Não há provas de que vídeo de mulher tremendo ao caminhar tenha relação com vacina da Pfizer

Não há provas de que vídeo de mulher tremendo ao caminhar tenha relação com vacina da Pfizer

Autoridades de saúde dos Estados Unidos investigam o caso, mas desconhecem possibilidade desse tipo de reação até o momento

Samuel Lima, especial para o Estadão

25 de janeiro de 2021 | 17h58

Não há provas de que um vídeo de uma mulher tremendo e caminhando com dificuldades em um corredor de hospital nos Estados Unidos mostre uma reação adversa a uma das vacinas aprovadas contra a covid-19. Especialistas e órgãos de saúde desconhecem qualquer associação entre os imunizantes aprovados e alterações neurológicas ou convulsões. O caso não foi confirmado pelas autoridades sanitárias, que informam a possibilidade apenas de sintomas semelhantes a uma gripe.

O conteúdo viral foi postado em 13 de janeiro por Brant Griner, um morador da cidade de Lake Charles, Louisiana. Ele afirmou à agência de checagem PolitiFact que a mãe de 45 anos, Angelia Gipson Desselle, que trabalha em uma clínica médica em New Orleans, tomou uma dose da vacina da Pfizer/BioNTech em 5 de janeiro. Três dias depois, ela teria começado a sentir “sensações parecidas com convulsões na perna esquerda” até dar entrada em um hospital no dia seguinte, quando “mal conseguia andar”. Griner se recusou a dizer onde Desselle tomou a vacina, em que hospital ela esteve ou quais foram os profissionais que a atenderam, sob a justificativa de preservar a privacidade dos envolvidos.

A vacina da Pfizer é considerada por especialistas uma das mais complexas do ponto de vista logístico, pois precisa ser armazenada a uma temperatura de 70°C a 80°C negativos Foto: JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP

Em outro vídeo, Desselle afirma que soube por um médico — novamente não identificado — que existia a chance de o quadro ter sido causado pela injeção. “Ele disse que existem alguns metais na vacina que fizeram isso com o meu corpo”. O produto da Pfizer/BioNTech não contém metais — apenas RNA mensageiro, lipídios, sais, açúcar e uma solução salina, de acordo com o Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos. Os vídeos originais foram deletados por Griner e Desselle.

Procurado pelo Estadão Verifica, o Departamento de Saúde do Estado de Louisiana disse que está investigando o conteúdo dos vídeos e que não confirma o caso como um efeito colateral da vacina. “Nós reportamos apenas um efeito adverso ao CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) até o momento. Neste caso, a pessoa teve desconforto gastrointestinal e tontura, foi tratada e recebeu alta após uma breve internação hospitalar”, respondeu o órgão por e-mail. 

Em sua página oficial, o CDC informa que efeitos colaterais “parecidos com sintomas de gripe” podem aparecer cerca de um ou dois dias após a vacinação com o produto da Pfizer. Em alguns casos, podem “afetar a capacidade de fazer atividades diárias, mas devem desaparecer dentro de poucos dias”, mostra o texto. As reações adversas mais comuns são dores, inchaço e vermelhidão no local da injeção e arrepios, cansaço e dores de cabeça no corpo.

A vacina se mostrou segura em testes clínicos com 38 mil voluntários, que foram acompanhados por cerca de dois meses após a aplicação da segunda dose, conforme análise do FDA que aprovou o uso do produto da Pfizer nos Estados Unidos. As reações adversas mais intensas ficaram entre 0% e 4,6% nos grupos analisados, mas não houve eventos fora do padrão. A eficácia da vacina é estimada em 95%.

Caso semelhante circula com vacina da Moderna

Em outra checagem recente, o Estadão Verifica analisou o caso de Shawn Skelton, uma cuidadora de idosos em Indiana, nos Estados Unidos, que publicou vídeos em que sofria espasmos na língua e no corpo. Ela alegou que a condição havia sido causada pela vacina contra a covid-19 recebida três dias antes, da farmacêutica Moderna. Médicos que a examinaram disseram que os sintomas eram causados por estresse.

O professor de virologia da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, Fernando Spilki ressaltou que os efeitos adversos mais graves de vacinas, apesar de raros, costumam ser reações alérgicas logo após a aplicação, com manifestações cutâneas e respiratórias, sem qualquer ligação com espasmos. Dor de cabeça, cansaço e indisposição são as reações mais tardias observadas, dois ou três dias depois da aplicação de vacinas em geral, incluindo as utilizadas contra o SARS-CoV-2.

Tanto a vacina da Moderna quanto a da Pfizer utilizam a tecnologia do RNA mensageiro (mRNA), que induz as células a produzirem uma proteína do vírus. Esse fragmento de RNA (material genético) dispara alarmes no sistema imunológico e o estimula a atacar, a partir da produção de anticorpos, caso o vírus real tente invadir. A tecnologia é estudada por cientistas há décadas, mas está sendo usada pela primeira vez em vacinas de escala global.

Spilki também descartou qualquer relação entre o mRNA e os problemas relatados no vídeo de Skelton. “Os componentes não têm nada associado a esse tipo de quadro. Não é uma manifestação que já tenha sido reportada em outros estudos do uso do RNA como elemento do transporte e da produção do antígeno vacinal no indivíduo. Os efeitos colaterais são os mesmos de qualquer vacina, como reações alérgicas, dor de cabeça, dor no corpo e cansaço nos dias seguintes”, esclarece.

Especialistas pedem cautela sobre relatos na internet

Os dois vídeos ganharam impulso nas redes sociais a partir de grupos que propagam terapias alternativas, movimentos antivacina, teorias da conspiração sobre o 5G e contas de extrema-direita nos Estados Unidos. Especialistas, porém, advertem sobre o perigo de associar apressadamente esse tipo de relato na internet com as vacinas.

Em entrevista à revista Wired, o professor da Universidade do Texas Luis Ostrosky argumentou que, diante da escala global da vacinação, serão detectados inevitavelmente “uma série de eventos que acontecem depois que as pessoas foram vacinadas, mas que podem ou não estar relacionadas com as vacinas”. Segundo ele, a única maneira confiável de estabelecer essa causalidade é pela análise de padrões.

A mesma observação é feita por William Schaffner, professor da Universidade Vanderbilt, ao PolitiFact. “Não se pode concluir, a partir de um evento isolado, que a vacina foi a causa daquela ocorrência”, afirma ele. “É preciso distinguir as coincidências das causalidades. Sabemos que algumas coisas vão acontecer, e algumas pessoas vão pensar que existe relação (com as vacinas), e não estou dizendo que não tenha, mas isso precisa ser investigado primeiro.”

Até a tarde desta segunda-feira, 18,5 milhões de pessoas receberam ao menos uma dose das vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna nos Estados Unidos. A informação está disponível no site do CDC. Foram 290.955 em Louisiana e 367.944 em Indiana. Em todo o mundo, a campanha de vacinação já alcançou 65,7 milhões de doses. Pfizer e Moderna firmaram contratos para distribuição global de 836 milhões e 461 milhões de doses, respectivamente, segundo levantamento da agência de notícias Bloomberg.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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