Especialistas e órgãos de saúde dizem não existir prova de relação entre vacina contra covid-19 e convulsão
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Especialistas e órgãos de saúde dizem não existir prova de relação entre vacina contra covid-19 e convulsão

Não há evidências que permitam associar espasmos de mulher nos Estados Unidos ao imunizante da Moderna

Guilherme Bianchini, especial para o Estadão

15 de janeiro de 2021 | 13h08

Especialistas e órgãos de saúde desconhecem qualquer associação entre vacinas contra a covid-19 e reações neurológicas, como convulsões. O assunto repercutiu nas redes sociais após Shawn Skelton, uma cuidadora de idosos em Indiana, nos Estados Unidos, publicar vídeos em que sofria espasmos na língua e no corpo. Médicos que a examinaram disseram que os sintomas eram causados por estresse.

A americana relacionou o caso com a vacina da Moderna contra a covid-19, cuja dose afirmou ter recebido três dias antes do início dos sintomas. Não há, porém, relatos semelhantes nos estudos já divulgados e nos efeitos observados em pessoas que receberam o imunizante da Moderna — ou qualquer outro em uso contra o novo coronavírus. 

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Especialistas desconhecem relação entre vacina e convulsão. Foto: Eduardo Munoz/Reuters

Professor de virologia da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, Fernando Spilki ressalta que os efeitos adversos mais graves de vacinas, apesar de raros, costumam ser reações alérgicas logo após a aplicação, com manifestações cutâneas e respiratórias, sem qualquer ligação com espasmos. Dor de cabeça, cansaço e indisposição são as reações mais tardias observadas, dois ou três dias depois da aplicação de vacinas em geral, incluindo as utilizadas contra o SARS-CoV-2.

“Essas reações não têm nada a ver com o processo da senhora do vídeo. O caso dela parece com desordens metabólicas ou no sistema nervoso, que também podem ser causadas por estresse. Não existe nada reportado em relatórios de vacinas que eu conheça. Ela parece estar passando por um outro quadro e, coincidentemente, ter tomado a vacina”, afirma o virologista.

Para o neurologista Helton Martins, professor de neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Unifenas/BH, o vídeo parece mostrar uma crise convulsiva tônico-clônica generalizada, comum em pacientes com epilepsia. O sintoma pode ocorrer por falta de controle medicamentoso das crises, por tumores e infecções cerebrais, trauma encefálico ou por distúrbios em eletrólitos, como sódio e potássio.

“Além dos tremores causados por convulsões, temos vários causas de tremores que podem ser confundidos com uma crise convulsiva, como Tremor Essencial, coreia de Huntington e Parkinson. Não há, até o momento, indícios de que as vacinas possam causar efeitos ou complicações neurológicas. Todo estresse causado no corpo também pode levar a uma crise de convulsão, até mesmo em indivíduos que nunca tiveram antes”, diz Martins.

Vacina mRNA

A vacina da Moderna utiliza a plataforma do RNA mensageiro (mRNA), que induz as células a produzirem uma proteína do vírus. Esse fragmento de RNA (material genético) dispara alarmes no sistema imunológico e o estimula a atacar, a partir da produção de anticorpos, caso o vírus real tente invadir. A tecnologia é estudada por cientistas há décadas, mas está sendo usada pela primeira vez em vacinas de escala global, tanto da Moderna quanto da Pfizer/BioNTech.

Os especialistas também descartam qualquer relação entre o mRNA e os problemas relatados por Shawn Skelton. “Os componentes não têm nada associado a esse tipo de quadro. Não é uma manifestação que já tenha sido reportada em outros estudos do uso do RNA como elemento do transporte e da produção do antígeno vacinal no indivíduo. Os efeitos colaterais são os mesmos de qualquer vacina, como reações alérgicas, dor de cabeça, dor no corpo e cansaço nos dias seguintes”, esclarece Fernando Spilki.

Na postagem em que relatou os espasmos, Shawn Skelton disse ter passado por dois hospitais, que a liberaram após examiná-la. Nos dias posteriores, a cuidadora de idosos afirmou que exames de ressonância magnética e de tomografia apresentaram resultados normais, e que médicos definiram o estresse como causa dos sintomas. 

“Eu sou estressada? Bom, quem no mundo não tem estresse? É coincidência que isso tenha acontecido depois da vacina? Acho que tudo é possível, mas sei que sou uma pessoa feliz e otimista que sempre tem um sorriso no rosto”, disse em uma das publicações. Na última quinta-feira, 14, Skelton afirmou que os espasmos e tremores “diminuíram muito” e que começou um tratamento graças a doações de seguidores.

O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) declarou que “os efeitos colaterais da vacina tendem a ser leves e moderados e desaparecem rapidamente”, em resposta enviada ao Courier & Press, veículo local que acompanhou a história. O Estadão Verifica tentou entrar em contato com a Moderna e com Shawn Skelton, mas não recebeu respostas.

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