Adélio não é criminoso habitual ou profissional, diz Procuradoria em pedido de arquivamento do segundo inquérito

Adélio não é criminoso habitual ou profissional, diz Procuradoria em pedido de arquivamento do segundo inquérito

Ministério Público Federal aponta que esfaqueador do presidente agiu sozinho e desmonta teorias de que mandantes teriam planejado o atentado

Paulo Roberto Netto

05 de junho de 2020 | 06h00

O Ministério Público Federal afirmou que Adélio Bispo não é criminoso habitual ou profissional no parecer que pede o arquivamento do segundo inquérito do atentado contra o presidente Jair Bolsonaro durante campanha eleitoral em setembro de 2018. O documento de 45 páginas aponta que o esfaqueador agiu sozinho e desmonta teorias de que mandantes teriam planejado o crime mediante pagamento.

A Procuradoria aponta que embora tenha sido premeditação, o crime não teve planejamento e nem execução com ‘maior sofistação’, e nem se tratou de trabalho levado a efeito com ‘discrição, precisão e eficiência’. Adélio segundo as investigações apontaram, teria idealizado o atentado quando viu um outdoor na semana de 26 de agosto a 1º de setembro de 2018 anunciando a ida de Bolsonaro à Juiz de Fora (MG) no dia 06 daquele mês.

Diferentemente de boatos e teorias que apontaram que Adélio teria viajado à cidade somente para cometer o crime, as investigações apontaram que o esfaqueador já morava na cidade mineira desde o dia 18 de agosto, quando se mudou de Florianópolis à procura de emprego. As informações contam em e-mails, mensagens e testemunhos que apontaram que Adélio procurava novas oportunidades quando saiu da capital catarinense.

As investigações conduzidas pela Polícia Federal também não localizaram contatos que Adélio tinha, nem na cidade, e tampouco em registros telefônicos mantidos pelo esfaqueador. A PF chegou a analisar todas as 14 linhas que ele teve nos últimos anos, inclusive com quebra de sigilo de números de telefones conectados a estações de rádio base localizadas em coordenadas geográficas correspondentes a lugares que Adélio morou ou trabalhou.

O cruzamento buscava identificar se o esfaqueador teria utilizado algum número não identificado. Foram levantados mais de 384 mil números de telefone e 611 mil chamadas. “Não foram encontradas, todavia, interseções relevantes entre as linhas que estiveram conectadas às diferentes antenas. O resultado da diligência permite concluir que Adélio não utilizou telefone que tivesse permanecido oculto à investigação”, apontou.

As apurações também não encontraram respaldo que o crime teria sido cometido mediante pagamento, pois não foram identificadas nas contas bancárias de Adélio Bispo e de seus familiares nenhuma movimentação financeira incompatível com suas atividades trabalhistas ou com respectivos padrões de vida.

A única pendência, tal qual apontada pela Polícia Federal na conclusão do inquérito, se deve à análise do sigilo do advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que defendeu Adélio durante o processo criminal. A diligência se encontra travada por decisão judicial do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que será avaliada pelo Supremo Tribunal Federal.

“Nessa investigação, também não há suspeita de participação dos advogados na infração penal. E a identificação da origem dos honorários alegadamente contratados faz-se igualmente necessária à completa elucidação do fato. Trata-se da linha de investigação ainda pendente, em coerência com a orientação de exaurimento de todas as hipóteses cogitadas”, apontou a Procuradoria.

Adélio Bispo, após ser detido pela Polícia Militar no atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro. Foto: PM-MG / Divulgação

Teorias. O Ministério Público Federal também destacou que as investigações foram ‘exaustivas’ e não deixaram passar nenhuma teoria sem esclarecimento, de forma a garantir que todas as hipóteses tenham sido esgotadas. Alguns casos se tratavam de boatos ou até ‘brincadeiras’ envolvendo o inquérito.

Por exemplo, a PF se debruçou sobre as suspeitas que circularam nas redes sociais que uma mulher teria repassado a faca que Adélio usou para esfaquear Bolsonaro. Foto dos supostos comparsas foram entregues e cinco mulheres foram identificadas como a figura feminina que teria sido cúmplice do crime. Nenhuma delas tinha relação com o caso.

Além disso, o próprio Adélio apontou onde e como adquiriu a faca, além de vídeos de câmeras de segurança do entorno do local do atentado mostram que o esfaqueador portava o instrumento o tempo todo. “O fato é que ninguém repassou a Adélio Bispo de Oliveira a faca empregada na prática criminosa”, apontaram os investigadores.

Outra teoria apontava áudio na qual um homem teria sido flagrado dizendo ‘Calma, Adélio’ e ‘Vai, Adélio’ no momento da facada. Perícia apontou que o trecho é ininteligível e que ‘verifica-se perceptualmente que a locução produzida poderia ser ‘gora vém’ ou ‘gora véi’. Em outra ponta, os investigadores questionaram um militar que apresentou vídeo da manifestação que precedeu o ataque e disse aos agentes que havia dito a Adélio, sem saber quem ele era, ‘calma, calma’ ao acreditar que ele queria tão somente tocar as mãos do então candidato à presidência.

“Se teorias conspiratórias por vezes são engendradas de hipóteses que possam de alguma forma colaborar para o esclarecimento do fato, por outras são concebidas com má-fé”, afirmou a Procuradoria, ao relatar a apuração envolvendo o ‘primo’ de Adélio. O sujeito teria se encontrado com o esfaqueador momentos antes do crime.

O boato dizia que o ‘primo’ seria terceirizado da Universidade Federal de Juiz de Fora, mas os investigadores descobriram que o homem acusado de ser parente de Adélio não tinha nenhum vínculo com o mesmo. Mais que isso, o porteiro teria sido admitido para o trabalho em março de 2019 – seis meses depois do atentado. Procurado pela PF, o homem informou que se tratava de uma ‘brincadeira’ que colegas do trabalho haviam criado.

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