Foto do Rio Paraná vazio mostra etapa de instalação da Usina de Itaipu, não seca histórica

Foto do Rio Paraná vazio mostra etapa de instalação da Usina de Itaipu, não seca histórica

Imagem tem sido tirada de contexto no Facebook para negar efeitos da crise climática

Pedro Prata

17 de setembro de 2021 | 14h30

Uma foto histórica da época da instalação da Usina Hidrelétrica de Itaipu tem sido tirada de contexto nas redes sociais para negar os efeitos da crise climática. Na imagem publicada no Facebook, o Rio Paraná aparece quase vazio. A legenda da postagem diz enganosamente se tratar da “seca de 1978” e que “à época, Mato Grosso era só mato e a Amazônia nem se comenta”. No entanto, a foto é de 1982, quando a hidrelétrica foi finalizada e as comportas foram fechadas para enchimento do reservatório. A crise climática já é um consenso científico.

Foto: Reprodução

O Departamento de Hidrologia de Itaipu confirmou que a foto é de outubro de 1982. Naquele mês, as comportas ficaram fechadas apenas entre os dias 13 e 27, devido às fortes chuvas e enchentes. A previsão inicial era de que seriam necessários 40 dias para encher o reservatório. “A foto foi feita nas imediações da Ponte da Amizade, entre Foz do Iguaçu e Puerto Presidente Stroessner (que, depois, em 1989, mudou de nome para Ciudad del Este)”, informou a assessoria da usina hidrelétrica.

De acordo com o Departamento de Hidrologia, a foto em questão foi feita abaixo da barragem. “A água do Rio Paraná não passou de montante (acima) a jusante (abaixo) da barragem de Itaipu”, esclareceu.

Os técnicos da hidrelétrica não conseguiram identificar a origem da foto nem o fotógrafo. A confirmação de que a imagem é de outubro de 1982 foi feita com base na comparação de outras fotografias da época e no histórico hidrológico. “Essa foi a única ocasião em que o Rio Paraná ficou tão seco como retratado nesta foto”, disse a assessoria.

Como o Estadão Verifica já mostrou, é verdade que a região sofreu com uma seca severa na década de 1970. Este fato é tirado de contexto para dizer que eventos drásticos como secas seriam comuns e que não haveria uma mudança climática no mundo. No entanto, atualmente há consenso científico de que a crise climática é uma realidade e que a atividade humana tem forte influência no processo.

Em agosto deste ano, o Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da ONU, divulgou relatório mostrando que a Terra está esquentando num ritmo acima do anteriormente previsto. Isso torna eventos climáticos extremos como secas e enchentes mais frequentes. Os dados acendem um alerta para o Brasil, onde há previsão de que as regiões Centro-Oeste e Nordeste sejam atingidas por secas severas, com consequências para a produção agrícola.

Um estudo do MapBiomas — iniciativa que reúne universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia — mostrou que o Brasil perdeu cerca de 16% da superfície de água nos últimos 30 anos. Os dados mostram que isso é efeito do desmatamento, da mudança climática e da destruição de mananciais.

Nas redes sociais

Postagens com a foto antiga já circulam desde 2019, mas voltaram a viralizar recentemente. O post checado já somava 5,9 mil compartilhamentos apenas em setembro deste ano. Ele é principalmente compartilhado em grupos bolsonaristas com a legenda “Estou divulgando estas fotografias porque se der uma seca destas durante o governo do Bolsonaro, já sabe né?”.

A política de gestão do meio ambiente do governo Bolsonaro é alvo de duras críticas de empresários, ONGs, pesquisadores e sociedade civil. Em 2019, a Amazônia bateu recordes de queimadas. No ano seguinte, foi a vez do Pantanal. Atualmente o País vive uma crise hídrica que afeta as principais hidrelétricas e acende o alerta no governo para o risco de um apagão elétrico.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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