Post distorce depoimento de Márcia Cavallari na PF para desacreditar pesquisa em que Bolsonaro perde para Lula

Post distorce depoimento de Márcia Cavallari na PF para desacreditar pesquisa em que Bolsonaro perde para Lula

É falso que ex-executiva do Ibope ‘responda na Justiça' por vender levantamento 'favorecendo o filho de Renan Calheiros’, como alega boato em redes sociais

Samuel Lima

28 de junho de 2021 | 20h02

Não é verdade que a ex-executiva do Ibope e atual diretora do instituto Ipec, Márcia Cavallari, esteja respondendo “na Justiça por vender pesquisa favorecendo o filho de Renan Calheiros, paga com dinheiro da JBS”, como alega uma postagem que viralizou nas redes sociais. Esses conteúdos distorcem um depoimento prestado por ela à Polícia Federal, em 5 de novembro de 2019, no âmbito da Operação Alaska. Não há qualquer registro de que Márcia seja investigada nesse inquérito. O Ipec virou alvo de ataques nas redes depois de divulgar uma pesquisa de opinião na qual o presidente Jair Bolsonaro aparece em desvantagem diante do principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva.

De acordo com o depoimento obtido pelo Estadão, o que houve foi uma negociação de prestação de serviços pelo Ibope para a campanha do candidato ao governo do Estado de Alagoas, em 2014 — e não um acerto para mostrar Renan Filho (MDB) liderando as intenções de voto ou qualquer outra fraude, como insinuam alguns usuários de redes sociais. Não é incomum que partidos e grupos políticos encomendem a realização de pesquisas de opinião para definir estratégias nas eleições.

O contrato só foi investigado pela PF porque o empresário Ricardo Saud, em delação premiada, afirmou que a J&F teria repassado R$ 300 mil a Renan Calheiros (MDB) por meio de uma nota fraudulenta do Ibope. O instituto de pesquisas rebateu a versão, dizendo que todos os serviços contratados foram devidamente entregues e que nunca recebeu propina de empresas ou políticos.

O depoimento de Márcia Cavallari Nunes foi prestado no dia 5 de novembro de 2019, na sede da superintendência da PF em São Paulo. De acordo com ela, o trabalho do Ibope foi orçado em R$ 600 mil e o custo foi pago pela J&F e pela campanha de Renan Filho (50% cada). Uma nota fiscal do grupo de Joesley Batista aponta que o pagamento da parcela referente à empresa foi realizado em 21 de julho de 2014.

Ainda segundo o depoimento de Márcia, o pacote do Ibope incluiu análises qualitativas, com acompanhamento diário da propaganda de TV e uma espécie de debate entre entrevistados em sala fechada para verificar “pontos fortes, pontos fracos, avaliação do material de campanha, propaganda eleitoral etc”; e uma análise quantitativa, por meio da aplicação de questionário em uma amostragem da população contendo a pergunta “em quem você votaria?”. 

Esse segundo modelo é, de fato, o que costuma aparecer na imprensa durante o período das eleições para informar a população a respeito da situação atual do páreo. Porém, neste caso, as pesquisas geralmente são encomendadas pelos próprios veículos de comunicação, que têm interesse em divulgá-las em primeira mão. No caso das eleições para o governo de Alagoas em 2014, foram quatro os cenários apurados pelo Ibope, que tiveram ampla divulgação na mídia.

A primeira pesquisa, divulgada em 2 de abril de 2014, foi feita pelo Ibope a pedido do MDB, partido de Renan Filho, quando ainda não estavam definidos os candidatos do pleito. Já nas três vezes que o instituto mediu a situação eleitoral durante a campanha — 14 de agosto, 11 de setembro e 3 de outubro — o levantamento foi encomendado pela TV Gazeta, afiliada da TV Globo em Alagoas.

Independentemente da forma de contratação, pelo MDB ou pela TV Gazeta, não existem indícios de que o Ibope tenha forjado resultados das pesquisas eleitorais. Vale lembrar ainda que os levantamentos precisam ser registrados previamente na Justiça Eleitoral e devem seguir rigorosamente a metodologia. Uma constatação de irregularidade pode resultar na suspensão da divulgação da pesquisa. Renan Filho foi eleito para o seu primeiro mandato como governador de Alagoas, conforme indicaram as pesquisas, com 52,16% dos votos válidos.

Também não há registros de que a ex-executiva do Ibope “responda na Justiça” pelo caso envolvendo a J&F e o senador Renan Calheiros. Ela apenas prestou um depoimento para a Polícia Federal. Apesar de o inquérito da Operação Alaska, de nº. 4.707, correr sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), documento obtido no ano passado pelo Estadão mostra que o nome dela realmente não constava na lista de investigados.

Boato circula após pesquisa mostrar Lula na liderança

A postagem analisada nesta checagem viralizou nas redes ao tentar colocar em descrédito o Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), que é formado por ex-executivos do Ibope Inteligência e que usa a mesma metodologia do antigo instituto. Márcia Cavallari Nunes é, atualmente, CEO do Ipec.

O fato ocorre depois que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu como favorito para a próxima disputa pelo Palácio do Planalto em uma pesquisa do Ipec. Segundo o levantamento, o petista tem 49% das intenções de voto, mais do que o dobro da taxa do atual presidente, Jair Bolsonaro, que marcou 23%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Procurado pelo Estadão Verifica, o Ipec encaminhou uma nota afirmando que “repudia veementemente as fake news e qualquer discurso de ódio ou que vise confundir a opinião pública ou gerar intimidação”.

O documento destaca que “não há qualquer denúncia contra o Ibope Inteligência, seus ex-executivos ou contra Márcia, que não responde e nunca respondeu a qualquer processo, apesar das fake news se utilizarem da sua contribuição no processo de investigação para tentar denegrir sua imagem”.  Veja a íntegra do posicionamento no arquivo abaixo.

Documento


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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