Estudo não revisado sobre Itajaí (SC) é insuficiente para atestar eficácia da ivermectina contra covid

Estudo não revisado sobre Itajaí (SC) é insuficiente para atestar eficácia da ivermectina contra covid

Análise retrospectiva de casos na cidade catarinense estima redução de 48% na mortalidade, mas o método não é capaz de determinar se a droga realmente funciona nem se moradores realmente tomaram o remédio

Samuel Lima

21 de dezembro de 2021 | 17h04

Circula nas redes sociais que um estudo realizado na cidade catarinense de Itajaí teria descoberto que o vermífugo ivermectina reduz em 48% o risco de morte por covid-19 quando tomada de forma preventiva. Essa pesquisa existe, mas não foi revisada por outros cientistas, nem publicada em uma revista médica. Além disso, não se trata de um ensaio clínico devidamente controlado, e sim de uma análise de dados, insuficiente para comprovar ou descartar a eficácia de um medicamento.

O manuscrito preliminar da pesquisa (preprint) foi disponibilizado em dezembro no Research Gate, uma plataforma de acesso aberto, que aceita todo tipo de artigo. Entre os autores, estão médicos simpáticos ao uso de remédios sem eficácia comprovada contra a covid-19. 

A médica Lucy Kerr, que possui uma clínica em São Paulo, já teve uma postagem desmentida pelo projeto Comprova em que dizia ter encontrado uma “cura” contra a covid-19. O endocrinologista Flávio Cadegiani responde a uma denúncia da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) por uma pesquisa irregular com proxalutamida que tinha doses elevadas e registrou 200 mortes. Ele foi acusado de crime contra a humanidade pela CPI da Covid no Senado.

Não há como garantir que moradores realmente seguiram o tratamento

A ideia do estudo era comparar dados de contaminação, hospitalização e morte por covid-19 entre moradores de Itajaí que receberam comprimidos de ivermectina gratuitamente pela prefeitura, entre julho e dezembro de 2020, e os demais que não tinham registro de participação na campanha. Os remédios eram prescritos na rede pública de saúde com orientação de uso a cada 15 dias.

O preprint alega que foram analisados dados de 220 mil pessoas na cidade catarinense, sendo 133.051 no grupo daqueles que receberam o medicamento e 87.466 classificadas como não usuários dentro da pesquisa. Destas, 7.345 tiveram infecção por covid-19 e 141 vieram a óbito. Os autores argumentam que a população com acesso ao remédio teve 7% menos casos da doença e 48% menos mortes do que o outro grupo.

Os números favoráveis fizeram com que o documento fosse apresentado com alarde em um evento organizado pelo grupo “Médicos pela Vida”, em Brasília. A associação já patrocinou anúncios publicitários em favor do “tratamento precoce” e recebeu apoio de uma fabricante brasileira do vermífugo.

Por ser uma análise retrospectiva, o trabalho apresenta limitações importantes. Uma delas é que a adesão ao uso do vermífugo como método de prevenção para a covid-19 era “opcional e baseada na preferência dos pacientes” e também dependia da ação de cada médico e de visitas dos pacientes aos locais de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa situação pode gerar desequilíbrio entre os grupos, ainda que os autores tenham tentado mitigar o problema com modelos estatísticos.

Outra questão é que a prefeitura de Itajaí não fazia um acompanhamento dos moradores atendidos. Assim, não há como afirmar se eles realmente tomaram os remédios conforme a prescrição. “Devido ao grande número de participantes, o programa municipal não foi capaz de supervisionar se os usuários de ivermectina estavam usando ivermectina regularmente, na dose correta e intervalo proposto”, aponta o relatório. E o contrário também vale: em tese, as pessoas que não receberam o kit poderiam obter esta e outras medicações por outros meios.

Em janeiro deste ano, a prefeitura publicou uma nota de esclarecimento sobre a entrega de ivermectina dizendo justamente que o interesse no medicamento diminuiu ao longo do tempo. Segundo o governo, 138.216 moradores retiraram a primeira dose no início da ação, número próximo do sinalizado no preprint. Mas 93.970 buscaram a segunda e a terceira doses 15 dias depois e, na sequência, somente 8.312 retiraram a quarta e quinta doses. “Ou seja, não houve continuidade quinzenal do uso da ivermectina, conforme preconizado”, informou a prefeitura.

Método não é adequado para indicar eficácia de medicação

O médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Alexandre Naime Barbosa alerta que os resultados devem ser vistos com cautela. O principal motivo é que, em qualquer pesquisa científica, os dados só podem ser considerados verdadeiros depois que forem submetidos a uma revisão por pares, o que ainda não ocorreu neste caso. É nessa etapa que pesquisadores independentes analisam cada aspecto técnico e podem auditar os dados fornecidos.

Ele também ressalta que a metodologia não é adequada para determinar se um remédio funciona ou não contra a covid-19. “O estudo é observacional, e não um ensaio clínico randomizado duplo cego, que é o padrão ouro para se analisar eficácia de medicação”, aponta o médico. A presença de grupo controle com placebo e o sorteio para definir quem recebe ou não o remédio, por exemplo, são etapas fundamentais para aumentar o nível de confiança.

A Universidade de Oxford, no Reino Unido, é uma das instituições que estão investigando se existe algum benefício no uso da ivermectina com esse tipo de estudo mais rigoroso. Fora do ambiente de pesquisa, o remédio é desaconselhado por órgãos de referência, a exemplo da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Leitos de UTI do hospital de campanha montado no ginásio Pedro Dell’Antonia da cidade de Santo André, município da Grande São Paulo Foto: Daniel Teixeira/Estadão – 18/03/21

De acordo com dados oficiais do Ministério da Saúde, o índice de mortalidade de Itajaí é de 363 óbitos a cada 100 mil habitantes, o que supera a média de Santa Catarina (281) e do Brasil (294). O prefeito da cidade ganhou notoriedade no ano passado ao anunciar que, além da ivermectina, a rede pública de saúde também passaria a oferecer homeopatia e aplicação retal de ozônio para tratamento contra a covid-19. Nenhuma dessas terapias é recomendada para essa finalidade até o momento.

O Estadão Verifica procurou Flávio Cadegiani por e-mail nesta terça-feira, 21 de dezembro, mas ele não se manifestou até a publicação desta checagem. O blog verificou o conteúdo a pedido de leitores, que encaminharam um vídeo de um comentarista da TV Pampa falando sobre o tema pelo WhatsApp (11) 97683-7490.

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