Homem de mãos dadas com Papa Francisco é padre presidente de organização antimáfia
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Homem de mãos dadas com Papa Francisco é padre presidente de organização antimáfia

Foto de 2014 viralizou em publicações no Facebook que inventam que dom Luigi Ciotti é 'ativista gay'

Alessandra Monnerat

22 de outubro de 2020 | 17h56

Uma foto de 2014 em que o Papa Francisco segura a mão do padre Luigi Ciotti tem sido compartilhada fora de contexto no Facebook. Postagens afirmam que Ciotti é um “ativista gay, financiado pelos Rockefellers”, o que não é verdade. Na realidade, o religioso italiano é presidente de uma ONG antimáfia chamada Libera. Na imagem, ele e o Papa participavam de uma vigília pelas vítimas do crime organizado.

Nesta quarta-feira, 21, estreou um documentário no Festival de Cinema de Roma em que Francisco reconhece o direito de pessoas do mesmo sexo à união civil. “Os homossexuais têm o direito de ter uma família. Eles são filhos de Deus”, disse o pontífice em uma das entrevistas para o filme. “O que precisamos ter é uma lei de união civil, pois dessa maneira eles estarão legalmente protegidos.”

Depois da divulgação da fala do Papa, postagens nas redes sociais passaram a atacar o líder da Igreja Católica e a população LGBTQIA+. O post analisado pelo Estadão Verifica foi compartilhado mais de 2,9 mil vezes em 18 horas.

Qual o contexto da foto?

A foto em que Francisco segura a mão de Luigi Ciotti foi tirada em 21 de março de 2014, em Roma, durante vigília pelas famílias de vítimas da máfia italiana. Na imagem, os dois religiosos chegam juntos à igreja San Gregorio Settimo. Foi um gesto simbólico do pontífice: até então, a organização antimáfia Libera nunca tinha conseguido apoio do Vaticano.

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Naquele dia, Francisco fez um discurso em que pediu a conversão dos mafiosos: “Convertei-vos, peço-vos de joelhos, é para o vosso bem! Esta vida que levais agora não vos dará prazer, nem alegria, nem felicidade!”. Ainda em 2014, o Papa afirmou que os integrantes de organizações criminosas são excomungados, o que quer dizer o banimento completo da Igreja.

Quem é Luigi Ciotti?

Luigi Ciotti fundou as ONGs Libera e Grupo Abele. O Estadão Verifica não encontrou evidências que ele participe diretamente de grupos de ativismo da comunidade LGBTQIA+. Na década de 1980, o religioso participou da fundação da Liga Italiana da Luta contra a Aids (Lila), organização que presidiu entre 1987 e 1988.

A Libera foi criada em 1994, uma “associação contra a máfia”. A ONG milita pelo fim da corrupção e do crime organizado na Itália e no mundo. Atualmente, há 278 escritórios no território italiano, com organizações filiadas em outros 35 países.

Nos demonstrativos financeiros mais recentes da ONG, não há indicativo de financiamento “pelos Rockefellers”, ao contrário do que afirmam as postagens no Facebook. Também não há registros de doação à Libera no site da Rockefeller Foundation, entidade de filantropia.

Nas passeatas organizadas pela Libera pelo fim da máfia, é comum o uso da bandeira pacifista — um arco-íris com a palavra “Pace”, paz em italiano. As postagens no Facebook que atacam o Papa Francisco parecem confundir a bandeira pacifista com a bandeira do movimento LGBT. As duas têm cores semelhantes.

Luigi Ciotti também fundou o Grupo Abele em 1965, uma ONG que trabalha com comunidades vulneráveis, como dependentes químicos, imigrantes, pessoas em situação de pobreza e outras.

Na semana passada, o Estadão Verifica desmentiu uma postagem que afirmava que o Papa Francisco usou um crucifixo com as cores da bandeira LGBT.

A agência de checagem espanhola Maldita.Es publicou uma checagem semelhante sobre a foto em que o pontífice dá as mãos a Luigi Ciotti.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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