Espancamentos, bombas e conluio entre facções e carcereiros: veja o relato de William Chaim, réu da Lava Jato

Espancamentos, bombas e conluio entre facções e carcereiros: veja o relato de William Chaim, réu da Lava Jato

Apontado como intermediário de repasses a marqueteiros do PT, operador narra rotina na Casa de Prisão Provisória no Tocantins, onde ficou três dias em meio a presos do PCC e do Comando Vermelho

Luiz Vassallo

23 de setembro de 2019 | 05h26

Reprodução de depoimento de William Chaim

Sessões de espancamentos, bombas de gás lacrimogêneo, conluio entre traficantes e agentes do cárcere, e celas de 12 metros com 50 detentos espremidos, a um calor de 40 graus. Essa foi a rotina narrada por um preso da Operação Lava Jato que passou três dias na Casa de Prisão Provisória de Palmas (TO). Ele chegou a ficar em preventiva em 2018, mas esta em liberdade.

William Ali Chaim, denunciado na Operação Sem Limites, fase 56 da Lava Jato, foi interrogado pelo juiz federal Luiz Antonio Bonat nesta sexta, 20.

Ele é acusado por receber dinheiro da Odebrecht e da OAS, envolvidas na construção da Torre de Pituba, sede da Petrobrás em Salvador, a pedido do marqueteiro Valdemir Garreta, e entregado os valores a emissários de Luiz Carlos Afonso Fernandes, ex-presidente da Petros, em meados de 2012.

Ele admite ter feito as quatro entregas em interrogatório. “Chegaram duas pessoas com uma caixa lacrada, com essas fitas adesivas. Me perguntaram a senha. Eu não lembro a senha, mas falei. E eles me entregaram a caixa. Eu tinha uma orientação que era para entregar a caixa, não lembro se era na 9 de julho ou na faria lima. Eu levei a caixa para o endereço”.

Além desta ação penal, Chaim, que já teve relações estreitas com o PT, e hoje se diz rompido, é alvo de outras investigações, também como emissário para entregas de dinheiro da Odebrecht.

O Estado obteve 74 chamadas gravadas em que ele combina os repasses com agentes do doleiro Álvaro Novis, contratado pela empreiteira.

Segundo apontam planilhas do ‘Paulistinha’, como é conhecido Novis, em seus flats, ele teria recebido R$ 22 milhões somente entre 2014 e 2015. Além de Garreta, ele figura como intermediário do casal João Santana e Mônica Moura, marqueteiros de campanhas petistas.

Sobre outras entregas, que não são alvo da ação penal da Torre de Pituba, ele foi orientado pela defesa a não comentar, em interrogatório.

Ao prestar esclarecimentos ao juiz da Lava Jato, Chaim explicou seus motivos para retificar parte do depoimento que deu à Polícia Federal, em novembro do ano passado, quando foi preso temporariamente.

Ele diz ter vivido dias de terror em um presídio em Palmas, onde se entregou, por estar no interior do Tocantins no dia da Operação. Após descobrir que era alvo de prisão, ele diz ter ligado à PF para se entregar.

Chaim teria sido encaminhado ao CPP de Palmas, dominado por facções criminosas, antes de ser transferido para a carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Lá, ele diz que diariamente presos são espancados pelos agentes do cárcere, e por outros presos. Também relatou noites sem dormir, onde dividia cela com outros detentos.

Conhecido por sua lotação 300% acima da capacidade, o ‘CPP’ tem 781 presos para 280 vagas, segundo dados do Ministério Público Estadual, que quer a interdição da penitenciária.

De acordo com Chaim, os agentes do cárcere se comunicam com os presos com ‘botinadas na porta do presídio’, e faziam sessões de tortura com os presos. “É só botinada na costela. Tinha um menino lá que tava urinando sangue fazia 15 dias. Era espancado todo dia. Depois que faziam a contagem, escolhiam lá 3 ou 4 pessoas e sessão de espancamento. Era todo dia”.

Ele diz ainda quase ter sido obrigado por um manda-chuva dos detentos a espancar um dos colegas de cárcere – suspeitos de violência contra mulher e estupro dão os principais alvos. “Quando foi no segundo dia, o voz da cadeia me escalou para junto com outros presos espancar um preso lá que tinha entrado por uma acusação de Maria da Penha. Aí, eu falei pra ele: pô, eu não sou do sistema, eu não to aqui… Ele: não, não tem conversa, você vai ter que… ou você vai ou vai apanhar junto”, diz Chaim, que alega ter escapado de participar da agressão imposta por um líder do presídio após ‘implorar’.

