Para minimizar importância das máscaras, post tira de contexto foto de laboratório de alta segurança

Para minimizar importância das máscaras, post tira de contexto foto de laboratório de alta segurança

Roupa de proteção mostrada em postagem viral é exigida para estudo de vírus do patamar mais alto da classificação de risco

Tiago Aguiar e Guilherme Bianchini, especial para o Estado

11 de setembro de 2020 | 19h57

Uma postagem enganosa no Facebook tira de contexto a foto de um laboratório para sugerir que máscaras de pano não têm eficácia como método de prevenção contra a transmissão do novo coronavírus. A imagem mostra cientistas usando uma roupa de proteção usada em laboratórios de biossegurança nível 4, patamar mais alto da classificação internacional de risco. Nesse tipo de ambiente, são manipulados micro-organismos como os que causam ebola e peste bubônica, com alta carga de exposição.

A pesquisadora do departamento de Virologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Juliana Cortines explicou ao Estadão Verifica que não é necessário o uso da vestimenta mostrada na postagem para análise em laboratório do novo coronavírus. De acordo com ela, o SARS-CoV-2 (vírus que causa a covid-19) costuma ser estudado em ambientes de biossegurança nível 3. As classes de risco vão de 1 a 4, de acordo com o nível de contenção exigido.

“Essa vestimenta é usada em laboratórios de biossegurança nível 4 e os vírus que estão associados a isso são os hemorrágicos, como ebola, ou bactérias extremamente perigosas, como a Yersinia pestis, que causa a peste bubônica”, explicou a pesquisadora.

Cortines adiciona que em trabalhos laboratoriais com vírus a carga de exposição é “muito maior” e que, portanto, a proteção a cientistas precisa ser mais rígida. “Obviamente a máscara não tem a mesma proteção que a vestimenta de laboratório, mas a questão da máscara é evitar que gotículas contaminadas saiam da pessoa contaminada”, disse ela.

De acordo com o Ministério da Saúde, a utilização de máscaras caseiras é efetiva como prevenção contra o novo coronavírus desde que associada a outras medidas: distanciamento social, higienização das mãos, limpeza e desinfecção de ambientes e cumprimento da etiqueta respiratória (proteger o ambiente de secreções respiratórias).

Origem da foto

A foto foi tirada em fevereiro de 2017, pela Associated Press, no laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, quase três anos antes dos primeiros registros dos primeiros casos de infecção humana do novo coronavírus na cidade. O instituto foi fundado no mesmo mês em que a foto foi tirada. O primeiro objeto de pesquisa da instituição foi o vírus da febre hemorrágica da Crimeia-Congo, conforme reportagem da revista Nature.

No começo do ano, o laboratório foi alvo de boatos que alegavam que o SARS-CoV-2 poderia ter sido criado ali. O diretor do instituto, Yuan Zhiming, já reiterou em diversas entrevistas que o espaço é seguro. Pesquisadores de universidades de diversos países constataram em estudo publicado em março que o vírus tem origem natural.

A mesma imagem e legenda enganosas foram publicadas por Donald Trump Jr., filho do presidente americano Donald Trump, em junho deste anoO autor da postagem em português é Rafael Zucco, pré-candidato a vereador em Guarulhos. Outra publicação de Rafael desprezando a eficácia de máscaras foi verificada pela Agência Lupa neste mês. Na ocasião, alegou que fez “uma piadinha”.

Outro lado

A postagem enganosa foi publicada por um perfil pessoal no Facebook que, procurado, respondeu que a fonte utilizada foi um documento publicado pela Associação Médica Brasileira (AMB) de diretrizes para evitar a propagação do novo coronavírus.

Documento

Na seção destinada à proteção de profissionais de saúde, o texto menciona que “as máscaras cirúrgicas e de algodão parecem ser ineficazes na prevenção da disseminação de SARS-CoV-2 da tosse de pacientes com COVID-19 para o ambiente e a superfície externa da máscara”, fazendo referência ao artigo “Effectiveness of Surgical and Cotton Masks in Blocking SARS-CoV-2“, publicado em 6 de abril deste ano na revista acadêmica de medicina Annals of Internal Medicine.

No entanto, em julho deste ano os autores do artigo publicaram uma nota de retratação, retirando o artigo a pedido dos editores, alegando que os dados obtidos com as análises não são confiáveis para interpretação científica.

Segundo o site da AMB, o documento “Diretrizes AMB: Covid-19” seria modificado à medida que novas pesquisas e orientações forem surgindo, porém a última atualização que consta no site da associação é de 22 de abril.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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