Texto de vencedor do Nobel não comprova eficácia da ivermectina contra covid-19

Texto de vencedor do Nobel não comprova eficácia da ivermectina contra covid-19

Artigo assinado por Satoshi Omura é uma revisão narrativa, tipo de artigo científico que não serve para atestar que um medicamento funciona

Victor Pinheiro e Gabi Coelho

07 de maio de 2021 | 15h11

Um vídeo com quase 178 mil visualizações no YouTube engana ao afirmar que o prêmio Nobel de Medicina Satoshi Omura confirmou a eficácia da ivermectina como terapia para a covid-19. A gravação mostra uma entrevista do repórter Fernando Beteti com o professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Francisco Emmerich. Os dois discutem um artigo atribuído a Omura publicado na revista Japanese Journal of Antibiotics que defende o uso do medicamento no combate ao coronavírus. 

O japonês Omura recebeu o Nobel em 2015 por seu trabalho com ivermectina. A Universidade Kitasato, à qual ele é afiliado, confirmou que o pesquisador realmente assinou a análise que recomenda o uso do remédio contra covid-19.

Especialistas consultados pelo Estadão Verifica, no entanto, defendem que o artigo não é relevante cientificamente para confirmar a eficácia do medicamento contra a doença, como sugere o vídeo analisado. Eles também questionam as fontes e a metodologia utilizadas no relatório do prêmio Nobel.

Algumas das referências citadas no trabalho sofrem com limitações metodológicas ou nem sequer são trabalhos acadêmicos. É o exemplo de uma análise informal do site Ivmmeta.com, uma plataforma não científica repleta de erros técnicos e vieses a favor do medicamento.

A própria revisão de Omura pontua que as principais entidades de saúde do mundo, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) não recomendam a administração da ivermectina no tratamento da covid-19. Essas organizações afirmam que faltam evidências robustas que comprovem a eficácia e a segurança do tratamento no combate ao coronavírus.

Estudo não muda orientação sobre ivermectina

O pesquisador da Universidade Federal do Paraná Marcelo Molento, que estuda a droga há mais de 25 anos, afirma que a ivermectina mostrou ter ação antiviral contra o coronavírus em testes controlados em laboratório, com doses altas e tóxicas ao ser humano. Segundo o professor de medicina veterinária, essa mesma ação antiviral ainda não foi confirmada em pacientes.

Embora o artigo sustente que já existem evidências de que doses comuns de ivermectina podem beneficiar no tratamento da covid-19, Molento afirma que os estudos, até o momento, são inconclusivos ou não são adequados para confirmar a eficácia do tratamento. Ele acrescenta que muitas das referências usadas no artigo consistem em pré-publicações, que ainda não passaram pelo crivo da revisão por pares.

“Ainda não temos trabalhos que avaliaram o efeito isolado da ivermectina. Não tem como dizer se ela tem um efeito positivo ou negativo sobre a doença”, destaca o pesquisador. 

A doutora em neurociência pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Mellanie Fontes-Dutra ressalta que o artigo não é uma revisão sistemática, mas uma revisão narrativa. A cientista pontua que esse tipo de estudo está sujeito ao viés dos autores, uma vez que não estabelece critérios claros e sistemáticos para a busca e análise das referências científicas.

Ela ressalta que a revisão narrativa é adequada para a fundamentação teórica de artigos, dissertações, teses, trabalhos de conclusão de cursos, mas não apresenta métodos apropriados para responder a uma pergunta “de forma imparcial”. Ou seja, trabalho de Omura é uma dissertação teórica, que não tem o efeito de confirmar ou refutar a eficácia da ivermectina.

A pesquisadora opina que, para confirmar ou descartar a eficácia da ivermectina, seriam necessários outros tipos de artigos científicos: “Metanálises com metodologias extremamente delineadas, ensaios clínicos randomizados e controlados são importantes e têm peso imenso para bater o martelo sobre um assunto. Mesmo sendo assinado por um Nobel, esse artigo não muda o estado atual do entendimento do uso de ivermectina para covid-19”.

Análises enviesadas

O médico e pesquisador do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP Marcio Bittencourt afirma que a revisão não traz nenhuma discussão nova a respeito do uso da ivermectina contra a covid, que ainda não tem eficácia confirmada. Ele diz que os autores citam algumas fontes relacionadas a sites e grupos com “viés perceptível nas decisões”. 