Em uma das sessões de agressões, afirmou que agentes chegaram a explodir uma bomba de efeito moral dentro da cela. “E demorei uns 15 segundos para entender que na verdade eles explodiram dentro da cela uma bomba de gás de pimenta. E um estilhaço da bomba pegou nas minhas costas”.

“Curiosamente, depois eu fui entender, aquele cara que mandava na cela junto com os comparsas dele que comandavam, na verdade estavam no seguro. Ele tinha um esquema com a direção do presídio, com os carcereiros, ele saiu nessa hora, ele não tava dentro da cela”, contou.

LEIA O RELATO:

Liguei para a polícia Federal em Palmas. Eu estava a 400 km de Palmas. Falei: ‘Meu amigo, eu tenho um mandado de prisão contra minha pessoa, meu nome é William Ali Chaim. Meu documento é esse e eu quero me apresentar’.

O agente falou: ‘só um minutinho. Deve ter algum equívoco porque não temos absolutamente nada no sistema’. Eu falei: ‘vocês não têm mas vão ter. Então, eu não quero ficar numa condição de fugitivo numa condição de Justiça. Estou me encaminhando para Palmas. Só que eu vou depois do almoço, porque vou arrumar as coisas’.

Ele: ‘não, fique à vontade’.

Passou 40 minutos, o agente me ligou desesperado: ‘realmente chegou, o senhor precisa vir para cá rápido’. Eu: ‘Não vou rápido. Eu vou preparar minhas coisas e eu vou. Eu estou facilitando a vida. Vocês não vão precisar vir aqui a 400 km. Eu vou me entregar’.

Saí de onde eu estava, andei 400 km, em chuva. Não sei se o senhor conhece a estrada no Tocantins, mas é horrível. Eu cheguei na sede da PF já era umas 10h30 da noite.

Tive que esperar o delegado. O escrivão, mas tudo bem. E faz parte do jogo, o policial que tava lá era gente boa. chamou uma pizza para eu comer. Não tem nada… Mas eu tava muito cansado. Daí quando chegou o delegado, eu falei para o delegado: Dr., eu precisava muito que o senhor me mandasse para a carceragem, porque eu to muito cansado.

O delegado falou pra mim: aqui não tem carceragem. Você vai para o CPP de Palmas.

Eu tô dizendo para o senhor, porque eu tive uma iniciativa, e uma obrigação, não quero receber nenhum benefício por causa disso. Mas eu tive a iniciativa de ir para Palmas me entregar e o delegado da Polícia Federal, ainda que não tivesse carceragem na PF eu acho que é injustificável ele ter me jogado no CPP de Palmas.

Eu cheguei. 23h30 no CPP de Palmas. O senhor conhece o CPP de Palmas? Já ouviu falar? Pois é. É um dos piores presídios do Brasil. Chegando ao CPP de Palmas, enquanto os federais estavam lá, a carceragem relativamente educada e tal.

A hora que os federais viraram as costas, o carcereiro falou assim: aqui bandido é tudo igual.

Daqui até aquela parede tinha uma jaula, literalmente um jaula, tinha um rapaz acorrentado no canto da jaula, ele mandou eu tirar toda a roupa, eu fiquei nu, ele algemou meus pés e minhas mãos, mandou que eu agachasse três vezes para ver se eu estava com alguma coisa no ânus, eu fiz o procedimento, porque preso naquela circunstância, não pude avisar minha família, porque minha família achou que eu tava sob custódia da PF. Não pude avisar nem minha advogada que eu tava sendo transferido para o CPP de Palmas.

Bom, eu fiz o procedimento, ele me levou para a jaula algemado nos pés e nas mãos, fui para a área e falou: você não converse com esse cara. Aí, ele pegou minha mala, fez o checklist do que eu tinha, eu assinei, ele pegou uma bermuda laranja e uma camiseta regata laranja imunda. Me entregou para vestir, eu vesti, tava descalço. Eu falei: na minha mala tem um chinelinho de dedo. Será que você pode me entregar para usar? ele falou: é branco?

Eu falei: não. Ele: aqui no sistema só branco. Eu falei: e o sistema entrega chinelo branco? Ele falou: entrega mas não tem.

Eu fui com um saquinho com metade de um rolo de papel higiênico, uma escova de dente e metade de uma pasta de dente.

Ele me levou para próximo ao xadrez onde ele ia me colocar, pegou uma folha suja imunda, escreveu meu nome e um número, pediu para que eu segurasse, bateu uma foto, e aí o senhor imagina. Falei para o delegado: O dr. o senhor está sabendo que vão me matar lá, né? Porque eu nunca fui preso, mas eu sei como funciona a vida. Diferentemente desse pessoal que tá preso, que veio aqui bacaninha, isso aqui nesse presídio aqui, eu sei o que é a vida. Ele: não, o senhor fique tranquilo. Eu falei: tudo bem. Eu vou chegar lá e vou dizer por que fui preso. Na cadeia é assim. Não tem esse negócio. Não, fique tranquilo. Eu falei, tudo bem.

E eu cheguei na cadeia, depois de todo esse procedimento, o carcereiro 23h30, a cela revestida com uma placa de aço. Ele deu uma botinada com ponta de ferro no coturno naquela porta, mas uma botinada que ecoou no presídio inteiro para acordar os presos.

Porque, como funciona? Chega alguém na custódia, não interessa se é assassino pistoleiro, Maria da Penha, o cara que foi pego no trânsito tomando uma pinguinha, ele vai pra custódia no meio de tudo isso. Ele deu um chute enorme. Acende a luz, os presos têm que levantar, todo mundo para o fundo da cela, com mão na cabeça, para o preso novo entrar.

Bom, eu falei: agora eu vou morrer, né? Eu entrei, mas aí eu percebi que era um procedimento, os presos não falaram nada. Todo mundo voltou para o lugar, as luzes se apagaram. Na cadeia, tem sempre quem manda na cadeia, seja na cela, seja no pavilhão. Na cela, tinha um cara que mandava e que a denominação para esse elemento é ‘Voz’, o ‘Voz da cadeia’. Porque é ele que diz o que vai ou não ser feito na cadeia. É ele quem diz quem vai ou não apanhar, enfim.

E, aí, essa pessoa gritou vai para o ‘boi’. O senhor sabe o que é boi? Boi é banheiro. Vai pro ‘boi’. Eu sabia o que era.

Nunca fui preso, mas falei para o senhor. Fui criado na rua. Um moleque de rua, então eu sei como funciona a vida.

Fui para o banheiro, cheguei no banheiro, tinham 6 homens do meu tamanho. Não eram 6 meninas, eram seis homens do meu tamanho amontoado naquele banheiro, eu cheguei, só tinha um lugar.

Um banquinho branco, eu sentei naquele banco debaixo do chuveiro. O chuveiro pingando na minha cabeça. Eu com medo de tentar fechar e quebrar e aquele negócio espirrar e molhar todo mundo e os caras me matarem ali. Eu fiquei ali quietinho, pensando na vida, no que eu tava fazendo ali. Tinha um cara encostado na parede, um cara grande, mas tava escuro, não dava para ver o rosto.Ele fez assim para mim [imitando uma faca no pescoço]. Para mim, isso é para que ele vai me matar, né?

Eu pensei: putz, agora complicou. Agora é a linha final. Eu olhei do lado, tinha um rodo, eu puxei o rodo do meu lado, e falei: Bom, na pior das hipóteses eu vou quebrar o rodo, ou vai ele ou vai eu. Eu vou me defender.

Ficou nisso, eu fiquei lá, 3h da manhã esse cara que manda na cadeia acendeu a luz, me acordou, passou por cima dos presos como se fosse um tapete para urinar acendeu uma maconha, me ofereceu. Eu recusei gentilmente, falei que estava até com vontade mas não podia, porque tinha um problema no pulmão, porque eu não vou dizer pra ele que eu não, não é?

Fui cordial com ele. Ele perguntou por que eu fui preso, e eu falei que fui preso porque cometi um crime federal. Cometi um crime contra a União. Não falei que era Lava Jato porque eu achava que isso podia ter consequências sérias para minha vida. É um crime federal, contra a Receita, fui preso, tô aqui de laranja, não ganhei nada. Ele: é, como pode não ganhar nada, você deve ter ganho muito dinheiro. Eu falei: amigão, deixa eu falar um negócio para você, se eu tivesse muito dinheiro, eu não tava aqui. Eu tô aqui de laranja. Se eu tivesse ganhando muito dinheiro ninguém me pegava. Tem nada a ver, to aqui de laranja.

