Delatados por ex-secretário de Saúde de Witzel, desembargadores presos do TRT Rio usaram familiares para arrecadar propinas, diz PGR

Delatados por ex-secretário de Saúde de Witzel, desembargadores presos do TRT Rio usaram familiares para arrecadar propinas, diz PGR

Colaboração premiada de Edmar Santos deu início às investigações que levaram a Polícia Federal e o Ministério Público Federal a abrirem a Operação Mais Valia contra os magistrados do Tribunal Regional de Trabalho do Rio

Rayssa Motta

03 de março de 2021 | 09h46

Operação Mais Valia, aberta pela Polícia Federal e Ministério Público Federal na terça-feira, 2, teve como ponto de partida informações prestadas pelo ex-secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, em colaboração premiada homologada pelo Superior Tribunal de Justiça em agosto do ano passado.

O delator revelou aos investigadores que ouviu do desembargador Marcos Pinto da Cruz, do Tribunal Regional de Trabalho do Rio de Janeiro (TRT-RJ), uma proposta de esquema de propinas envolvendo decisões judiciais favoráveis a organizações sociais da área da Saúde com dívidas trabalhistas e valores a receber do Estado a título de ‘restos a pagar’. A ideia seria solucionar os passivos trabalhistas em troca de uma ‘comissão’ das OSs para liberar os pagamentos, contou Edmar Santos. Caberia ao governo ‘arregimentar’ organizações sociais para participar do suposto esquema.

“Para a organização social, ingressar no esquema criminoso era vantajoso, pois seria uma oportunidade de receber do Estado os valores a título de restos a pagar, o que, em geral, é bastante dificultoso, bem como, com sua inclusão no Plano Especial de Execução na Justiça do Trabalho, poderiam obter a certidão negativa de débitos trabalhistas, desde que mantivessem regular o pagamento mensal estabelecido no plano, o que no caso seria feito pelo próprio Estado”, afirma a Procuradoria Geral da República (PGR).

O Tribunal Regional do Trabalho no Rio. Foto: Reprodução/Facebook

Os detalhes do caso vieram a público na denúncia contra 18 pessoas apresentada pela PGR logo após a operação. As acusações recaem sobre os desembargadores Marcos Pinto da Cruz, Fernando Antonio Zorzenon da Silva, Antônio Carlos de Azevedo Rodrigues e José da Fonseca Martins Junior, presos preventivamente na ação, além de empresários, advogados e sobre o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), que teria sido cooptado pelo grupo.

Registros de visitas do Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador, apreendidos na Operação Placebo, confirmam dois encontros entre Cruz e Witzel. Mensagens interceptadas pelos investigadores apontam que o desembargador chegou a se autodeclarar um ‘soldado’ do governador afastado.

Com o andar as investigações, a PGR concluiu que o suposto esquema seria anterior ao atual governo: teria começado a operar em 2017, na gestão do ex-governador Luís Fernando Pezão, e beneficiado organizações sociais, construtoras, consórcio de transporte e empresas de tecnologia. Entre as empresas citadas na denúncia estão a Pró-Saúde, a Átrio Service, a MPE Engenharia e quatro consórcios de transporte: Transcarioca, Santa Cruz, Intersul e Internorte. A estimativa é que os desvios cheguem a R$ 16 milhões.

“Conforme está demonstrado, instaurou-se no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região uma organização criminosa, com atuação dos Desembargadores do Trabalho”, diz um trecho da denúncia.

Organograma do suposto esquema elaborado pela Procuradoria-Geral da República na denúncia. Foto: Reprodução

No documento, a Procuradoria Geral da República lista as acusações e detalha atribuições que teriam sido assumidas por cada desembargador no suposto esquema. Um dos pontos em comum seria o uso de familiares para operar o recebimento das propinas. Veja:

  • Desembargador Marcos Pinto da Cruz: corrupção ativa, corrupção passiva (103 vezes), lavagem de dinheiro e organização criminosa. É descrito na denúncia como ‘principal articulador’ do grupo. Os investigadores estimam que tenha recebido pelo menos R$ 3,6 milhões no suposto esquema através do escritório de advocacia da irmã;
  • Desembargador José da Fonseca Martins Junior: corrupção passiva (8 vezes), lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. Atual presidente do Tribunal Regional de Trabalho do Rio de Janeiro, o magistrado teria expedido decisões favoráveis à cinco empresas beneficiadas pelo suposto esquema. Os pagamentos teria sido intermediados por sua esposa, que é advogada;
  • Desembargador Fernando Antônio Zorzenon da Silva: corrupção passiva (95 vezes), lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. Ex-presidente do Tribunal Regional de Trabalho do Rio, ele teria beneficiado quatro empresas em troca de pagamentos recebidos com a ajuda do filho advogado;
  • Desembargador Antônio Carlos de Azevedo Rodrigues: corrupção passiva (16 vezes), lavagem de dinheiro e organização criminosa. Teria recebido R$ 421 mil por intermédio da esposa.

