A operadora Marice

A operadora Marice

Cunhada do ex-tesoureiro do PT João Vaccari recebeu em casa propinas para o partido (R$ 1,72 milhão) e para ela mesmo (R$ 1,1 milhão), afirma juíza Gabriela Hardt que autorizou a Operação Sem Fundos, 56.ª fase da Lava Jato

Julia Affonso

23 Novembro 2018 | 16h17

Marice Correa Lima. Foto: Marcelo Gonçalves/Sigmapress

Na decisão que mandou prender Marice Correa Lima, cunhada do ex-tesoureiro do PT João Vaccari, a juíza federal Gabriela Hardt afirma que ela ‘atuou como operadora do Partido dos Trabalhadores, arrecadando significativas quantias de vantagens indevidas’. A magistrada anotou que as propinas estavam ligadas à construção da Torre Pituba, a sede da Petrobrás em Salvador, investigada pela Operação Sem Fundos, 56.ª fase da Lava Jato, deflagrada nesta sexta-feira, 23.

Documento

“Marice Correa foi responsável por receber pessoalmente em sua residência as vantagens indevidas pagas em espécie para o Partido dos Trabalhadores, parte delas entregues por Alberto Youssef (doleiro e delator da Lava Jato)”, afirma Gabriela Hardt.

“Foi identificado o repasse de vantagens ilícitas ao Partido dos Trabalhadores, sob coordenação da operadora Marice Correa, por meio de 5 doações partidárias, no total de R$ 1,72 milhão, mais outras 4 entregas em espécie para ela mesma, em sua residência, no total de R$ 1,1 milhão.”

Marice foi presa em sua casa, em São Paulo, na rua Paim, região central. Ela deixou o edifício, no centro da cidade, pela manhã, com uma mala azul, e foi levada para a Superintendência da Polícia Federal na zona oeste da capital paulista.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

O criminalista Cláudio Pimentel, advogado da cunhada de Vaccari, afirmou que, em depoimento na PF, ela respondeu a todas as perguntas dos investigadores. Vaccari está preso desde abril de 2015 na Lava Jato.

Esta é a segunda vez que Marice é presa pela Lava Jato. Em 2015, foi capturada por engano, ao ser confundida com a irmã Gilseda em imagens de segurança de uma agência bancária fazendo transferências de valores.

Os investigadores da Operação Sem Fundos afirmam que as empreiteiras OAS e a Odebrecht distribuíram propina de R$ 68.295.866,00 ao PT e a ex-dirigentes da Petrobrás e da Petros. O Ministério Público Federal, no Paraná, aponta que os ‘valores históricos’ representam quase 10% do valor da obra da Torre Pituba.

A PF prendeu 17 investigados durante a deflagração da operação. Três alvos se apresentaram à Polícia Federal. Dois suspeitos com mandados de prisão preventiva expedidos estão fora do País. Todos os mandados de busca foram cumpridos. Foram apreendidos documentos, HD’s, mídias e seis veículos de luxo.

A sede foi concebida, segundo a Procuradoria da República, no Paraná, por dirigentes da Petrobrás e da Petros, para abrigar a sede da estatal em Salvador. O fundo de pensão teria se comprometido a realizar a obra e a Petrobrás, a alugar o edifício por 30 anos (construção na modalidade built to suit).

De acordo com as investigações, Petrobrás e Petros ‘formaram grupos de trabalho nos quais seus integrantes, em conluio com outros dirigentes da estatal e do fundo de pensão’.

A Procuradoria da República aponta que, ’em troca de vantagens indevidas’, inclusive para o PT, os procedimentos de contratação da empresa gerenciadora da obra (Mendes Pinto Engenharia), da responsável pelo projeto executivo (Chibasa Projetos de Engenharia) e das empreiteiras que ficaram responsáveis pela obra – OAS e Odebrecht, que participaram por meio da Edificações Itaigara (uma sociedade de propósito específico – SPE) – foram fraudados.

Na decisão que manda prender a cunhada de Vaccari, a juíza da Lava Jato afirma que Marice ‘reuniu-se pessoalmente’ com o empresário José Nogueira Filho, então presidente da SPE Edificações Itaigara, e também com o empregado da OAS Ramilton Machado, delator, para que ‘ajustassem como seriam feitos os pagamentos em favor do Partido dos Trabalhadores’.