Eu fui caindo na graça dele, o rapaz que tinha feito pra mim aquele sinal, ele mandou sair o rapaz não entendeu que era para sair do lugar, aí foi a primeira sessão de espancamento que eu assisti: 3h da manhã, esse cara pegou esse… Aí, tinha acendido a luz, eu vi. Na verdade era um menino que devia ter 25 anos, acusado de estupro. Ele espancou esse menino de uma forma, e talvez ele pudesse até conseguir reagir e dominar o cara, mas ali você tem que apanhar porque enfrentar um cara daquele, você vai morrer.

Tem toda uma estrutura, uma hierarquia dentro da cadeia. Espancou o menino, me mandou deitar lá, e ele ficou conversando comigo: ‘esse aí é Jack’. Eu falei: ah, então, tá, merece mesmo. Eu fiquei conversando. Aí, eu fiquei conversando, ele me colocou pra dentro, falou: vamos pra ‘praia’. Praia é onde os presos ficam deitados no chão. Eu fui, deitei ali, fiquei. De manhã, aí começou a vida de verdade.

Eram 16 horas por dia sentado, 50 homens em 12 metros quadrados, 40 graus fora da cadeia, dentro muito mais. Um buraquinho que era a ventilação. E, levantava de manhã, lavar a cela, deixar tudo organizado, vinha um negócio que não era café, parecia uma lavagem, mas era o que a gente tinha…

E 14 horas sentado porque é impossível 50 homens num espaço de 12 metros ficarem em pé circulando, então é regra: sentado, e levantar só para ir no banheiro fazer suas necessidades. na hora do café da manhã, do almoço e da janta nem pensar ir no banheiro, se for fazer alguma coisa, tá morto.

Então, eu fui me adaptando à regra, fui conversando com as pessoas. De manhã, tinha a contagem dos presos, só que era feita do lado de fora. Então, era feita a contagem e depois de tudo isso começava as sessões de espancamento. O que era isso? Ah, esse preso estava lá por ‘Maria da Penha’: era couro o dia inteiro.

Cara que entrava lá porque tinha estuprado alguém. Era couro o dia inteiro. Quando foi no segundo dia, o voz da cadeia me escalou para junto com outros presos espancar um preso lá que tinha entrado por uma acusação de Maria da Penha. Aí, eu falei pra ele: pô, eu não sou do sistema, eu não to aqui… Ele: não, não tem conversa, você vai ter que… ou você vai ou vai apanhar junto.

Então, imagine minha situação de ter que espancar alguém que eu nem conhecia e pouco me importava o que ele tinha feito, porque se for por aí, temos que sair matando todo mundo, né? Eu me vi numa situação de ter que espancar uma pessoa sem conhecer, e no último minuto, eu implorei pra ele, eu usei essa expressão: eu quero te implorar, pelo amor de deus, não faça isso comigo. Eu faço o que você quiser, eu limpo o banheiro, mas não faça isso porque não é uma violência contra o cara, eu falei: é uma violência contra mim. E falei mais: eu sou contra tda e qualquer tipo de opressão. Você já vive uma opressão aqui, ainda vai oprimir o preso?

Ele acabou me liberando de participar da sessão de espancamento.

Mas essa selvageria pura, tem uma realidade porque ainda que você não aceite, que não esteja dentro de uma norma de civilidade, você acaba entendendo essa lógica.

Mas o pior era no fim da tarde. Tinha contagem dentro da cela, os carcereiros. E a contagem é assim. Primeiro eles dão aquele chute. A forma que eles se comunicam com o preso é chutando a porta. Aí, chutava a porta, e todo mundo no fundo da cela.

Eles entraram e começaram, então, funciona assim: O segurança diz: William. Eu tenho de responder: Chaim. Ai de você se o cara falar teu nome e você não responder teu sobrenome, e pode acontecer, eles falam rápido, às vezes, você não ouve. Se não responder, é couro.

É só botinada na costela. Tinha um menino lá que tava urinando sangue fazia 15 dias. Era espancado todo dia. Depois que faziam a contagem, escolhiam lá 3 ou 4 pessoas e sessão de espancamento. Era todo dia.

Eu percebi isso no primeiro dia, e o que eu fiz. Comecei a ficar na frente, porque eu ficava no fundo e eles pegavam o pessoal do fundo. Comecei a me ajeitar e ficar na frente. Então, eu não fui espancado nenhuma vez, mas assisti toda vez que eu estive lá essa sessão de espancamento por parte dos carcereiros.

