Postagens usam foto de manequim no Canadá para espalhar teoria da conspiração sobre Ômicron na França

Postagens usam foto de manequim no Canadá para espalhar teoria da conspiração sobre Ômicron na França

Imagens de enfermeiros ao redor de boneco em hospital foi feita nos primeiros meses de 2020; equipe de reportagem não acessou área com pacientes para evitar contágio

Pedro Prata

30 de dezembro de 2021 | 16h00

Uma montagem tem sido compartilhada nas redes sociais para espalhar a teoria da conspiração de que os números da pandemia seriam inflados artificialmente. A imagem que viralizou nas redes mostra um manequim sem braço em um leito de hospital cercado por enfermeiras. As postagens dizem que na França “os hospitais estão tão ‘saturados’ da variante Ômicron que nem dá tempo de colocar os braços nos manequins para mostrar na TV”. A legenda é falsa: a foto foi feita no Canadá, no início da pandemia.

Postam usam montagem para compartilhar teoria de conspiração sobre dados de contaminações da variante Ômicron. Foto: Reprodução

Primeiramente, o Estadão Verifica utilizou a busca reversa do Yandex para identificar a origem da imagem com o manequim e entender o seu contexto original. A ferramenta permite ver outras vezes em que a imagem foi publicada online (veja aqui como você pode fazer).

A imagem foi retirada de uma reportagem em vídeo da Radio-Canada, publicada em 17 de abril de 2020, 19 meses antes dos primeiros registros da Ômicron. A imagem com o manequim pode ser vista aos 2m38s.

“Entre no centro do trabalho dos profissionais da saúde que se dedicam todos os dias ao combate contra a covid-19”, diz a legenda do vídeo. Informa ainda que a reportagem foi feita no instituto universitário de cardiologia e pneumologia de Quebec.

Imagem do manequim foi feita no Canadá, não na França. Foto: Radio-Canada/Reprodução

No início da reportagem, o médico Mathieu Simon diz que a equipe de reportagem não poderia entrar nas alas de atendimento, para evitar o risco de contágio. Isso é uma pista do motivo para terem sido usados manequins nas imagens. A agência de checagem AFP Factual identificou que uma reportagem em outro hospital também foi acusada de inflar os dados da covid-19. Na ocasião, porém, o hospital disse que a equipe de repórteres recebeu autorização para fazer imagens apenas numa área de simulação para prevenir a contaminação dos jornalistas.

Ômicron causa recordes de infecção

Para dizer que a suposta fraude estaria ocorrendo na França, a imagem recebeu uma tarja do canal de televisão BFMTV com a chamada, em francês, “(Jean) Castex testa positivo para a covid-19”. O primeiro-ministro realmente testou positivo para a covid-19, em 11 de novembro de 2021, mas a imagem do manequim não tem relação com o ocorrido.

Foto: BFMTV/Reprodução

A variante Ômicron tem uma taxa de contágio maior do que variantes anteriores, o que tem feito países registrarem recordes de testes positivos. Nesta segunda-feira, 27, o mundo ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 1 milhão de casos em 24h. Estados Unidos, Reino Unido e França são os países com o maior número de infecções, sendo 180 mil apenas neste último.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, alertou que apesar de os dados preliminares indicarem que a Ômicron cause quadros mais leves, a velocidade de contágio pode sobrecarregar os sistemas de saúde em todo o mundo.

Fila de testagem para a covid-19 em meio ao surto de casos da Ômicron, no Tennessee, nos Estados Unidos. Foto: Karen Pulfer Focht/Reuters

Momentos de incerteza como a pandemia propiciam a disseminação de conteúdos enganosos. O Estadão Verifica já mostrou ser falso que a Ômicron tenha sido inventada para esconder eventos adversos graves das vacinas.

Este conteúdo também foi checado por Lupa e Aos Fatos.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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