Corrente no WhatsApp espalha falsa informação de que União Europeia aprovou ivermectina e dispensa de vacinas contra covid-19

Corrente no WhatsApp espalha falsa informação de que União Europeia aprovou ivermectina e dispensa de vacinas contra covid-19

Boato, desmentido por um porta-voz da Comissão Europeia, distorce comunicado de junho que nem menciona o remédio; Agência Europeia de Medicamentos autoriza vacinas e desaconselha o uso do vermífugo

Samuel Lima

23 de setembro de 2021 | 13h00

É falso o boato que circula no WhatsApp dizendo que a União Europeia teria aprovado a ivermectina, uma das drogas sem eficácia comprovada propagandeada por defensores do chamado “tratamento precoce”, entre cinco terapias a serem usadas contra a covid-19 no continente. O conteúdo ainda inventa que a distribuição dos remédios substituiria a aplicação de vacinas a partir de outubro, o que não faz sentido e não encontra respaldo na realidade.

O Estadão Verifica acessou o site oficial da Comissão Europeia e constatou que um comunicado da entidade divulgado em 29 de junho deste ano foi distorcido pela peça de desinformação. O texto sequer menciona o vermífugo e deixa claro que as vacinas continuam sendo uma das principais estratégias de proteção contra a doença.

Procurada pela reportagem por e-mail, a Comissão Europeia desmentiu a alegação. O porta-voz Stefan De Keersmaecker enviou a lista das cinco medicações incluídas em uma lista prioritária, que não inclui a ivermectina, e esclareceu o posicionamento do bloco a respeito das vacinas.

“Estamos combatendo a pandemia em várias frentes: por meio de vacinas, para proteger as pessoas contra o vírus e suas variantes, e pela via terapêutica, para ajudar a tratar os pacientes de covid-19”, escreveu De Keersmaecker. “Portanto, não é correto afirmar que a estratégia de vacinação é incompatível com o desenvolvimento dos tratamentos. Precisamos de ambas.”

Ele acrescentou que a União Europeia não tem o poder de tornar o uso de qualquer vacina ou medicamento obrigatório, pois essa ação é uma “competência exclusiva dos estados membros”.

Essa checagem foi uma sugestão de leitores do blog, que encaminharam o conteúdo pelo número (11) 97683-7490.

O que diz o boato

A corrente de WhatsApp começa com a frase “Cientistas se dobram a (sic) eficácia da IVERMECTINA” e depois segue com outras alegações infundadas. “A União Europeia aprovou 5 terapias que estarão disponíveis em todos os hospitais dos Estados-Membros para tratar Covid”, espalha o boato, com um link para uma página oficial da Comissão Europeia em francês, que supostamente comprovaria a tese. “Agora que a ivermectina foi autorizada novamente, não há necessidade de vacina.”

O Estadão Verifica encontrou o mesmo conteúdo publicado em português no site da instituição, com o título “Estratégia da UE em matéria de terapêuticas contra a COVID-19: Comissão identifica cinco terapêuticas candidatas promissoras”. Basta acessar o documento para verificar que a ivermectina não aparece na lista de cinco drogas promissoras para tratamento da doença e que a procura por novas opções de tratamento é uma estratégia complementar à vacinação.

O que diz o comunicado da UE

Segundo a nota oficial, a União Europeia anunciou uma carteira com cinco terapêuticas em potencial contra a covid-19 “que poderão em breve estar disponíveis para tratar doentes em toda a UE”. A lista é composta por duas combinações de anticorpos monoclonais (bamlanivimab + etesevimab e casirivimab + imdevimab), dois anticorpos monoclonais isolados (regdanvimab e sotrovimab) e um imunossupressor (baricitinib). 

Isso não quer dizer que esses produtos tiveram a eficácia comprovada ou que já possam ser usados fora do ambiente de pesquisa. Quem avalia cientificamente os dados de segurança e eficácia dos ensaios clínicos, depois autoriza e supervisiona o uso dos medicamentos dentro do bloco econômico é a Agência Europeia de Medicamentos (EMA). O órgão de saúde faz parte da União Europeia, mas funciona de modo descentralizado.

A lista divulgada em 29 de junho simplesmente elenca os medicamentos que são tratados como prioridade pela UE. “Os cinco medicamentos encontram-se numa fase avançada de desenvolvimento e têm um elevado potencial para figurarem entre as três novas terapêuticas contra a COVID-19 a ser autorizadas até outubro de 2021, o objetivo definido no âmbito da estratégia, desde que os dados finais demonstrem a sua segurança, qualidade e eficácia”, anuncia o texto.

Em uma página de perguntas e respostas sobre o assunto, a entidade fornece outros detalhes sobre a inclusão dos cinco medicamentos na lista. O texto afirma que as candidatas se beneficiam em termos de regulamentação e apoio científico, e que a seleção facilita a identificação de produtos mais adequados para aquisição conjunta pelo bloco econômico. Durante a pandemia, esse tipo de compra coletiva já foi feita com as vacinas contra a covid-19 e com o antiviral remdesivir (única opção de tratamento autorizada até o momento), entre outros insumos hospitalares.

Vacinas aprovadas na Europa

Além de falsificar uma suposta aprovação da ivermectina que nunca existiu, a corrente de WhatsApp ataca as vacinas contra a covid-19 autorizadas na União Europeia dizendo que elas teriam sido aprovadas de “forma experimental provisória” e seriam dispensáveis agora. O texto inventa, a certa altura, que o Conselho Europeu obrigaria a prescrição dos cinco medicamentos entre seus estados membros e que os imunizantes teriam o seu uso encerrado a partir de outubro. Nada disso é verdade.

