Obras na BR-101 na Bahia começaram com Dilma, e não com Bolsonaro

Obras na BR-101 na Bahia começaram com Dilma, e não com Bolsonaro

Vídeo que mostra trecho novo da rodovia engana ao atribuir pavimentação apenas ao governo atual; gestão que mais investiu em melhorias na via foi a de Temer

Pedro Prata

29 de abril de 2021 | 18h41

Não é verdade que as obras de duplicação da BR-101 na Bahia tenham começado no governo de Jair Bolsonaro. Os contratos foram firmados no governo de Dilma Rousseff e se estendem desde então. Um vídeo com esta alegação enganosa viralizou após o presidente inaugurar um trecho de 22 km da rodovia nesta segunda-feira, 26.

Obras começaram ainda em 2015, no governo de Dilma Rousseff. Foto: Reprodução

O homem que gravou o vídeo diz que filma o trecho da rodovia federal próximo à cidade de Alagoinhas, sentido Aracaju. “O que o PT nunca fez, Bolsonaro está fazendo em dois anos e meio. Juntamente com o Tarcísio, o rei do asfalto”, diz o narrador. Este vídeo foi compartilhado ao menos 1,1 mil vezes no Facebook.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), ligado ao Ministério da Infraestrutura, possui um Portal Cidadão no qual é possível consultar o andamento das obras de construção rodoviárias. Atualmente há quatro contratos de “duplicação e restauração com melhoramentos” da BR 101, todos eles firmados em 2014, ainda no primeiro mandato de Dilma Rousseff. As obras são divididas nos lotes 1, 2, 3 e 4.

Alagoinhas fica na altura do lote 3 da BR-101. Foto: DNIT/Reprodução

A cidade citada pelo autor do vídeo, Alagoinhas, está localizada entre os quilômetros 83,58 e 124,6 da BR-101. O contrato de duplicação para esses trechos é do lote 3 — no entanto, essa parte da via ainda não tem revestimento implantado. Até o momento, o lote 3 recebeu investimentos que somam R$ 37,985 milhões (com reajustes e aditivos). Nenhum valor foi destinado durante o governo Bolsonaro. Segundo o cronograma financeiro da obra, as verbas foram distribuídas pelos seguintes governos:

O vídeo compartilhado nas redes sociais mostra uma estrada de concreto — portanto, não poderia ser o trecho da rodovia que passa por Alagoinhas, que está sem revestimento. Por e-mail, o Dnit informou que o governo Bolsonaro priorizou o lote 4 da obra de duplicação — que fica entre os quilômetros 124,6 e 165,4 da BR-101. Essa obra fica próxima a Alagoinhas, embora não passe pela cidade. O governo Bolsonaro investiu R$ 17,3 milhões nesse trecho.

Outros trechos tiveram mais investimento de Temer

A duplicação da BR-101 na Bahia ganhou destaque após o presidente Jair Bolsonaro participar da inauguração de 22 km no lote 4 nesta segunda-feira, 26. Segundo o Dnit, a atual gestão também entregou 25 km nos lotes 1 e 2.

Um comparativo com as gestões anteriores mostra que o governo de Michel Temer foi o que mais investiu valores na duplicação e revestimento da rodovia. O primeiro lote de duplicação tem 84,52% do revestimento e 88,46% da terraplanagem concluídos. Dilma destinou R$ 7,76 milhões para a obra, Temer R$ 103,44 milhões e Bolsonaro, R$ 26,25 milhões.

O segundo lote tem 68,93% do revestimento e 84,24% da terraplanagem terminados. Dilma liberou R$ 1,18 milhões, Temer R$ 71,77 milhões e Bolsonaro, R$ 68,26 milhões. No quarto lote, 20,86% do revestimento e 91,30% da terraplanagem estão finalizados. Dilma destinou R$ 505 mil, Temer R$ 73,42 milhões e Bolsonaro, R$ 17,31 milhões.

Em nota, o Dnit informou que está implantando o “pavimento rígido” ao longo dos trechos, como mostrado no vídeo. “Este tipo de pavimento vem conquistando espaço no país devido a uma série de vantagens, como alta durabilidade, baixo custo de manutenção, resistência ao tráfego pesado e melhor qualidade de rolamento e segurança aos usuários”, diz o órgão federal.

O governo de Jair Bolsonaro deu prioridade para a inauguração de obras de infraestrutura e Tarcísio Gomes de Freitas é um de seus ministros mais populares. Com isso, muitas obras são alvo de desinformação. O Estadão Verifica já mostrou que uma postagem viral atribuía ao ministério da Infraestrutura uma obra que na verdade era do governo do Piauí.

A Agência Lupa também checou este conteúdo.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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