Lenovo nunca comprou a Positivo, ao contrário do que diz boato
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Lenovo nunca comprou a Positivo, ao contrário do que diz boato

Postagens com a alegação falsa circulam nas redes sociais após empresa vencer licitação de fornecimento de urnas para eleições de 2022

Pedro Prata

29 de julho de 2020 | 14h57

A fabricante brasileira de computadores Positivo Tecnologia nunca foi comprada pela empresa chinesa Lenovo. Este boato viralizou no Facebook após a Positivo vencer licitação para fabricação de urnas eletrônicas para as eleições de 2022. A informação circulou por diversas postagens que somavam 1,2 mil compartilhamentos até a publicação desta verificação.

As postagens afirmam que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou a Positivo Informática como vencedora da licitação para fornecer urnas eletrônicas para as eleições de 2022 por R$ 799 milhões — o que de fato ocorreu (veja mais abaixo). Os boatos, porém, falsamente alegam que a empresa foi comprada pela chinesa Lenovo para questionar a idoneidade do pleito.

A brasileira Positivo nunca foi comprada pela Lenovo. Foto: Reprodução

A Lenovo tentou comprar a Positivo Informática em 2008. Conforme noticiado pelo Estadão em 18 de dezembro, a então quarta maior fabricante mundial de computadores enviou representantes ao Brasil e chegou a fazer uma proposta, mas a negociação não prosperou. De acordo com o comunicado emitido pela Positivo na época, “os acionistas controladores e a Lenovo concluíram que não é possível chegar a um acordo dado o atual contexto econômico”.

Em 2012, a Lenovo já havia se tornado a segunda maior fabricante de computadores do mundo e não havia desistido de expandir sua presença no País. Surgiram novos rumores de uma negociação com a Positivo, mas ela acabou anunciando a compra da brasileira CCE, em 5 de setembro. Naquele ano, a Positivo era a líder do mercado nacional.

Reportagem publicada no Estadão de 6/9/2012. Foto: Acervo Estadão

A Positivo Tecnologia foi criada em 1989 a partir do grupo educacional Positivo. Seu objetivo inicial era de fabricar e vender computadores para as escolas clientes do grupo. Em 2019, o Estadão apurou que ela era uma das cinco maiores empresas do setor no País.

Contatada pelo Estadão Verifica, a assessoria da empresa nacional desmentiu “o rumor publicado nas mídias sociais de que foi vendida à Lenovo”. Também disse que não há “qualquer negociação em andamento neste momento”.

Brasil possui atualmente 470 mil urnas. Foto: TSE/Reprodução

Positivo Informática fornecerá urnas para as eleições 2022

A Positivo Informática realmente ganhou a licitação para fornecimento de urnas para as eleições de 2022. A informação foi divulgada na quinta-feira, 23, no site do TSE. A homologação da licitação ocorreu de comum acordo entre os três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que atualmente compõem a Corte: Luís Roberto Barroso (presidente), Edson Fachin (vice-presidente) e Alexandre de Moraes.

Os R$ 799,9 milhões citados na licitação preveem a aquisição de 180 mil urnas entre 2020 e 2021. Atualmente, o País tem 470 mil unidades, mas o TSE alega que as urnas fabricadas em 2006 e 2008 estão com a vida útil esgotada. O valor utilizado depende de disponibilidade orçamentária e poderá ser revisado para baixo.

O Aviso de Licitação nº 43/2019 foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 29 de julho de 2019. A Positivo e o Consórcio Smartmatic apresentaram documentação e protótipos das urnas, mas ambas foram desclassificadas por não cumprirem especificações técnicas previstas no edital.

Em janeiro, o próprio TSE julgou parcialmente procedente o recurso das duas empresas, como consta no DOU de 13 de dezembro de 2019. A Corte julgou que o caso se enquadrava no artigo 48, parágrafo 3º, da Lei nº 8.666/1993. A lei autoriza que as empresas participantes tenham prazo adicional de oito dias para rever e apresentar novamente suas propostas quando todos os licitantes forem inabilitados. Nesta nova etapa, a Positivo Informática saiu vitoriosa.

Documento

A Smartmatic é uma empresa dos Estados Unidos e atualmente com sede no Reino Unido. O Estadão Verifica e o Projeto Comprova já checaram boatos com relação a ela no período eleitoral de 2018, pelo fato de seus fundadores serem venezuelanos. As postagens falsamente afirmavam que o TSE teria liberado o código de segurança das urnas ao país vizinho.

As urnas eletrônicas são alvos recorrentes de boatos perto do período eleitoral. O Estadão Verifica também checou a informação falsa de que somente Brasil, Cuba e Venezuela utilizam os equipamentos. Na verdade, o Instituto Internacional Para a Democracia e a Assistência Social (IDEA Internacional) identificou 26 países que usam urnas com tecnologia eletrônica para eleições gerais, enquanto outros 16 as utilizam em pleitos regionais.

Este boato também foi checado pela Agência Lupa.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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