Trecho de programa jornalístico é cortado e retirado de contexto para atacar urnas eletrônicas
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Trecho de programa jornalístico é cortado e retirado de contexto para atacar urnas eletrônicas

Comentaristas da GloboNews falavam de conferência de hackers que violaram equipamentos de votação usados exclusivamente nos Estados Unidos

Pedro Prata

20 de maio de 2021 | 12h43

Um trecho de um programa jornalístico da GloboNews foi cortado e circula sem contexto nas redes para sugerir que urnas eletrônicas brasileiras teriam sido hackeadas. Os comentaristas repercutiam uma reportagem sobre um congresso de hackers nos Estados Unidos, no qual não havia urnas utilizadas no Brasil.

A mensagem enganosa que acompanha o vídeo diz que as urnas eletrônicas foram “hackeadas em menos de duas horas”. Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490.

Programa jornalístico foi recortado e circula sem contexto nas redes. Foto: Reprodução

Durante o programa Estúdio i, do canal GloboNews, comentaristas repercutiram uma notícia sobre o Defcon, maior evento de hackers do mundo, ocorrido em 2017 na Califórnia. Naquela edição, pela primeira vez haveria um evento para testar a segurança de urnas eletrônicas utilizadas nos Estados Unidos. Conforme explicado, em menos de duas horas todos os modelos foram invadidos.

Em um trecho recortado e excluído da versão que viralizou, o comentarista Ronaldo Lemos explicou que, apesar de uma das urnas violadas ser de uma empresa fornecedora para o País, não estava claro se ela era uma urna brasileira. “A gente tem que lidar com calma, as pessoas podem achar que tem haver com o Brasil”, disse. “Isso aconteceu nos Estados Unidos com alguns modelos. E não é claro se o modelo da urna brasileira específico foi testado”.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou que o encontro de hackers tenha testado urnas de fora dos Estados Unidos. Sobre a empresa fornecedora de urnas para o Brasil, afirmou que o País tem um sistema próprio e que ele não foi testado na conferência.

Ainda segundo o TSE, dois técnicos foram enviados à conferência para acompanhar os trabalhos e observar se as falhas ali encontradas poderiam indicar riscos ao sistema brasileiro. Apesar disso, eles não teriam visto problemas, uma vez que as falhas encontradas foram principalmente quanto à “presença de suporte a algum mecanismo de rede ou de portas de depuração na placa mãe (interface JTAG)”.

“Nossas urnas não têm nenhum mecanismo de rede (tanto de hardware quanto de software) e nem portas de depuração JTAG expostas na placa mãe”, diz o TSE.

Testes aumentam segurança

O comentarista Ronaldo Lemos avaliou que iniciativas para testar, explorar e hackear urnas para fins de testes aumentam a segurança das urnas. “Não tem essa de que a urna brasileira é uma urna singularmente inviolável”, disse durante o programa. “Toda urna é um computador, e ele precisa ser colocado sob testes de estresse permanentes”.

Em nota, o TSE informou que realiza o Teste Público de Segurança, no qual os participantes recebem informações sobre os mecanismos urna e acesso ao código-fonte do software para tentar violar as barreiras de segurança. Esse evento já foi realizado em 2009, 2012, 2016, 2017 e 2019.

Em 2020, as urnas eletrônicas foram o alvo favorito de peças de desinformação com relação às eleições. Este ano, esses conteúdos voltaram a circular em grande quantidade depois que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), convocou uma comissão especial para discutir um projeto de lei sobre a volta do voto impresso. A medida é liderada pela deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF).

Jair Bolsonaro é defensor da volta do voto impresso e chegou a dizer que teria relatos de fraudes nas eleições 2018, as quais ele venceu. O presidente, porém, nunca apresentou provas de suas acusações. O TSE afirma que nunca houve indícios de fraudes desde que as urnas eletrônicas foram implementadas.

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