É falso que Etiópia e Austrália recomendem ivermectina contra covid-19
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É falso que Etiópia e Austrália recomendem ivermectina contra covid-19

Um dos principais estudos sobre o uso do vermífugo no combate à pandemia ainda não chegou à fase de testes em humanos

Projeto Comprova

20 de agosto de 2020 | 11h21

Feito em parceria com o Projeto Comprova. Leia mais aqui.

  • Conteúdo verificado: Vídeo postado no Facebok em que enfermeiro afirma que a ivermectina está evitando mortes por covid-19 na Etiópia e na Austrália. Na legenda, ele escreve que a droga “salva sua vida, sim”.

São falsas as afirmações de um enfermeiro em um vídeo no Facebook sobre o uso da ivermectina no combate à covid-19. Ele diz que a droga salva vidas, que há estudos que provam sua eficácia e que a Etiópia e a Austrália têm poucos casos do novo coronavírus porque fazem o uso profilático do remédio.

Não há nenhuma pesquisa que tenha comprovado o sucesso da ivermectina para salvar vidas de pacientes com covid-19 – o estudo que o enfermeiro cita no vídeo ainda nem chegou à fase de teste em humanos, conforme a Universidade Monash, responsável pelo ensaio, informou ao Comprova. Tampouco Etiópia e Austrália distribuíram ivermectina para a população, como mencionado na gravação. Os governos dos dois países não indicam a droga no combate à doença e decretaram diversas medidas contra o vírus, como isolamento social e restrição de viagens.

Em contato com o Comprova, o enfermeiro Anthony Ferrari Penza, autor do vídeo, disse que “as evidências sobre a ivermectina estão nos estudos in vitro que deram resultados e também na pesquisa observacional em pacientes que pelo uso do medicamento contraíram a covid-19 e foram assintomáticos ou tiveram sintomas leves”. A equipe pediu que ele enviasse as pesquisas que concluem que a ivermectina é eficaz contra a covid-19, mas ele enviou apenas um documento, que não prova a eficácia da droga. O vídeo foi retirado da plataforma.

Ao contrário do que diz enfermeiro em vídeo, o vermífugo ivermectina não possui eficácia comprovada no tratamento da covid-19. Foto: Projeto Comprova/Reprodução

Como verificamos?

O primeiro passo foi buscar a verificação que o Comprova havia publicado sobre Penza anteriormente, para ver o que ele já havia falado sobre o novo novo coronavírus. A equipe também pesquisou em outras investigações e no Google informações sobre pesquisas feitas com a ivermectina e sobre o uso da droga nos países citados por ele, Etiópia e Austrália. As afirmações do enfermeiro sobre um estudo feito na Austrália levaram à conclusão de levaram à conclusão de que ele se refere à se refere à pesquisa da Universidade Monash. A partir daí, o Comprova procurou a instituição, por e-mail, para saber em que fase está o estudo e se ele chegou a chegou a alguma conclusão.

Também foram usados como fonte os sites dos governos dos países mencionados que reúnem informações sobre a covid-19 e da Universidade Johns Hopkins, referência em estatísticas mundiais da pandemia.

Por último, como a equipe já possuía o telefone de Penza, a entrevista foi feita por WhatsApp.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 19 de agosto de 2020.

Verificação

Etiópia e Austrália

No vídeo, Penza afirma que o governo etíope distribui ivermectina aos cidadãos desde 1997 e que “o resultado disso é que, em maio, havia seis mortes de covid-19 e, hoje, são menos de 80 casos de mortos”, o que não é verdade. Primeiramente, segundo o Ministério da Saúde do país africano, o total de mortes até o dia 19 de agosto chegava a 600.

Além de não haver um número tão baixo de óbitos, é falso que o país tenha controlado a pandemia com a ivermectina. Segundo verificação do Comprova publicada em 10 de julho, as autoridades sanitárias da Etiópia não indicam a ivermectina para a prevenção ou tratamento da covid-19 e tomaram diversas medidas não farmacológicas para controlar o contágio, como fechamento de escolas e restaurantes, proibição de aglomerações e decreto de quarentena obrigatória para todos que chegassem ao país. O governo também decretou estado de emergência.

O enfermeiro também afirma, falsamente, que “todos na Austrália tomaram ivermectina” e que, com isso, o país “reduziu a praticamente zero”. Ele pode estar falando de mortes ou do contágio – qualquer uma das informações está errada. Conforme o Comprova também já investigou, o único tratamento contra a doença aprovado no país foi o antiviral remdesivir, que só é prescrito para pacientes graves. Antes disso, a Austrália adotou medidas como distanciamento social, higienização das mãos, restrição de viagens e lockdown. De acordo com o governo australiano, o país registrou 23.993 infectados e 450 mortes até 19 de agosto.

Estudo australiano

Ele cita ainda que a Austrália fez “um estudo com células contaminadas com covid-19 in vitro“, ou seja, em laboratório, para testar a eficácia da ivermectina e que “em 48 horas, não existia mais vírus da covid-19”. Penza não cita qual é a pesquisa, tampouco a mencionou quando questionado, mas, em verificações anteriores, o Comprova já citou um estudo da Universidade Monash, em Melbourne, que mostrou que o medicamento erradicou em 48 horas todo o material genético do vírus em experimento em laboratório.

Entretanto, a universidade, que lidera a pesquisa sobre o uso da droga contra o novo coronavírus no país, afirma, em novo contato, que os testes ainda estão na fase pré-clínica e não foram iniciados em humanos. Ou seja, não há nenhuma comprovação de que a ivermectina seja eficaz contra a covid-19.

Outra afirmação falsa de Penza no vídeo é que, a partir do estudo (ainda não concluído), a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o tratamento com o remédio para a população australiana. A FDA é um órgão sanitário norte-americano e não recomenda o uso de ivermectina.

A ivermectina

Pedimos a Penza comprovações científicas da eficácia da ivermectina no tratamento da covid-19. O único estudo científico enviado pelo enfermeiro ao Comprova foi o artigo “Remdesivir, nitazoxanida e ivermectina na covid-19”, publicado em julho na Unilakes Journal of Medicine, da Unilagos — União das Faculdades dos Grandes Lagos. Trata-se de um estudo revisional, que avalia os resultados obtidos por outros pesquisadores.

Na conclusão, os próprios autores afirmam que “outros compostos como nitazoxanida e ivermectina, apesar dos efeitos amplos antivirais, até o momento, mostraram atividade contra o SARS-CoV-2 apenas in vitro. Um único trabalho com ivermectina em pacientes encontra-se ainda em fase de avaliação, mostra a eficácia do medicamento na diminuição de mortalidade, nos casos severos da doença, porém a qualidade científica muito baixa compromete os resultados obtidos.” E o texto finaliza esclarecendo que “até o momento, não há nenhum fármaco eficaz para o tratamento da covid-19”.

Em uma busca sobre a ivermectina e sua eficácia contra o novo coronavírus no Google Scholar, plataforma que reúne artigos científicos disponíveis on-line, um dos principais resultados foi um artigo de junho, publicado no periódico “Antiviral Research”. O texto fala apenas de resultados observados in vitro.

Em julho, uma pesquisa da Universidade de São Paulo também encontrou os resultados positivos em observação no laboratório, mas concluiu que a ação do fármaco não seria suficiente para combater a infecção. Em entrevista ao Jornal da USP, o coordenador do laboratório onde o estudo foi realizado, Lucio Freitas Junior, disse que “nossos resultados sugerem que essas drogas [a ivermectina e a nitazoxanida] são pouco específicas e não atendem aos critérios necessários para testes in vitro com modelos animais”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o uso da ivermectina nos casos de covid-19. Segundo o órgão, não existem medicamentos que possam prevenir ou tratar a infecção pelo novo coronavírus.

Em junho, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia publicou um posicionamento sobre a profilaxia e tratamento da covid-19, firmando que “não existem evidências científicas de que quaisquer das medicações disponíveis no Brasil, tais como ivermectina, cloroquina ou hidroxicloroquina, isoladas ou associadamente, sejam capazes de evitar a instalação da doença em indivíduos não infectados. Isso também é verdade para vitaminas, como, por exemplo, a C e D, e suplementos alimentares contendo zinco ou outros nutrientes.”

No Brasil, a 

 de tratamento precoce com medicamentos da covid-19. O texto fala, entre outros, do uso de derivados da cloroquina — droga que também não tem eficácia contra o novo coronavírus. Em 10 de julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma nota afirmando que as indicações aprovadas para o uso da ivermectina são aquelas descritas na bula do medicamento, ou seja, “para o tratamento de várias condições causadas por vermes ou parasitas”.

No final de julho, a agência determinou que a ivermectina (assim como outras drogas que vinham sendo usadas de forma indiscriminada e sem comprovação científica de eficácia para prevenir a infecção pelo novo coronavírus) passasse a ser vendida apenas com apresentação de receita médica em duas vias,.

Quem é o enfermeiro?

Nascido no Rio de Janeiro, Anthony Ferarri Penza se formou em enfermagem em 2014, na Universidade Veiga de Almeida, e vive em Cabo Frio. Antes da graduação, Anthony foi dono de um jornal, o “Diário Cabofriense”, que declarou ter vendido “em 2012 ou 2013” em entrevista realizada em junho, quando apareceu em uma verificação do Comprova classificada como falsa. Ele acusava governos municipais e estaduais, dizendo que “corpos de vítimas da covid-19 são vendidos por milhões”.

Politicamente, o enfermeiro diz que não é nem de direita, nem de esquerda. Mas, nos vídeos, costuma chamar políticos de esquerda de “canalhas”. Na gravação verificada aqui, ao criticar o que estaria acontecendo no Brasil, chega a mencionar, sem terminar a frase: “Isso porque eles estão embutindo na cabeça do cidadão brasileiro, algumas pessoas de esquerda, gente…”. Em seguida, Penza diz que sua guerra “não é para manter Bolsonaro ou para tirar Bolsonaro ou para fazer a, b ou c”; segundo ele, é uma “guerra a favor da vida”.

No jaleco que usa em gravações, há a inscrição “Doutor Anthony Ferreira Enfermeiro”. Em comentários, alguns internautas questionam o uso do título “doutor”, mas a Resolução 256/2001 do Conselho Federal de Enfermagem autoriza tal utilização por enfermeiros.

No início da pandemia, Penza defendia o isolamento social, mas mudou de postura no decorrer dos meses. Ao ser questionado pelo Comprova, em junho, sobre a mudança, respondeu: “Ali era importante. Não sabemos como vai ser o vírus no Brasil e como o Brasil vai se comportar. Tanto que no Brasil como é que se comportaram estados e municípios? Apenas com corrupção”.

O Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren-RJ) instaurou, no início de julho, um processo contra Penza, após ter recebido “várias denúncias por e-mail” . Caso ele seja declarado culpado, as penalidades aplicadas pelo Coren-RJ podem ser advertência verbal, censura, multa e suspensão do exercício profissional.

Para o Comprova, Penza levantou vários outros pontos que já foram objeto de outras verificações, como a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, o questionamento das mortes registradas pela doença e a utilização das máscaras e das medidas de isolamento social.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados à pandemia que viralizaram nas redes sociais. Como ainda não há vacina ou cura, muitas das verificações têm sido sobre medicamentos que supostamente combatem a covid-19. O tema é de extrema importância porque a automedicação, sem orientação médica, pode colocar a saúde das pessoas em risco.

Nesse contexto, a ivermectina tem sido muito citada em conteúdos que sugerem seu uso preventivo, ainda que, como explicado anteriormente, não exista nenhuma comprovação científica da sua eficácia. Nos últimos meses, o Comprova já mostrou que não havia provas de que o medicamento funcionasse, que entrevistas sobre o remédio estavam sendo tiradas de contexto, e que as autoridades médicas não recomendam a automedicação.

Até 18 de agosto, o vídeo de Penza havia sido visualizado 3,1 milhões de vezes – um dia depois, a gravação foi tirada do ar. Contatamos o Facebook para saber o motivo, mas, até a publicação deste texto, não obtivemos resposta. O enfermeiro afirmou não ter sido o responsável pela retirada do conteúdo do ar, mas disse, em mensagem de áudio enviada ao Comprova, que é perseguido por veículos de imprensa e que “fica um monte de esquerdopatas denunciando o vídeo e a gente que luta pela vida não tem espaço na mídia”.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

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