A denúncia foi enviada ao gabinete da ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça. Além da condenação, a subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo, que assina o documento, pede a condenação do grupo e a devolução de R$ 32,6 milhões, entre indenização e danos morais à União.

COM A PALAVRA, O TRT

“Diante do seu compromisso com a legalidade, a presidência do TRT/RJ informa que está à disposição das autoridades no que for necessário para auxiliar nas investigações que levem ao total esclarecimento dos fatos. E que, desde a manhã desta terça-feira (2/3), está colaborando, com sua Polícia Judiciária, no atendimento dos agentes da Polícia Federal que estão no prédio-sede cumprindo cinco mandados de busca e apreensão.”

COM A PALAVRA, OS DESEMBARGADORES

A reportagem entrou em contato com os gabinetes dos desembargadores. Os assessores de Antônio Carlos de Azevedo Rodrigues e Fernando Antonio Zorzenon Da Silva informaram que não havia manifestação sobre a denúncia. Os demais não retornaram. O espaço está aberto (rayssa.motta@estadao.com).

COM A PALAVRA, O GOVERNADOR AFASTADO DO RIO

Quando a Operação Mais Valia foi deflagrada, a assessoria do governador afastado informou ele ‘não tem relação com a operação de hoje e não irá se pronunciar’. Após a denúncia, a reportagem entrou em contato com a defesa de Witzel e aguarda reposta.

COM A PALAVRA, A PRÓ-SAÚDE

“Sobre a operação deflagrada nesta terça-feira, 2/3, pela Polícia Federal em conjunto com a Procuradoria Geral da República, a Pró-Saúde, instituição filantrópica, esclarece que desde 2012 tem sido vítima da falta de repasse de recursos do governo fluminense por serviços efetivamente prestados no gerenciamento de serviços estaduais de saúde.

A inadimplência gerada pelo Governo do Rio de Janeiro gerou 4.800 reclamações trabalhistas contra a entidade.

Por isso, além de cobrar a administração estadual pelo recebimento dos valores, a Pró-Saúde recorreu a um escritório de advocacia respeitado em Direito do Trabalho com a finalidade de requerer junto ao Poder Judiciário, a inclusão dos débitos trabalhistas instituição no Plano Especial de Pagamento Trabalhista. O único objetivo da Pró-Saúde é tão somente liquidar a dívida perante os profissionais da saúde.

A Pró-Saúde não recebeu um único centavo sequer dos valores trabalhistas atrasados. Os poucos valores pagos foram depositados diretamente nas contas dos profissionais da saúde. Portanto, nenhum recurso foi movimentado pela entidade.

A Pró-Saúde também nunca pagou honorários para a senhora Eduarda Pinto da Cruz. Os valores recebidos pela  advogada foram determinados pela Justiça e levantados diretamente por ela.

A instituição está à inteira disposição do Ministério Público para quaisquer esclarecimentos que se fizerem necessários.”

COM A PALAVRA, O RIO ÔNIBUS

A entidade disse que os consórcios desconhecem qualquer existência de irregularidade nos processos jurídicos no tribunal do trabalho.

COM A PALAVRA, A ARTRIO

A Atrio, atual Gaia Tech Services, foi indevidamente incluída na denúncia. Seu caso nada tem a ver com restos a pagar do governo.

O que a Atrio conseguiu junto àquele tribunal foi parcelar por seis anos as dívidas trabalhistas que tinha, em razão da falta de pagamento por parte do governo do Estado. E isso se deu julho de 2018 – antes da eleição de Wilson Witzel.

Aos pontos:

1- Empresa não foi alvo da operação;

2- A empresa é signatária da Centralização antes da eleição de Wilson Witzel;

3- A empresa jamais recebeu qualquer valor devido pelo Estado em contas vinculadas ao Tribunal Regional do Trabalho ;

4- Todos os valores depositados junto a Centralização saíram da conta da empresa e beneficiaram apenas os trabalhadores em litígio;

5. O empresário Mário Peixoto não faz parte do quadro societário da empresa desde o ano de 2014;

6 – Os valores pagos a título de honorários ao escritório contratado respeitaram os valores praticados no mercado.

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