É falso que Magazine Luiza tenha perdido R$ 30 bilhões ao ‘declarar apoio a Lula’

É falso que Magazine Luiza tenha perdido R$ 30 bilhões ao ‘declarar apoio a Lula’

Post no Instagram replica discurso insustentável de Bolsonaro e desinforma sobre queda no preço das ações; empresa de varejo nega associação da marca com políticos

Samuel Lima

01 de dezembro de 2021 | 17h22

Circula nas redes sociais um post falso alegando que a rede de lojas Magazine Luiza teria perdido “R$ 30 bilhões após declarar apoio a Lula”. A empresa de varejo, de fato, apresentou um revés no lucro em seu balanço mais recente e sofreu uma queda significativa em seu valor de mercado na bolsa. Porém, o desempenho é atribuído ao cenário econômico geral do País. Não há qualquer registro de que a companhia tenha apoiado publicamente a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou de qualquer outro político nas eleições do próximo ano.

A peça de desinformação é assinada por um grupo que se apresenta nas redes sociais como um “movimento conservador comprometido com o resgate do patriota adormecido dentro de cada brasileiro” e que costuma publicar mensagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL). A própria mensagem analisada pelo Estadão Verifica parece derivar de uma conversa de Bolsonaro com apoiadores no Palácio do Planalto, em 22 de novembro.

Naquele dia, o Estadão mostrou que o Magazine Luiza apresentou uma queda de 90% nos ganhos no terceiro trimestre do ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. O lucro líquido ajustado foi de R$ 22,6 milhões, ante R$ 215,9 milhões reportados em 2020 — recuo nominal de R$ 193,3 milhões. 

O relatório justifica o tombo pela piora dos indicadores macroeconômicos, como o aumento da inflação e da taxa de juros, que impacta na performance das lojas físicas pela redução do poder de compra dos brasileiros. Cita ainda a base de comparação robusta de julho a setembro de 2020, quando as lojas registraram crescimento nas vendas.

O número alegado de R$ 30 bilhões, por sua vez, representa cerca de três vezes o patrimônio líquido do Magazine Luiza. O montante só poderia fazer algum sentido considerando não o caixa da companhia, mas o valor de mercado dela na B3, a bolsa de valores do Brasil, que flutua por ser considerado um ativo de risco aos investidores. 

Em 2021, até o dia 30 de novembro, os papéis da companhia acumulam queda de 69%, depois de crescerem 104% em todo o ano passado. Segundo dados da consultoria Economatica encaminhados ao Estadão Verifica, entre um ano e outro, o valor de mercado da empresa de varejo despencou de R$ 151,57 bilhões para R$ 51,5 bilhões. A desvalorização na bolsa, portanto, chega a R$ 100 bilhões nesse período.

Analistas apontam que o movimento de baixa nas ações ocorre no setor de varejo como um todo, pois a área é uma das mais afetadas pela deterioração dos indicadores econômicos. No caso específico do Magazine Luiza, outros fatores que podem ter afastado os investidores foram as incertezas sobre as margens e o provisionamento de estoques após a divulgação do balanço do terceiro trimestre, segundo a XP.

Sem registro de apoio a Lula

Bolsonaro não chegou a citar o nome do Magazine Luiza, mas afirmou a apoiadores que uma “mulher socialista” perdeu esse montante “quando anunciou amor” a Lula. A referência era a Luiza Helena Trajano, que chegou a ser ventilada como possível candidata a vice-presidente na chapa do petista e também de outros candidatos ao Planalto. A empresária nega intenção de concorrer a qualquer cargo eletivo.

Em entrevista a jornalistas depois de um evento na Assembleia Legislativa da Paraíba, Trajano rebateu as declarações do presidente. Ela disse que nunca se filiou a qualquer partido político, nem recebeu convites. O discurso é o mesmo de quando foi anunciada pela revista Time como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. Lula assinou o texto sobre a empresária, a convite da publicação.

Sobre ter sido chamada por Bolsonaro de “socialista”, Trajano disse que defende o Bolsa Família e políticas públicas de distribuição de renda ao mesmo tempo em que apoia iniciativas liberais, como a privatização dos Correios. “Eu acho que a desigualdade social precisa ser enfrentada, se isso é ser socialista, eu sou socialista, mas de causas. Por outro lado, sou empresária e sou a favor da distribuição de renda.”

O Magazine Luiza relatou ao Estadão Verifica em outra checagem que a política interna da empresa “impede o uso da marca em qualquer tipo de manifestação política, ideológica ou partidária”. Não há registros de que a companhia tenha declarado apoio a Lula nas eleições presidenciais do próximo ano.

Fique atento

Conteúdos falsos alegando prejuízos milionários como resultado de boicotes da população aparecem com frequência nas redes. Em novembro, o blog desmentiu, por exemplo, uma corrente que espalhava que a Fiat teria sofrido prejuízo de R$ 100 milhões após repudiar declarações homofóbicas do jogador de vôlei Maurício Souza. Desconfie de mensagens alarmistas contendo expressões como “quem lacra, não lucra” e verifique se existem fontes confiáveis de informação relatando aquele mesmo fato antes de compartilhar.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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