Chefe do setor de propinas da OAS relata entregas de até R$ 250 mil do Rodoanel Norte

Chefe do setor de propinas da OAS relata entregas de até R$ 250 mil do Rodoanel Norte

José Ricardo Breghirolli afirmou à Polícia Federal que a demanda para entrega de dinheiro em espécie chegava a ele 'à medida em que ocorriam as medições na obra' de responsabilidade da Desenvolvimento Rodoviário S/A

Luiz Vassallo e Julia Affonso

12 Agosto 2018 | 07h30

Reprodução

Apontado como chefe do departamento de propinas da OAS, o executivo José Ricardo Nogueira Breghirolli, afirmou à Polícia Federal de São Paulo que fez entregas de até R$ 250 mil em dinheiro ‘vinculado’ ao Rodoanel Trecho Norte aos seus superiores na empreiteira. As declarações foram prestadas no âmbito da Operação Pedra no Caminho, que mira supostos desvios na Desenvolvimento Rodoviário S/A. Esses valores teriam sido transformados em propinas para agentes públicos.

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Breghirolli é um dos delatores da empreiteira que tiveram o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal. Ele e outro executivo, Matheus Coutinho de Sá, admitiram ter chefiado uma espécie de departamento de propinas da empreiteira, semelhante ao que foi descoberto dentro da Odebrecht.

O executivo citou outros executivos da OAS, Yves Verçosa e João Muniz. O chefe da propina da empreiteira afirmou que, na função de operador de ‘caixa dois’ da OAS se recorda de haver repassado dinheiro em espécie diretamente a Yves e depois a João Muniz, ‘sempre com a ciência de Carlos Henrique Barbosa Lemos’.

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Segundo o delator, a ‘demanda para entrega da dinheiro em espécie chegava ao declarante à medida em que ocorriam as medições na obra do Rodoanel Norte’.

Breghirolli afirma que ‘ao longo do ano de 2013 e janeiro e fevereiro de 2014, entregou dinheiro em espécie a Yvez e João Muniz, vinculado à obra do Rodoanel Norte em uma periodicidade aproximada de uma vez ao mês, em valores de R$ 70 mil a R$ 250 mil por mês em cada uma das vezes’.

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O delator narra que assim que entregava os valores a Yves e João Muniz abatia do ‘ficha-razão’ da obra, uma espécie de contabilidade interna da OAS, na qual eram lançados todos, os débitos e créditos da obra’

Relatou que ‘esses valores em espécie repassados por ele e que, no entanto, havia uma porcentagem de 25% sobre os repasses em espécie que deveria debitar da contabilidade denominada ficha-razão’.

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Segundo o colaborador, ‘por exemplo, quando entregava cem mil reais em espécie a João Muniz ,debitava cento e vinte e cinco mil reais do ficha-razão’.

Breghirolli diz que ‘isso acontecia porque para gerar dinheiro em espécie o setor de projetos estruturados necessitava firmar contratos com prestadores de serviços e pagar os respectivos impostos’ e que ‘portanto esse valor de 25% tinha por finalidade cobrir esses custos’. Ele diz que isso ocorria em todas as obras da empresa.

Operação. “Uma vez celebrados os contratos simulados com prestadoras de serviços, o prestador de serviços deveria devolver, parte dos recursos recebidos pela OAS em espécie e, então, de posse desses valores eu os entregava ao prestador de serviços financeiros da na época, que era o doleiro Alberto Yousseff”, narrou.

Ele afirma que ‘foi algumas vezes, no escritório do doleiro para levar dinheiro em espécie e a força tarefa da operação Lava Jato, conseguiu os registros de acessos no prédio em que funcionava o escritório de Youssef’. Já o doleiro não se registrava na OAS por ter cartão de acesso dentro da empreiteira.

COM A PALAVRA, A DERSA

“A DERSA – Desenvolvimento Rodoviário S/A e o Governo do Estado de São Paulo são os grandes interessados acerca do andamento das investigações. Todas as obras realizadas pela Companhia foram licitadas obedecendo-se à legislação em vigor. Além disso, a obra foi iniciada somente com o projeto básico. Portanto, após a elaboração do projeto executivo, quando as medições são ajustadas, é possível que haja acertos.”

“A DERSA ressalta que se houve conduta ilícita com prejuízo aos cofres públicos, o Estado irá cobrar as devidas responsabilidades, como já agiu em outras ocasiões. A Companhia reforça seu compromisso com a transparência e se mantém, como sempre o faz, à disposição dos órgãos de controle para colaborar com o avanço das investigações.”