“É um artigo científico de revisão com fontes de qualidade que não é o que a gente recomendaria”, defende Bittencourt.

Como citado anteriormente, uma das referências expostas no artigo para defender a eficácia do tratamento com a ivermectina consiste em uma análise repleta de falhas técnicas divulgada no site ivmmeta.com. Sem revelar que a plataforma não tem caráter científico, o documento cita que o estudo identificou 42 trabalhos, com o total de 15 mil pacientes, que apontam a eficácia da ivermectina.

O Estadão Verifica demonstrou em março que o site faz uma seleção enviesada de trabalhos científicos e até distorce a conclusão de autores para favorecer o tratamento precoce e preventivo com a ivermectina. A plataforma também atribui o mesmo peso a estudos de qualidade, estrutura e objetivos distintos. Outro equívoco é um cálculo infundado que sustenta que a interpretação do site teria uma chance de 1 em quatro trilhões de estar errada. 

O documento de Satoshi Omura também cita uma revisão sistemática feita por um grupo de médicos americanos chamado FLCCC, composto por profissionais que defendem o tratamento com a ivermectina. Uma verificação do Projeto Comprova em parceria com o Estadão mostrou que o estudo sofre com erros metodológicos. 

Em março, a revista científica Frontiers in Pharmacology se recusou a divulgar a revisão do grupo. A publicação afirmou, em nota, ter identificado uma série de alegações delicadas, mas sem fundamento, baseadas em estudos sem força estatística suficiente e com metodologias inadequadas. 

“Além disso, os autores promoveram [no trabalho] o seu próprio protocolo de tratamento à base de ivermectina, o que é inadequado para um artigo de revisão e contra as nossas políticas editoriais”, diz a revista. “Na nossa opinião, este documento não oferece uma contribuição científica objetiva nem equilibrada para a avaliação da ivermectina como tratamento potencial para a covid-19”.

O trabalho, porém, foi aceito na revista American Journal of Therapeutics.

Discurso inadequado

Marcelo Molento critica a argumentação exposta na entrevista de que as entidades de saúde estariam com medo de recomendar a ivermectina. “É um apontamento vulgar”, defende o especialista. O vídeo menciona a Organização Mundial da Saúde, que aconselha contra o uso do medicamento para tratar covid fora de exames clínicos. A entidade analisou os resultados de 16 estudos clínicos randomizados, mas concluiu que os dados oferecem pouca certeza devido a possíveis interferências, falhas e limitações nas pesquisas.

Para o professor da UFPR, apesar da situação de urgência da pandemia, não é correto promover tratamentos sem evidências conclusivas. Ele também rebate a ideia de que a ivermectina é uma droga completamente segura porque já é aplicada em programas de combate à doenças parasitárias há 30 anos.

O artigo de Omura e o vídeo no YouTube citam uma iniciativa da farmacêutica Merck com a OMS para fornecer ivermectina para tratamento e prevenção da oncocercose, infecção que pode levar à cegueira. O texto do cientista japonês destaca, na página 72, que mais de 3,7 bilhões de unidades do medicamento já foram distribuídas nesse programa, com incidência de efeitos colaterais graves muito baixa. 

O trabalho também critica uma nota da Merck, divulgada em fevereiro, a qual afirma que não há dados que sustentem o uso do remédio contra a covid-19.

De acordo com Molento, a ivermectina é considerada uma droga muito segura quando aplicada para combater doenças parasitárias, para as quais é recomendada há anos. Ele defende, no entanto, que a argumentação do artigo é equivocada, ao passo que a covid-19 representa uma situação completamente diferente. 

“Na África, a ivermectina é utilizada uma ou duas vezes ao ano”, diz ele. “O que já estamos observando no Brasil e na América Latina é um aumento [da incidência] dos efeitos colaterais a partir de uma sobredose da ivermectina. Isso estressa a parede intestinal, estressa o fígado […] pode levar à morte”

O pesquisador reforça: “Não é um tratamento para ser administrado uma vez ao mês, uma vez a cada quinze dias, muito menos toda semana”.


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