‘É hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure’, diz Aras

‘É hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure’, diz Aras

PGR afirmou que a Lava Jato teve um papel relevante, mas 'deu lugar a uma hipertrofia', e que busca transparência; em reação, Roberto Pozzobon, da força-tarefa em Curitiba, disse que 'transparência faltou mesmo no processo de escolha do PGR presidente'

Rayssa Motta e Pepita Ortega

29 de julho de 2020 | 08h50

O procurador-geral da República Augusto Aras toma posse no auditório JK, na PGR. Foto: Gabriela Biló / Estadão

O Procurador-Geral da República Augusto Aras afirmou na noite desta terça, 28, que ‘é hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure’. Segundo o chefe do Ministério Público Federal, tal ‘correção de desvios’, no entanto, não significa redução do empenho no combate à corrupção.

“Espero que o enfrentamento a macrocriminalidade, especialmente naquela corrupção relativa a grandes capitais continue a se fazer do mesmo modo, mas no universo dos limites da constituição e das leis. O lavajatismo há de passar”, afirmou em live do Grupo Prerrogativas.

Aras indicou que a Lava Jato teve um papel relevante, mas, segundo ele, ‘deu lugar a uma hipertrofia’. O PGR sinalizou ainda que gostaria de pensar ‘em corrigir rumos, não no que de desviante possa ter ocorrido’. “Não podemos gerir o Ministério Público para trás, mas para frente”, disse.

O PGR também comentou sobre o pedido de acesso ao banco de dados conservado pela força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, afirmando que o mesmo é resultado da busca por transparência no Ministério Público Federal.

“Estamos falando da transparência que estamos a promover. Todo o Ministério Público Federal, no seu sistema único, tem 40 terabytes. Curitiba tem 350 terabytes e 38 mil pessoas lá com seus dados depositados. Ninguém sabe como foram escolhidos, quais os critérios”.

Na avaliação do chefe do Ministério Público Federal, os dados obtidos por promotores e procuradores não podem servir a ‘propósitos anti-republicanos’ e que ‘não se pode imaginar que uma unidade institucional se faça com segredos’.

O acesso aos dados das forças-tarefa da Lava Jato no Paraná, em São Paulo e no Rio levou a um choque entre procuradores federais e a cúpula da PGR. Em outra linha, a Procuradoria-Geral da República propôs a criação da Unidade Nacional Anticorrupção (Unac) no MPF, o que centralizaria em Brasília o controle de operações e passaria a administração das bases de dados das forças-tarefa para uma secretaria ligada à Procuradoria.

Voltando a falar sobre a necessidade de ampliar a transparência, o procurador-geral, que foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mesmo sem figurar entre as sugestões mais votadas nas eleições internas da instituição, disse que as listas tríplices são ‘fraudáveis’ e que não podem existir ‘caixas-pretas’ no MPF.

“A meta é abrir esta instituição para que jamais se diga que esta instituição possa ter caixas-pretas. A meta é dizer: lista tríplice fraudável nunca mais, porque nós temos relatórios de perícia, um da CGU (Controladoria Geral da União), um do órgão interno e um que ainda não foi entregue pelo Ministério do Exército, que falam que eram fraudáveis. Não posso dizer fraudadas, porque o mecanismo era tão poderoso que não deixava rastros”, afirmou.

Reação

Após as colocações de Aras sobre a Lava Jato e a transparência no MPF, o procurador Roberto Pozzobon, integrante da força-tarefa em Curitiba afirmou em seu perfil no Twitter que ‘faltou transparência’ no processo de escolha do PGR pelo presidente Jair Bolsonaro.

“O transparente processo de escolha a partir de lista tríplice, votada, precedida de apresentação de propostas e debates dos candidatos, que ficou de lado, fez e faz falta”, afirmou o procurador.

A lista tríplice vem sendo debate ainda mais recorrente desde a escolha de Bolsonaro por Aras. O procurador foi o primeiro indicado à chefia do MPF em 16 anos que não constava na lista tríplice da PGR, formulada em votação entre procuradores. Desde que assumiu o comando do Ministério Público Federal em setembro de 2019, Aras vem tomando uma série de medidas que atendem aos interesses do presidente.

Em maio, em meio a elogios de Bolsonaro ao PGR, mais de 500 procuradores da República de todo País assinam manifesto pela independência do Ministério Público Federal. O documento pede a inclusão no texto constitucional da regra de que o chefe do MPF deve ser escolhido com base em lista tríplice escolhida pelos membros da instituição, como acontece nos Ministérios Públicos de todas as unidades da federação.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: