Foto de seca nas Cataratas do Iguaçu nos anos 1970 é real, mas não desmente mudança climática
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Foto de seca nas Cataratas do Iguaçu nos anos 1970 é real, mas não desmente mudança climática

Postagem no Facebook sugere que fenômeno ocorreu quando ‘ninguém falava de aquecimento global ou de problemas com a Amazônia’

Samuel Lima, especial para o Estadão

13 de outubro de 2020 | 12h38

Uma foto da década de 1970 que mostra as Cataratas do Iguaçu secas tem sido compartilhada no Facebook para minimizar a influência do aquecimento global sobre a natureza. Embora a imagem seja verdadeira, ela não desmente a existência de mudanças climáticas provocadas por atividades humanas — um tema sobre o qual há forte consenso científico.

Uma postagem com mais de 10 mil compartilhamentos no Facebook afirma que a foto das cataratas secas foi feita em 1978. O registro é verdadeiro e realmente foi feito na década de 1970, de acordo com o Parque Nacional do Iguaçu, em resposta ao Estadão Verifica. A gestão do ponto turístico não foi capaz de determinar o ano.

O texto que acompanha a foto no Facebook, no entanto, engana ao afirmar que o fenômeno ocorreu em uma época em que “ninguém falava de aquecimento global ou de problemas com a Amazônia”, dando a entender que não existe relação entre a seca e esses dois fatores. A seca mais recente nas Cataratas foi registrada em maio deste ano, sendo que hoje a vazão está dentro da normalidade.

Parque Nacional do Iguaçu confirmou que foto é verdadeira, mas texto faz afirmações duvidosas. Foto: Reprodução / Arte Estadão

De acordo com o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Pedro Fontão, a foto não prova coisa alguma. Ele explica que o clima apresenta oscilações naturais e que é normal observar períodos de estiagem e outros mais chuvosos ao longo do tempo. O que os cientistas analisam é se esses fenômenos têm ocorrido de maneira mais ou menos frequente.

“Um evento extremo específico não pode ser usado para comprovar ou desmentir mudança climática”, afirma. Para exemplificar o raciocínio, Fontão lembra que o País enfrentou uma onda de calor intensa na última semana. “Eu poderia falar que é mudança climática. Acredito que tenha influência realmente, mas não é uma prova que está ocorrendo. Agora, se esse evento ficar mais recorrente, aí é uma característica de que o clima está mudando.”

O que os cientistas têm verificado é que, de fato, temperaturas mais altas têm se tornado cada vez mais frequentes. Em São Paulo, as quatro das cinco maiores temperaturas do registro histórico foram alcançadas entre 30 de setembro e 7 de outubro. Dados coletados pela estação meteorológica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP) apontam que essas temperaturas mais extremas têm se tornado mais comuns na última década.

De acordo com o Serviço de Mudança Climática Copernicus, do Programa de Observação da Terra da União Europeia, o mês de setembro de 2020 foi o mais quente desde 1979. Esse aumento na temperatura já tem sido observado há alguns anos. Em 2018, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimou que o mundo estava, em média, aproximadamente 1°C mais quente em 2017 do que antes da Revolução Industrial.

Os especialistas do IPCC também calcularam que o impacto das ações humanas fique em torno 0,2% por década atualmente. O cenário ocorre, principalmente, em razão das emissões de poluentes a partir da queima de combustíveis fósseis e da potencialização das emissões naturais com o desmatamento de florestas. Além dos eventos extremos e do o aumento da temperatura média em estações meteorológicas, os cientistas estudam outras evidências de mudanças climáticas, como o derretimento de geleiras e o aumento do nível do mar. 

Fontão destaca que a teoria da influência humana sobre o aquecimento do planeta não é uma unanimidade absoluta, mas a aceitação no meio acadêmico é muito alta. Ele cita um artigo de 2019 da revista Bioscience, assinado por mais de 11 mil pesquisadores de 153 países, em que estes declaram “clara e inequivocamente que o planeta Terra está enfrentando uma emergência climática”. Outro estudo da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), de 2010, revisou trabalhos de 1.372 pesquisadores que ativamente estudam sobre o tema e apontou que 97% deles concordam com as conclusões do IPCC.

O post analisado pelo Estadão Verifica também desinforma ao dizer que o debate sobre mudanças climáticas não existia em 1978. De acordo com relatório do IPCC de 2007, o efeito estufa foi sugerido pela primeira vez em 1824, pelo físico francês Joseph Fourier, que acreditava que os gases na atmosfera poderiam aprisionar o calor do planeta. Em 1938, o engenheiro britânico Guy Callendar analisou registros de 147 estações meteorológicas e concluiu que as temperaturas aumentaram em relação ao século anterior, assim como as concentrações de CO2. 

O termo “aquecimento global” ficou conhecido apenas em 1975, após a publicação de estudo do cientista norte-americano Wallace Broecker. Três anos antes, o assunto já havia sido debatido em conferência das Nações Unidas, em Estocolmo. A primeira Conferência Mundial do Clima aconteceu em 1979, em Genebra. Em 1988, o IPCC foi criado para coletar e analisar evidências de mudanças climáticas. E, desde então, países-membros firmaram protocolos para redução dos gases do efeito estufa, como o Acordo de Paris, de 2015.

Documento

Esse conteúdo também foi analisado pelo UOL Confere/COLABOROU ALESSANDRA MONNERAT

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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