Não, governo de SP não recebeu dinheiro da Amazon para promover lockdown

Não, governo de SP não recebeu dinheiro da Amazon para promover lockdown

Vídeo viral distorce anúncio de investimento da Amazon Web Services no Estado e alimenta narrativas conspiratórias de que Doria receberia benefícios da empresa norte-americana

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

09 de abril de 2021 | 16h51

Um vídeo viral no Facebook espalha uma teoria conspiratória repleta de distorções, que associa a empresa de varejo digital Amazon a decretos de medidas restritivas contra a pandemia de covid-19 no estado de São Paulo. O conteúdo afirma enganosamente que a companhia norte-americana teria firmado um contrato de R$ 1 bilhão com o governo estadual e que esse acordo teria influenciado a gestão Doria a adotar lockdowns para beneficiar a gigante do comércio eletrônico. 

O boato deturpa um anúncio de 5 de fevereiro de 2020 sobre investimentos da Amazon Web Services (AWS) em São Paulo. A empresa informou que investiria R$ 1 bilhão nos próximos dois anos para expandir a infraestrutura de seus datacenters localizados no Estado. A AWS tem centros de processamento de dados próprios, e oferece serviços de computação em nuvem para clientes dos setores público e privado.

Mas, ao contrário do que sugere o vídeo analisado, o anúncio não resultou em um contrato entre a companhia e o governo de São Paulo. No caso, a administração estadual não recebeu verba da Amazon; apenas agiu por meio da agência InvestSP para atrair o investimento. Na ocasião do anúncio da AWS, Doria afirmou que a expansão da infraestrutura da AWS geraria mais oportunidades de emprego e tecnologia no Estado.

O que o vídeo analisado sugere é que o governo teria recebido R$ 1 bilhão da Amazon para decretar medidas de restrição de circulação, que beneficiariam o varejo eletrônico e prejudicariam o comércio de rua.

Como o Estadão já mostrou em outras ocasiões, o lockdown (fechamento total com paralisação de quase todas as atividades) é defendido por especialistas como forma de diminuir a circulação do coronavírus e salvar vidas.

Foto de arquivo. Pacotes da Amazon em centro de distribuição de Robbinsville, Nova Jersey, EUA, em 27 de novembro de 2017. Foto: REUTERS/Lucas Jackson/File Photo

O governo paulista tem um contrato anterior com a Amazon, sem relação direta com o investimento anunciado em 2020. Em novembro de 2019, Doria assinou um acordo de colaboração entre o Centro Paula Souza (CPS) e a AWS. Esse contrato estabeleceu um programa para que alunos de escolas técnicas e faculdades de tecnologia estaduais tenham acesso ao ambiente de aprendizagem virtual da AWS. 

Em nota, o Governo de São Paulo repudiou as distorções promovidas no boato. “Relacionar as medidas de distanciamento social para controle da pandemia a uma versão fantasiosa e delirante é, inclusive, cronologicamente errado, uma vez que o primeiro caso de coronavírus no Brasil só foi confirmado em 26 de fevereiro de 2020 e a quarentena em São Paulo só foi iniciada quase um mês depois, em 24 de março”, diz o comunicado. 

Compartilhada mais de 6 mil vezes no Facebook, uma publicação que repercute o vídeo enganoso chega a insinuar que Doria vai ganhar dinheiro às custas dos comércios fechados pelas medidas de isolamento social. “Tudo que você comprar da Amazon e Ali Express João Doria ganha uma porcentagem”, diz o post. A alegação, no entanto, não tem qualquer fundamento.

Além de se basear em informações enganosas do vídeo, não há qualquer evidência de que Doria receba uma porcentagem das compras da Amazon ou da gigante chinesa de comércio eletrônico Aliexpress. Esta última sequer é mencionada no vídeo, mas a legenda da publicação incentiva usuários a não comprar “nada dos chineses”. 

O governo da China, bem como outras instituições do país asiático, são alvos frequentes de desinformação e insinuações preconceituosas no contexto da pandemia de coronavírus nas plataformas digitais. O Estadão Verifica já desmentiu, por exemplo, que o país tenha comprado empresas estatais paulistas por meio do governador João Doria e que a China colete DNA de voluntários de testes de vacinas em outros países

Procurada, a Amazon não respondeu até o fechamento desta reportagem. 

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