Quando foi no domingo, era um domingo, que teve a contagem, eu dei uma bobeira, e fiquei no fundo. E tinha entrado um menino, porque o presídio é dominado por duas facções: comando vermelho e PCC. E tem uma regra na custódia, se entrar gente das duas facções não pode ter confusão. Só quem sofre mesmo é Maria da Penha e alguém que tenha estuprado alguém.

E tinha entrado o menino do PCC que eu não sei se ele atirou num policial, e os carcereiros estavam… ele era a bola da vez. Um cara magrinho, magrinho, devia ter uns 70 kg no máximo. Os carcereiros vieram, pegaram um ali, outro ali, e vieram para me pegar, e perceberam o menino do meu lado, e pegaram ele. Espancaram, espancaram, espancaram. Ele já tinha sido espancado quando foi conduzido lá pra cadeia, para a custódia, tava muito mal. E ele pediu: pelo amor de deus, pelo amor de deus. E os caras espancando.

Depois que eles acabaram de espancar, eles saíram da cela e perguntaram : quem falou que tá mal? E o menino levantou a mão. Ele falou: vem pra cá. Eu pensei: agora vão matar o cara. Ele saiu da cela, e todo mundo lá. Uma coisa absurda, porque a coisa combinada com o cara que manda na cadeia.

Curiosamente, depois eu fui entender, aquele cara que mandava na cela junto com os comparsas dele que comandavam, na verdade estavam no seguro. Ele tinha um esquema com a direção do presídio, com os carcereiros, ele saiu nessa hora, ele não tava dentro da cela. E quando eles tiraram esse menino, eu ouvi uma explosão dentro da cela. Uma baita explosão, achei que tinha tomado um tiro. Porque lá é tudo com 12 [calibre], pistola .40 e fuzil. Eu ouvi aquele barulho, senti um negócio nas costas, não doeu, mas senti. Pensei: tomei um tiro.

E demorei uns 15 segundos para entender que na verdade eles explodiram dentro da cela uma bomba de gás de pimenta. E um estilhaço da bomba pegou nas minhas costas. Pra mim, chegou no limite, eu não aguentava mais. Porque, o que eu imaginava? Vou passar uma noite na custódia, amanhã o pessoal me pega, e me leva para Curitiba. Eu falei: não. Deve ter atrasado tudo em Curitiba e eu vou ficar aqui mais uma semana, 10 dias.

Aí, eu pedi para ir no pavilhão. Os presos não queriam que eu fosse. Falaram: a gente vai começar a tirar o pessoal daqui… porque eles [presos] também tinham esse poder: quando lotava muito, eles iam fazendo uma lista e esvaziando a cela. Mas só quando tava no limite, já tinha mais de 50 pessoas nesse dia. Aí, eu falei: não eu vou para o pavilhão. Porque lá você ficava preso o dia inteiro, sentado 16 horas por dia. Pelo menos no pavilhão você fica solto, anda, conversa. E a única coisa que eu pedi é: onde tem menos gente? No Pavilhão do PCC ou do CV? Eles: no do CV. Eu falei: Então e pra lá que eu vou.

Põe meu nome na lista que eu quero ir pro pavilhão. Aí, fui chamado para uma entrevista com psicólogo, advogado, passei por médico, assinei um termo de responsabilidade caso acontecesse alguma coisa comigo. Minha integridade física. Eu era responsável.

Aí eu assinei, graças a deus teve uma advogada lá que foi generosa. Foi a única pessoa generosa que eu encontrei nesse calvário. Eu expliquei para ela essa situação, falei para ela: a única coisa que eu quero, não quero dizer para minha mulher que tô com saudade, que amo, não quero saber se meus filhos estão vivos, eu quero fazer uma ligação e dizer: tô preso no CPP de Palmas. E foi o que ela fez. Ela ligou para minha mulher e eu falei exatamente isso e desliguei.

Ela falou: Bom, tá tudo certo, depois da meia noite você vai descer para o pavilhão. Foram 4 noites e 3 dias sem dormir. Você imagina… As pessoas dormiam porque elas vivem dopadas de rivotril. Então, o cara toma rivotril como se tivesse comendo bala de goma. Fica dopado o dia inteiro e à noite ele dorme. Mas o Sr. imagina 50 pessoas dormindo de valete: Cabeça, pé, cabeça, pé. Espremido, não conseguia respirar.

Eu fiquei três dias e 4 noites sem dormir por isso. No terceiro dia, a PF me resgatou. Aí, eu fui pra PF, expliquei tudo o que aconteceu, falei: olha, quero fazer um corpo delito.

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