É falso que Fiat tenha sofrido prejuízo de R$ 100 milhões após repudiar declaração homofóbica de Maurício Souza

É falso que Fiat tenha sofrido prejuízo de R$ 100 milhões após repudiar declaração homofóbica de Maurício Souza

Grupos conservadores investem em história infundada para dizer que ‘milhares de clientes’ não concordaram com posicionamento da marca sobre caso do ex-atleta do Minas

Samuel Lima

05 de novembro de 2021 | 11h51

Páginas bolsonaristas e grupos conservadores no Facebook espalham a alegação falsa de que a Fiat teria sofrido um prejuízo de “mais de 100 milhões em vendas” por conta de um suposto boicote contra a marca, em apoio ao jogador de vôlei Maurício Souza. O atleta foi dispensado do Minas Tênis Clube depois de fazer declarações homofóbicas nas redes sociais. A equipe é patrocinada pela fabricante italiana, que pressionou os diretores a tomarem medidas sobre o ocorrido.

Apesar de uma campanha do tipo realmente ter sido levantada por figuras como o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e a deputada federal Carla Zambelli (PSL-DF) — Maurício apoia publicamente o presidente Jair Bolsonaro — não há indícios de que “milhares de clientes” realmente tenham deixado de adquirir produtos da Fiat. Da mesma forma, não existe qualquer informação sustentando que o episódio tenha resultado em perdas na ordem de R$ 100 milhões para a marca.

Procurada pelo Estadão Verifica, a Stellantis, grupo do qual a Fiat faz parte atualmente, declarou que “absolutamente nenhuma das informações do referido texto têm procedência”. A assessoria de comunicação também informou, por telefone, que nenhum representante italiano da empresa comentou sobre o caso e que a declaração atribuída na postagem a um “sócio majoritário de Turim” não faz sentido.

A Fiat fechou o mês de outubro como líder de vendas de automóveis e comerciais leves no Brasil, de acordo com dados de emplacamentos divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). A fabricante comercializou 29.397 unidades no período, o que representa uma participação de 19,59% do mercado brasileiro.

O volume de vendas supera levemente o mês anterior (29.038), ainda que a participação tenha sofrido uma pequena queda (20,40%). Como a polêmica do jogador Maurício Souza é recente, ainda não é possível descartar algum impacto. Fato é que as informações do post não têm base na realidade.

Boato inventa reação negativa de ‘sócios’ na Itália

A Fiat é uma das marcas da Stellantis, uma das maiores montadoras do mundo, criada a partir da fusão entre o conglomerado FCA (Fiat Chrysler Automobiles) com o grupo francês PSA, dono da Peugeot e da Citröen. O acordo foi oficializado em 16 de janeiro de 2021. 

Em março deste ano, segundo um documento oficial da empresa, os principais acionistas da Stellantis eram a Exor (14,4%), uma holding italiana da família Agnelli, que fundou a Fiat e detinha a maior fatia da FCA; a família Peugeot (7,2%); BPI, banco de investimentos do Estado da França (6,2%); e a montadora chinesa Dongfeng Motor Corporation (5,6%). 

Documento

Uma busca no Google por esses nomes e a palavra-chave “Maurício Souza” não retorna nenhum artigo que sustente as afirmações do post. O Estadão Verifica também procurou por declarações relacionadas dos três principais executivos da empresa — John Elkann, presidente da Stellantis, Robert Peugeot, vice-presidente, e Carlos Tavares, CEO — mas nada foi encontrado.

A Stellantis está listada em bolsas de valores de Nova York, Milão e Paris. Em Nova York (Nasdaq), por exemplo, nesta quinta-feira, 4 de novembro, a ação estava cotada a US$ 20,37. Desde que o comunicado da Fiat do Brasil sobre o caso do jogador de vôlei foi divulgado, os papéis acumulam alta de 0,39% — o que, evidentemente, não estabelece uma relação causal entre esses fatos. 

O dado do mercado financeiro, por outro lado, assim como a ausência de comentários públicos de executivos da Stellantis, desmente a tese do post de que a decisão de repudiar uma declaração homofóbica no Brasil “chamou a atenção dos sócios de todo o planeta”.

Em 2020, a FCA teve faturamento global de € 86,7 bilhões e lucro de € 24 milhões, resultado afetado pela pandemia de covid-19. A PSA faturou € 60,7 bilhões e reportou lucro de € 2 bilhões no ano passado. Uma eventual perda de R$ 100 milhões no Brasil (em torno de € 15,7 milhões) representaria cerca de 0,1% do faturamento anual das empresas somadas.

Documento

Documento

O caso Maurício Souza

Em 12 de outubro, Maurício Souza — jogador do Minas Tênis Clube, equipe que disputa a Superliga no Brasil — compartilhou no Instagram a imagem de uma notícia sobre a nova versão do Superman, que se assumiu bissexual nos quadrinhos. “A é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar… (sic)”, escreveu o atleta. O comentário gerou críticas da comunidade LGBTQIA+ e de alguns colegas, como o ponteiro Douglas Souza, que é gay.

Diante da repercussão, o Minas divulgou uma nota oficial, em 25 de outubro, dizendo que não aceita manifestações homofóbicas e que estava conversando com Maurício e o orientando sobre o assunto.

No dia seguinte, 26 de outubro, os principais patrocinadores do clube, Fiat e Gerdau, também divulgaram comunicados nas redes sociais cobrando a “adoção de medidas cabíveis, o mais breve possível”. O Minas então anunciou o afastamento do atleta por tempo indeterminado e solicitou uma retratação pública.

Maurício postou um pedido de desculpas nas redes que, novamente, não foi bem recebido. Primeiro, o fez somente em sua conta no Twitter, que tinha cerca de 60 seguidores. Os patrocinadores consideraram a ação insuficiente e cobraram uma manifestação no mesmo perfil usado anteriormente, ou seja, o Instagram, com mais de 300 mil seguidores, e a remoção do conteúdo homofóbico.

Em 27 de setembro, o atleta publicou um vídeo no Instagram dizendo que não era a sua intenção ofender alguém “por minha opinião e por defender aquilo que eu acredito”. O jogador também reclamou não poder colocar os “valores da família acima de tudo”.  Poucas horas depois, teve o contrato rescindido

O post sobre o Superman continua no ar, acompanhado agora de uma outra foto do herói da DC Comics beijando a Mulher Maravilha e críticas contra a “turma da lacração” em seu perfil, a quem responsabiliza por sua demissão. O caso também pode custar futuras convocações para a Seleção Brasileira.

Boatos sobre boicotes aparecem com frequência

Essa não é a primeira vez que boatos sobre supostos impactos milionários de boicotes circulam nas redes sociais. A mesma tática foi usada por grupos conservadores, no ano passado, para criticar uma campanha de Dia dos Pais da Natura com o ator Thammy Miranda. A intenção é exagerar o impacto e gerar a sensação no leitor de que a maioria da população discordaria de ações afirmativas. Fique atento a correntes que trazem informações vagas e não citam fontes confiáveis de informação, caso deste conteúdo analisado.

 


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.