‘Aqui jaz a Lava Jato’

‘Aqui jaz a Lava Jato’

Procurador da República Mario Ghanna, do Ministério Público Federal em Joinville (SC), escreve 'epitáfio' da grande operação após decisão do Supremo que manda para Justiça Eleitoral caixa 2 e crimes conexos, como a corrupção; ele classifica julgamento da Corte máxima de 'terrível e equivocado'

Paulo Roberto Netto

15 de março de 2019 | 18h09

O procurador da República e cantor independente, Mario Ghanna. Foto: Divulgação

O procurador da República de Joinville (SC), Mario Ghanna, escreveu um ‘epitáfio’ da Operação Lava Jato após o Supremo Tribunal Federal decidir que a Justiça Eleitoral deve julgar crimes comuns, inclusive corrupção e lavagem de dinheiro, quando conexos a crimes eleitorais, como o caixa 2. A decisão do Supremo pôs de joelhos a Lava Jato. Os investigadores consideram que a grande operação foi ‘destruída’ sob argumento de que a Justiça Eleitoral não tem capacidade para assumir tarefa tão complexa.

“Aqui jaz a Lava Jato, assassinada covardemente pelo grupo que ela mesma desafiou em vida”, escreveu Ghanna. “Os executores, sob o véu da ilusão, iludiram o golpe ao transformá-lo em decisão aparentemente de caráter técnico, aproveitando-se do desconhecimento das principais vítimas, o povo brasileiro. Os mandantes permaneceram e permanecerão escondidos. Seriam os próximos alvo da força-tarefa.”

Mario Ghanna é procurador da República há 14 anos. Ele atua na área criminal. Nas horas vagas é ‘músico e compositor independente’, sendo nomeado ao Grammy Latino, prêmio Multishow de música e prêmio de Música Catarinense.

O procurador afirma que, embora ‘nunca tenha estado imune às críticas’, a Lava Jato é ‘pioneira’ no mundo inteiro.

Ao Estadão, Ghanna criticou o julgamento, considerado por ele como ‘terrível e equivocado’.

“É lamentável que tenha acontecido esse julgamento e mais lamentável ainda que ministros do Supremo tenham se mostrado sem condições de julgar esse caso”, afirmou.

Ele citou o ministro do STF Gilmar Mendes que, durante a sessão plenária do Supremo da quinta, 14, classificou a conduta de procuradores como ‘método de gângster”.

“O Gilmar Mendes, com as declarações que deu, não tem o mínimo de imparcialidade para julgar a questão. Como pode chamar os procuradores da Lava Jato de gângster? O ministro que diz isso numa sessão mostra que não tem imparcialidade para julgar a questão. Fico surpreso que não tenham pedido a suspeição dele”, afirma.

Ghanna também questiona a ação adotada pelo presidente do STF, Dias Toffoli, que acionou a Corregedoria do Ministério Público contra o procurador Diogo Castor, da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, por suposto ‘ataque à Justiça Eleitoral’.

Ele também demonstrou inconformismo com a chefe do Ministério Público Federal, Raquel Dodge, que não se manifestou sobre o ataque furioso de Gilmar a procuradores.

“Como pode o ministro que irá julgar o caso pedir o enquadro de procurador em questão de ordem?”, questiona. “E a procuradora-geral assistindo como se tudo estivesse acontecendo da forma mais técnica possível?”

LEIA O ‘EPITÁFIO’ DA LAVA JATO:

Epitáfio
“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada. (Tim, 4,7:8)
Aqui jaz a Lava Jato, assassinada covardemente pelo grupo que ela mesma desafiou em vida.
Os executores, sob o véu da ilusão, iludiram o golpe ao transformá-lo em decisão aparentemente de caráter técnico, aproveitando-se do desconhecimento das principais vítimas, o povo brasileiro.
Os mandantes permaneceram e permanecerão escondidos. Seriam os próximos alvo da Força tarefa.
Foi uma década de existência e resultados. Nunca esteve imune à críticas. Foi pioneira e exemplo para casos semelhantes no mundo todo. E a história ainda será contada.
Descanse em paz. (2009-2019)