Segundo a Justiça, a cunhada de Vaccari foi a ‘responsável por coordenar os pagamentos com Ramilton Machado, ora por meio de doações partidárias, ora por meio de entregas em espécie’.

A reportagem está tentando contato com os citados. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA CLÁUDIO PIMENTEL, DEFENSOR DE MARICE

“Acompanhei o depoimento da Marice hoje na Polícia Federal de São Paulo. Respondeu a todos os questionamentos, negando qualquer envolvimento com os fatos apurados, que aliás são antigos e já foram objeto de acareação com o delator Youssef em 2015. Como já depôs e as medidas cautelares foram cumpridas, estou pedindo, ainda hoje, a revogação da custódia temporária dela.”

COM A PALAVRA, O PT

Mais uma vez, nesta sexta-feira (23), a Lava Jato faz acusações sem provas ao PT e tenta criminalizar doações eleitorais feitas dentro da lei. O combate à corrupção exige seriedade de investigadores e juízes. Não pode continuar funcionando como espetáculo de mídia e perseguição política.

COM A PALAVRA, O FUNDO PETROS

A reportagem fez contato com a Petros. Espaço aberto para manifestação do fundo.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ALOÍSIO LACERDA MEDEIROS, DEFENSOR DE CÉSAR MATA PIRES FILHO

O criminalista Aloísio Lacerda Medeiros, que defende César Mata Pires Filho, disse que o empresário está fora do País, mas que irá retornar imediatamente para acatar a decisão da juíza Gabriela Hardt.

“Fomos surpreendidos com a decisão judicial que decretou a custódia provisória do nosso cliente. Estamos ainda nos inteirando dos acontecimentos. Nosso cliente está no exterior e regressará imediatamente ao país para prestar esclarecimentos e acatar a decisão judicial”, declarou Aloísio Lacerda Medeiros.

COM A PALAVRA, A PETROBRÁS

A Petrobras é reconhecida pelas autoridades, no Brasil e no exterior, como vítima dos atos desvendados pela Operação Lava Jato. A companhia reforça a informação, divulgada pelos procuradores da República, de que a nova fase da Operação Lava-Jato deflagrada nesta sexta-feira, 23/11, teve início a partir de uma investigação que a própria empresa realizou internamente e cujos relatórios com os resultados foram enviados ao Ministério Público Federal. A Petrobras vem colaborando com as investigações desde 2014, e atua como coautora do Ministério Público Federal e da União em 16 ações de improbidade administrativa em andamento, além de ser assistente de acusação em 54 ações penais.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“A Odebrecht continua colaborando com a Justiça e reafirma o seu compromisso de atuar com ética, integridade e transparência.”

COM A PALAVRA, A PETROS

“A Petros vem colaborando de forma irrestrita com as autoridades e já vinha acompanhando de perto as investigações envolvendo o investimento na Torre Pituba. A Fundação informa ainda que não se pronuncia sobre os investimentos em investigação.”

COM A PALAVRA, A OAS

“Nova gestão da OAS comenta a 56º fase da Lava Jato

A OAS tomou conhecimento da 56º fase Lava Jato, que apura fatos relacionados à construção da sede da Petrobras em Salvador/BA. De acordo com as notícias até o momento, ex-colaboradores da OAS foram citados como envolvidos nas investigações.

No entanto, a nova gestão da OAS esclarece à opinião pública, aos nossos colaboradores, aos nossos credores e aos nossos fornecedores que considera relevante não deixar pairar dúvidas ou suspeitas sobre os negócios anteriores à sua chegada ao comando da empresa. Em razão disso, os atuais gestores da companhia têm prestado às autoridades todos os esclarecimentos a respeito de atividades e contratos sobre os quais haja questionamentos, a exemplo do recém firmado acordo de leniência celebrado com o CADE.

Prestar aos órgãos de controle todos os esclarecimentos possíveis é essencial para que a empresa possa dar continuidade a suas operações de acordo com os mais elevados padrões de ética e transparência corporativa, único caminho possível para conquistar um lugar de excelência na fundação de uma nova engenharia no país.”