Leia todo o inquérito do esfaqueador de Bolsonaro, capítulo II

Leia todo o inquérito do esfaqueador de Bolsonaro, capítulo II

Relatório assinado pelo delegado Rodrigo Morais Fernandes descartou a participação de agremiações partidárias, facções criminosas, grupos terroristas ou mesmo paramilitares em qualquer das fases do atentado contra o presidente

Paulo Roberto Netto e Fausto Macedo

15 de maio de 2020 | 19h18

A Polícia Federal concluiu nesta semana o segundo inquérito que descartou a existência de supostos mandantes no atentado praticado por Adélio Bispo de Oliveira contra o então candidato Jair Bolsonaro, nas eleições presidenciais de 2018. A corporação apontou que o esfaqueador agiu sozinho, sem auxílio ou intermédio de terceiros.

“Ainda que a maioria das pessoas acreditem na existência de suporte logístico ao perpetrador do ato delitivo ou no envolvimento de grupos criminosos especializados, até o presente momento nada de concreto pode ser concluído a partir desta hipótese criminal”, escreveu o delegado Rodrigo Morais Fernandes. “Como já se disse, não havia espaço para a imperícia ou para uma apuração orientada pelo anseio popular, apesar de inúmeras pessoas ansiarem por apresentar algo que contribuísse com o trabalho da Polícia Federal”.

Documento

“Até aqui, a investigação, marcada ininterruptamente pelo rigor técnico, demonstrou que Adélio Bispo de Oliveira atuou sozinho, por iniciativa própria, tendo sido o responsável pelo planejamento da ação criminosa e por sua execução, não contando, a qualquer tempo, com o apoio de terceiros”, continuou.

A PF descartou a participação de agremiações partidárias, facções criminosas, grupos terroristas ou mesmo paramilitares em qualquer das fases do ato criminoso (cogitação, preparação e execução).

“Ainda que, posteriormente, grupos criminosos tenham comemorado o cometimento do crime – e, diga-se, os órgãos de inteligência prisional de algumas unidades da federação identificaram manifestações nesse sentido, inexistem dados que vinculem a participação de facções no planejamento do ato delitivo e no suporte logístico à sua concretização”.

Adélio Bispo, após ser detido pela Polícia Militar no atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro. Foto: PM-MG / Divulgação

Clube de tiro. Um dos focos da investigação mirou a participação de Adélio em um clube de tiro em Florianópolis – o mesmo estabelecimento é frequentado pelos filhos do presidente. Após ser detido, investigadores localizaram um pagamento de R$ 659 ao clube por um curso feito em 2018.

Em depoimento, Adélio disse que escolheu o local por ter o preço mais em conta e por ser o mais próximo de sua casa. O dono e funcionários do clube de tiro relataram que Adélio adotou, durante o curso, uma postura de isolamento ‘como se estivesse estudando o local’. Eles também revelaram que Adélio esteve sempre sozinho.

Quebra de sigilo das contas do esfaqueador revelou que ele poderia, com seus próprios recursos, pagar pelo curso sozinho. Segundo a PF, a ficha cadastral, entrevista e forma de pagamento ‘revelaram a ausência de possibilidade de financiamento ou mesmo conhecimento por parte de terceiros em relação ao curso realizado por Adélio’.

“De todo modo, acaso tenha optado por efetuar o curso naquelas datas e naquele local movido pela intenção de malferir alguém, tal fato não ultrapassou as fases da cogitação ou dos atos preparatórios, não constituindo, por si só, ilícito penal punível”, afirmou a PF. “Por outro lado, como esclarecido acima, as diligências realizadas refutam a hipótese de apoio ou financiamento de terceiros, não se podendo, neste aspecto, colher elementos de que o plano e a execução tenham contato com a participação de terceiros”.

PSOL. A PF também investigou a filiação de Adélio ao PSOL, ocorrida entre os anos de 2007 e 2014. O esfaqueador disse à Justiça que deixou o partido após não conseguir aprovação para disputar as eleições para o cargo de deputado federal.

A PF colheu o depoimento de José Eustáquio dos Reis, presidente regional do partido em Uberaba (MG), que disse ter visto Adélio pela última vez no dia de sua desfiliação. “Sumiu, nunca tendo frequentado uma reunião sequer do partido”, disse. Ele também desmentiu Adélio, afirmando que o esfaqueador nunca manifestou intenção de disputar eleições.

“As pesquisas realizadas no curso desta investigação somente confirmaram a filiação de Adélio Bispo de Oliveira ao PSOL, de 2007 a 2014, não havendo qualquer elemento ou indicativo que possa envolver terceiros vinculados ao referido partido na trama delituosa”.

A Polícia Federal também desbancou a suspeita de ‘álibi’ criado para Adélio com o registro de entrada dele na Câmara dos Deputados no dia 06 de setembro – data do atentado. Segundo as investigações, o registro foi feito pelo recepcionista a pedido da Polícia Legislativa para verificar, no sistema, se Adélio já esteve no local anteriormente. Foi localizada uma ida à Câmara, em 2013, mas não foi possível identificar para onde o esfaqueador foi.

“As especulações em torno da criação de um possível álibi, visando elidir a culpa de Adélio Bispo de Oliveira se mostraram totalmente desarrazoadas, eis que, no momento daqueles lançamentos, o autor do crime já se encontrava preso na Delegacia da Polícia Federal de Juiz de Fora e seu nome já havia sido profusamente difundido nos órgãos de imprensa”.

Redes sociais. De acordo com a PF, as redes sociais de Adélio consistiam de publicações referentes a pedidos de emprego, como o envio de currículo e agendamento de propostas, e mensagens que ‘ratificaram entendimentos anteriores’ do engajamento político de Adélio ‘tais como ideias negativas em relação à Maçonaria, atribuindo a ela alguns dos seus temores e seu apreço por partidos políticos ditos de esquerda’.

“Inevitavelmente, é preciso pontuar a falta e lógica de algumas postagens feitas por Adélio Bispo de Oliveira, expondo ligeiro descompasso na percepção da realidade”, afirmou a PF. A corporação listou ainda posts com críticas pesadas ao presidente, chamado de ‘Marionete do Capitalismo’ e ‘Bonequinha de Woshington’ (sic), além de ameaças.

“Apesar de todo o esforço investigativo empregado, não subsistiram informações de relevo à apuração. Foram refutadas as teses de uso das redes sociais e mensagens eletrônicas para articular com terceiros a prática criminosa”.

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