.

As contas identificadas pelas autoridades suíças. Foto: Reprodução

A representação da Lava Jato indica que os valores teriam relação com o pagamento de propina nas obras do projeto Gasduc III, no Rio, feito pela Odebrecht em consórcio com a Techint. Além desse contrato, a Operação Tango & Cash investiga as licitações da Refinaria Landulpho Alves na Bahia e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – os valores das três obras, somados, chegam a R$ 3,3 bi.

As informações suíças, segundo o MPF, corroboram os relatos de executivos da Odebrecht, no sentido do pagamento de propinas nas obras do projeto. Os colaboradores apresentaram planilhas, na qual há referências a ‘Gasduc’, o nome do projeto, ao lado de codinomes como ‘Cabelo 1’, ‘Cabelo 2’, ‘Morcego 1’ e ‘Morcego 2’.

O codinome ‘Morcego’ era usualmente utilizado para identificar o gerente da Petrobrás Pedro José Barusco Filho, ‘confesso beneficiário de pagamento de vantagens indevidas em contratos da Petrobrás’, registra o juiz Luiz Antonio Bonat na decisão que deflagrou a Lava Jato 67.

Nas planilhas também há referência ao termo ‘Bullfrog’ – nome da empresa controlada por Langenstrassen que recebeu os US$ 1,2 milhão da Odebrecht – vinculada ao codinome ‘Cabelo 2’. Segundo Bonat, “ao lado do codinome ‘Cabelo 1’ consta ‘Lang ou André'”.

Ainda nessa linha, os executivos da Odebrecht apresentaram cópias de emails nas quais há referência ao pagamento de ‘600 mil de macarronada’, com anotações manuscritas ‘Gasduc’ e ‘Cabelo’, e com a orientação de ‘procurar Lang ou André’.

“A utilização de linguagem cifrada, ‘macarronada’ por dinheiro, é mais um indício do caráter criminoso da transação”, disse Bonat no despacho que deflagrou a Operação Tango & Cash.

Os procuradores apresentaram ainda um e-mail que indica que o administrador da Techint no Brasil, Ricardo Ourique Marques, teria consentido com os pagamentos ilícitos operacionalizados pela Odebrecht.

Foto: Reprodução

Luiz Bonat considerou que havia provas de que o contrato da Gasduc III teria gerado vantagem indevida para o gerente da Petrobrás Pedro José Barusco Filho, além de possíveis ‘comissões’ para Langenstrassen e Goulart. Segundo o despacho, a dupla teria inclusive visitado o edifício da Petrobrás no Rio, pro diversas vezes, em 2010.

Também havia indícios, segundo o juiz, de que as contas mantidas pela dupla na Suíça, teriam sido utilizadas para receber valores da Grupo Odebrecht envolvendo o pagamento de propinas a executivo da Petrobrás.

“A sequência de eventos, portanto, reforça o liame da Techint, via Ricardo Ourique, no esquema do cartel e traz à tona a presença de José Roberto Langenstrassen e André Gustavo Garcia Goulart como possíveis operadores do esquema criminoso”, considerou o magistrado.

COM A PALAVRA, A PETROBRÁS

“A Petrobras é reconhecida pelo próprio Ministério Público Federal e pelo Supremo Tribunal como vítima de uma esquema  de corrupção envolvendo agentes políticos e privados. A companhia trabalha em estreita colaboração com as autoridades que conduzem a Operação Lava Jato.”

COM A PALAVRA, A TECHINT

“A Techint informa que essa investigação foi iniciada em 2014 e que a empresa forneceu todas as informações solicitadas.”

COM A PALAVRA, OS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com os investigados. O espaço está aberto.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

“A Andrade Gutierrez informa que apoia toda iniciativa de combate à corrupção e que visa a esclarecer fatos ocorridos no passado. A empresa segue colaborando com as investigações em curso dentro dos acordos de leniência firmados com o Ministério Público Federal (MPF), com a Controladoria Geral da União (CGU), com a Advocacia Geral da União (AGU) e com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Inclusive em relação aos assuntos abordados na operação de hoje.

A Andrade Gutierrez reforça ainda que incorporou diferentes iniciativas nas suas operações para garantir a lisura e a transparência de suas relações comerciais, seja com clientes ou fornecedores, e afirma que tudo aquilo que não seguir rígidos padrões éticos será imediatamente rechaçado pela companhia.”

Tudo o que sabemos sobre:

Odebrechtoperação Lava JatoPetrobrás

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: