Texto mistura informações falsas e sem contexto sobre países que flexibilizaram medidas de combate à covid-19

Texto mistura informações falsas e sem contexto sobre países que flexibilizaram medidas de combate à covid-19

Não é verdade que países como Alemanha, Espanha, China e Rússia tenham abandonado as campanhas de vacinação contra o coronavírus

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

14 de março de 2022 | 14h42

Um texto que circula no WhatsApp e no Facebook anuncia “o fim da pandemia”, afirmando que vários países teriam abandonado a vacinação contra a covid-19 — o que não é verdade. Alemanha, Espanha, China, Rússia e outras nações continuam vacinando suas populações. A mensagem também mistura informações verdadeiras com outras falsas ou fora de contexto sobre a flexibilização de medidas de contenção do coronavírus.

Alguns países da Europa mudaram a classificação da covid de “pandemia” para “endemia” por conta da melhora de indicadores, como números de contágios e mortes. Ainda assim, a Organização Mundial de Saúde (OMS), responsável por decretar o fim da situação de emergência a nível global, afirmou na última semana que a pandemia “está longe de acabar”. “O vírus continua evoluindo e continuamos enfrentando grandes obstáculos para levar vacinas, testes e tratamentos onde quer que seja necessário”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom. 

O texto que é objeto desta verificação circula no Facebook e WhatsApp ao menos desde o dia 18 de fevereiro. “Atualização mundial do fim da pandemia que a mídia não informa”, diz a mensagem, que em seguida lista uma série de medidas ou propostas que teriam sido abandonadas por alguns países, como a vacinação, o uso do chamado “passaporte vacinal” e a utilização de máscaras.

Alemanha

Ao contrário do que afirma o post, a Alemanha não abandonou a vacinação. Não há qualquer notícia com esse teor no site do Ministério da Saúde alemão, que segue recomendando a imunização. Declaração dada pelo ministro da Saúde da Alemanha, Karl Lauterbach, na última sexta-feira, 11, reforçou a importância das vacinas para o controle da pandemia no país, que na última semana bateu recordes de novos casos da doença registrados.  

Espanha

Também é falso que o governo da Espanha tenha decidido “confiar na imunidade natural” em lugar das vacinas, ou que o país tenha classificado a covid-19 como “gripe”. Na verdade, em janeiro, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que o país trabalha com a possibilidade de, no futuro, considerar a covid-19 uma doença endêmica, como se fosse uma gripe, desde que a decisão tenha embasamento científico. “O que estamos dizendo é que nos próximos meses e anos, vamos ter de pensar, sem hesitação e de acordo com o que a ciência nos diz, como gerir a pandemia com parâmetros diferentes”, afirmou ele. No entanto, nenhuma medida concreta foi tomada nessa direção. 

Ainda sobre a Espanha, a postagem diz que no país não há mais necessidade do uso de máscaras, o que é verdade, ao menos para espaços ao ar livre, a exemplo do que também ocorreu no Brasil na última semana, em Estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Em relação ao passaporte vacinal, a postagem diz que seu uso não é mais necessário, o que não é verdade. O documento segue obrigatório, por exemplo, para estrangeiros que desejam entrar no país. Para circulação de espanhóis, o passaporte ainda é exigido por algumas províncias para entrada, por exemplo, em hospitais e abrigos de idosos.  

Inglaterra, República Checa e Estados Unidos

A mensagem afirma que na Inglaterra “a maioria das cidades volta ao normal, sem passes e sem máscaras”, o que é verdade, conforme relatou reportagem da AFP de janeiro de 2022. No entanto, mesmo com as flexibilizações das medidas, à época, o governo britânico lembrou que a pandemia ainda não havia acabado, que os cuidados deveriam permanecer e, especialmente, que a população deveria se vacinar

O post cita ainda que a República Checa “abandonou a ideia de vacinação obrigatória”. O país europeu, de fato, estudava instituir a imunização obrigatória, mas apenas para maiores de 60 anos no início de 2022. A medida não foi adotada, conforme mostraram reportagens do jornal português Diário de Notícias e da revista IstoÉ

Sobre os Estados Unidos, o post afirma que a Suprema Corte do país barrou a vacinação obrigatória em empresas, que era proposta pelo governo do presidente Joe Biden, o que de fato ocorreu, mas no dia 13 de janeiro de 2022, e não agora. A proposta barrada pela Suprema Corte iria estabelecer a obrigatoriedade da vacinação entre trabalhadores de grandes empresas dos EUA. 

China e Rússia

A mensagem afirma que, além de “abandonar medidas sanitárias”, a China e a Rússia teriam também “abandonado a vacinação” desde o primeiro trimestre de 2021, o que não é verdade. Ao longo dos últimos meses, ambos os países tiveram que tomar ou reforçar medidas de combate à covid-19 em determinadas regiões em algum momento para frear a proliferação do vírus. Por exemplo, Moscou, a capital russa, adotou lockdown no final de outubro de 2021, e a cidade chinesa de Shenzhen confinou sua população por conta de um surto de contaminação nesta semana. 

Além disso, tanto a China quanto a Rússia seguem vacinando sua população desde março de 2021 até hoje, conforme mostram dados da plataforma Our World in Data. Na China, cerca de 85% da população está vacinada com duas doses de vacina e, na Rússia, pouco mais de 49%. Foram pouco mais de 4,9 milhões de doses da vacina aplicadas na China e pouco mais de 3 mil na Rússia no último sábado, 12, também segundo o Our World in Data

Canadá e Israel

Ainda em relação à vacinação, a mensagem que circula nas redes sociais afirma que na província de Quebec, no Canadá, a terceira dose da vacinação não é mais recomendada para pessoas com mais de 70 anos, e que Israel não exige imunização com a quarta dose, mas nenhuma dessas informações é verdadeira. Tanto na página do governo do Canadá quanto da província de Quebec, a dose de reforço da vacina é recomendada para todos os públicos, especialmente para pessoas com 50 anos ou mais. 

Já em Israel, a quarta dose da vacina segue disponível para a população, e é direcionada para pessoas com mais de 60 anos, profissionais da saúde ou com o sistema imunológico comprometido. Segundo o Ministério da Saúde isralense, mais de 735 mil pessoas já receberam a quarta dose do imunizante contra a covid-19 até o momento. A quarta dose nunca foi obrigatória em Israel, diferentemente da terceira, cujo comprovante de vacinação era exigido para acesso a determinados espaços do país até o último mês de fevereiro.  

Suíça

O post afirma que a Suíça considera a pandemia encerrada, quando, na verdade, o que aconteceu foi que as autoridades sanitárias do país decidiram, em fevereiro, suspender a maioria das medidas de combate à covid-19, como o certificado de vacinação e o uso de máscaras em determinados lugares. No comunicado sobre a suspensão dessas medidas, o governo suíço destacou que a decisão se deve à “situação epidemiológica positiva” do momento, com altos índices de vacinação no país e pouca sobrecarga no sistema de saúde. Em nenhum momento as autoridades suíças falam em controle total da proliferação do vírus ou do “fim” da pandemia. 

Índia e Japão

Também não é verdade que a Índia e o Japão tenham conseguido conter a pandemia abandonando a vacinação e apostando na distribuição de medicamentos para tratamento precoce da doença, entre eles a ivermectina. Afirmações com esse teor, tanto sobre o Japão, como sobre a Índia, já foram desmentidas pelo Estadão Verifica em 2021. 

Atualmente, ambos os países seguem vacinando sua população, conforme indicam dados da plataforma Our World in Data. No último domingo, 13, a Índia aplicou mais de 1,3 milhões de doses dos imunizantes contra a covid-19. No Japão, foram pouco mais de 961 mil doses aplicadas na última quinta-feira, 10. 

Na sequência, o texto cita ainda que a ivermectina é considerada o “antiviral mais eficiente contra o coronavírus”, o que também não é verdade, conforme já demonstraram diversas checagens do Estadão Verifica (veja aqui, aqui e aqui). 

Checagem recente do projeto Comprova também demonstrou que diversas pesquisas não conseguiram atestar a eficácia do medicamento contra a covid-19, e que a orientação da OMS e de agências de saúde de todo o mundo é que o remédio seja utilizado apenas em estudos clínicos no contexto da pandemia. Além disso, o laboratório Merck, responsável pela fabricação do medicamento nos Estados Unidos, já admitiu, em fevereiro de 2021, que não há base científica que aponte o efeito terapêutico da ivermectina contra a covid-19. 

Doses de reforço e ‘preocupação’ da FIFA

Ao longo do texto, o post afirma que a OMS “se opõe a doses repetidas de reforço da vacina”, o que também não é verdade. Embora até o fim de 2021 a organização ainda não tivesse se manifestado a respeito da necessidade e da eficácia das terceiras e quartas doses da vacina contra a covid-19, um comunicado emitido pela entidade na última semana passou a recomendar o amplo acesso da população às injeções de reforço. No comunicado, o Grupo Técnico sobre a Vacinação Contra a Covid-19 da OMS afirmou que a aplicação deve ser na população adulta, especialmente entre grupos com maior risco de desenvolver a doença de forma grave. 

Por fim, o texto cita ainda que a FIFA, organização máxima do futebol mundial, estaria “preocupada” com o número de jogadores vinculados à entidade mortos durante o ano de 2021, dando a entender que esses óbitos aconteceram em decorrência da vacinação contra a covid-19, o que, mais uma vez, não é verdade. 

Conforme mostrou checagem da AFP, em novembro de 2021 começaram a circular postagens falsas que tentavam relacionar um suposto aumento do número de ataques cardíacos entre jogadores de futebol e a vacinação contra a covid-19. O “levantamento” se baseava em números enganosos, sem qualquer comprovação da relação entre ocorrências cardíacas e a vacinação. Além disso, um comitê responsável por registrar efemeridades cardíacas ligado à própria FIFA afirmou à AFP que “não detectou nenhuma tendência” em relação ao número de ataques cardíacos entre os atletas. 

Esta matéria do Estadão relembra outras ocasiões em que jogadores sofreram com mal súbito em campo, mesmo antes da pandemia.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.