Vídeo em que Ivete Sangalo cai no palco é editado para parecer que plateia xinga Lula

Vídeo em que Ivete Sangalo cai no palco é editado para parecer que plateia xinga Lula

Acidente ocorreu em apresentação da artista na cidade paulista de Jundiaí, em abril de 2011, enquanto o público cantava uma de suas músicas

Samuel Lima

26 de janeiro de 2022 | 13h41

Um vídeo amador que mostra um tombo da cantora Ivete Sangalo em uma apresentação na cidade de Jundiaí (SP), em 2011, teve o som editado para parecer que a cantora teria se acidentado ao ouvir gritos de “Lula ladrão”. O Estadão Verifica encontrou outras gravações do episódio comprovando que se trata de uma mentira. A plateia, na verdade, cantava uma das músicas da artista.

Além disso, a peça foi compartilhada primeiro no TikTok em tom de piada, mas parte dos usuários acreditaram no conteúdo. Depois, o material viralizou com outras legendas, enganando mais pessoas na internet.

Ivete vem sendo atacada nas redes sociais por apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) desde o fim do ano passado. Um show em Natal (RN), em 29 de dezembro, teve um coro de xingamentos ao presidente incentivado pela artista. Recentemente, foram espalhados boatos de que ela teria sido alvo de protestos em seu apartamento ou teria perdido patrocinadores e 100 mil seguidores no Instagram, por exemplo, ambos desmentidos por outras agências de checagem.

Para checar se a peça de desinformação aqui analisada era uma montagem, o Estadão Verifica fez buscas reversas de imagem com o Google Lens (veja aqui como fazer). O blog não conseguiu encontrar o vídeo original, mas descobriu que as roupas da cantora foram usadas durante uma turnê nos anos 2011 e 2012, depois da gravação de um DVD no Madison Square Garden, em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Essa informação serviu para pesquisar sobre o tombo de Ivete no palco, restringindo os resultados para esses anos. Sites de celebridades mencionaram um acidente em Jundiaí (SP) cuja descrição batia com os elementos do vídeo. No YouTube, o Estadão Verifica encontrou outro vídeo de um cinegrafista amador que registrou o mesmo episódio, mas de outro ângulo e com o som original.

A performance ocorreu no Bali Folia, em 3 de abril de 2011, evento sediado no Parque da Uva da cidade interiorana de São Paulo. Foi um dos primeiros shows do “Madison Tour” no Brasil. O trecho pode ser visto a partir de 3 minutos na gravação abaixo.

Ivete cantava a música “Eternamente” quando escorregou no palco molhado. Ela se levanta, ajeita a roupa, dá um tapa na perna, brinca com os fãs e senta para colocar o sapato. Não há gritos contra o ex-presidente Lula (PT) na plateia — que estava, na verdade, cantando a música junto com ela.

Origem da desinformação

O vídeo manipulado insere um áudio que traz, além dos gritos contra Lula (PT) inexistentes na performance de Ivete Sangalo, sons de buzina, o que indica ser retirada de uma manifestação de rua contra o petista. Esse áudio, no entanto, não pôde ser encontrado.

A peça de desinformação foi divulgada primeiro, em tom de piada, pelo canal de TikTok @panterajornalista50. Porém, mesmo nesse post, parte dos usuários acreditaram no conteúdo. “Acabou a carreira”, escreveu um perfil. “Arrepiei, obrigada povo”, postou outro. O vídeo teve quase 700 mil visualizações.

A gravação editada depois viralizou em outras plataformas com alegações falsas, enganando mais pessoas. Uma versão no Facebook acumulou 149 mil visualizações nesta semana com a legenda “Toma, distraída, até caiu” e gerando respostas como “A conta chegou e bem cara”.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa de Ivete Sangalo respondeu que o material é “muito antigo” e que a cantora não iria se pronunciar a respeito.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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