O porta-voz de saúde, segurança alimentar e transporte da Comissão Europeia, Stefan De Keersmaecker, afirmou ao Estadão Verifica que não existe intenção de abandonar a imunização no continente. Ele esclareceu ainda que a UE não tem o poder de obrigar nenhum país a prescrever medicações ou utilizar vacinas.

A própria nota publicada no site da Comissão Europeia mostra que a procura por medicamentos eficazes para o tratamento da doença é complementar ao uso dos imunizantes. “A estratégia”, esclarece o texto, “funciona em paralelo com a bem-sucedida Estratégia da UE para as Vacinas, através da qual foram autorizadas vacinas seguras e eficazes contra a COVID-19 para utilização na UE, a fim de prevenir e reduzir a transmissão de casos, bem como as taxas de hospitalização e as mortes causadas pela doença.”

Quatro vacinas contra a covid-19 foram aprovadas pela Agência Europeia de Medicamentos até setembro de 2021: Comirnaty (Pfizer/BioNTech), Spikevax (Moderna), Vaxzevria (AstraZeneca) e Janssen. Elas passaram por uma série de etapas rigorosas de testes em laboratório, em animais e depois em humanos, com milhares de voluntários, cujos resultados foram analisados pelo órgão regulatório de saúde e publicados em revistas científicas. Nesse tipo de ensaio, demonstraram que são seguras e eficazes para proteger a população contra o novo coronavírus, e o uso em larga escala segue sendo monitorado para aferição de eventos adversos.

Grupos antivacina costumam alegar que os imunizantes seriam “experimentais” porque foram aprovados com ensaios clínicos ainda em andamento. Essa é uma tática para enganar as pessoas e sugerir que os produtos trazem riscos. Órgãos de saúde como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e especialistas da área explicam que as vacinas só podem ser aprovadas para uso na população quando os desenvolvedores apresentam dados suficientes e capazes de demonstrar que elas são seguras — o que é o caso dos imunizantes contra covid.

EMA desaconselha ivermectina

A Agência Europeia de Medicamentos disponibiliza em seu site uma nota oficial em que desaconselha o uso de ivermectina para prevenção ou tratamento contra a covid-19 fora de ensaios clínicos randomizados, ou seja, com exceção de experimentos científicos devidamente autorizados. 

O posicionamento é o mesmo desde 22 de março de 2021, quando o órgão público de saúde europeu revisou dados dos estudos disponíveis e concluiu que as evidências são frágeis e insuficientes para apoiar o uso fora do ambiente de pesquisa. 

De acordo com essa análise, o medicamento se mostrou eficaz em bloquear a replicação do SARS-Cov-2 em testes de laboratório com uma concentração muito mais elevada do que o permitido para humanos, enquanto os resultados dos testes clínicos variaram entre si, geralmente com pequeno número de pacientes e outras limitações.

Na época, a EMA ressaltou que não tinha recebido nenhum pedido de autorização do uso da ivermectina contra a covid-19 na União Europeia, mas fez a análise ao constatar que o assunto tinha alguma repercussão. O Estadão Verifica procurou pelo nome do vermífugo na página de drogas em análise hoje e não o encontrou, o que indica que a situação permanece a mesma.

Mais desinformação

Ao final do texto que circula no WhatsApp, aparecem outras alegações falsas sobre uma suposta comprovação científica de eficácia da ivermectina. O boato alega que o Instituto Pasteur, da França, reconhece isso, mencionando um estudo publicado na revista EMBO Molecular Medicine. Depois, cita uma pesquisa publicada no American Journal of Therapeutics sobre a inclusão da droga como “padrão de tratamento”.

O que a mensagem não conta é que o tal estudo do Instituto Pasteur foi realizado em hamsters — e, portanto, não é capaz de provar qualquer benefício em humanos, como mostra essa checagem recente do Projeto Comprova. Já a segunda pesquisa foi publicada em agosto por um grupo de médicos dos Estados Unidos que faz campanha pela ivermectina, mas não menciona qualquer conflito de interesse no artigo. 

Especialistas consultados pelo Politifact, uma iniciativa de checagem de fatos do Instituto Poynter, dos Estados Unidos, alertaram que o artigo se baseia em dados de estudos que não são de alta qualidade, alguns deles sem revisão por pares, para carimbar o vermífugo como uma “cura”. 

Um artigo recente da revista Nature informa que o estudo do American Journal of Therapeutics tem como uma das suas principais referências uma pesquisa não publicada que foi excluída de uma plataforma de preprints (artigos sem revisão de outros cientistas) chamada Research Square por “preocupações éticas” depois que os autores foram acusados de plágio e manipulação de dados.

Essa mesma publicação aceitou um artigo em maio liderado por um dos fundadores do Front Line COVID-19 Critical Care Alliance (FLCCC), outro grupo de médicos favoráveis ao “tratamento precoce” nos Estados Unidos. A pesquisa também se baseava em evidências frágeis para defender o uso da ivermectina. Antes, o manuscrito havia sido rejeitado pela revista Frontiers in Pharmacology, de maior impacto. Os editores do periódico discordaram da metodologia do estudo e afirmaram que as suas conclusões eram insustentáveis.

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