Postagens usam fotos antigas para atacar protestos de indígenas contra marco temporal

Postagens usam fotos antigas para atacar protestos de indígenas contra marco temporal

Imagens divulgadas em posts no Facebook circulam na internet desde 2014; Articulação dos Povos Indígenas do Brasil relata sofrer ataques racistas nas redes

Gabi Coelho e Alessandra Monnerat

03 de setembro de 2021 | 20h11

Publicações no Facebook divulgam fotos antigas com o objetivo de desacreditar os protestos organizados por grupos indígenas em Brasília contra a tese do “marco temporal” — que está em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) e pode alterar a demarcação de terras indígenas. As imagens incluídas nos posts, na realidade, são de manifestações em 2012 e 2014. 

As postagens afirmam que o PT montou uma “fábrica de índios” — questionando o fato de as pessoas retratadas nas imagens terem características como cabelos crespos, pele clara e bigode. Ativistas indígenas e pesquisadores, no entanto, condenam esse tipo de afirmação, e argumentam que um indivíduo se identifica como indígena por aspectos culturais, e não genéticos.

Fotos são de protestos antigos

A montagem com quatro fotos de protestos circula na internet pelo menos desde 2014 — foi publicada inicialmente em um blog que pede intervenção militar no Brasil.

Com a ferramenta de busca reversa de imagem do Yandex (aprenda a usar aqui), encontramos uma das fotos em reportagem do portal G1, de 09 de novembro de 2012. Na imagem, uma mulher com o rosto pintado de laranja participa de uma manifestação em Porto Velho, Rondônia, em apoio aos indígenas guaranis-kaiowás. Na ocasião, eles enfrentavam uma disputa territorial com produtores rurais no Mato Grosso do Sul. 

Outra das fotos, de um homem com bigode e adereço de cabeça azul, é de 27 de maio de 2014. O registro é do fotógrafo Evaristo Sá, da AFP, e foi publicado no jornal O Globo. Na ocasião, indígenas protestaram em Brasília contra a realização da Copa do Mundo de futebol. 

O Estadão Verifica não conseguiu determinar a origem das outras duas fotos utilizadas nas postagens — de qualquer forma, não retratam o protesto recente na capital federal. O acampamento Luta pela Vida é liderado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) desde o dia 22 de agosto.

Cerca de 6 mil representantes de 176 povos indígenas acamparam na Esplanada dos Ministérios. Eles protestam contra a tese do “marco temporal” — que define que uma terra indígena só pode ser demarcada se ficar comprovado que os índios estavam naquele território na data da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988.  

O STF julga se esse entendimento deve ser aplicado às demarcações novas ou em andamento. A APIB considera a tese um golpe contra o movimento indígena. Com o adiamento do julgamento na última quarta-feira, a mobilização se deslocou da Esplanada para outro local, a Funarte. 

A bancada ruralista na Câmara, por outro lado, defende a aprovação de um projeto de lei que estabeleça a adoção do marco temporal.

Apib relata sofrer ataques racistas

Questionada sobre as postagens com fotos antigas, a Apib afirmou que tem sofrido ataques racistas e tentativas de intimidação por parte de pessoas contrárias às pautas do movimento.

“A Apib e todas as suas organizações reforçam que o propósito da mobilização em Brasília é protestar de forma pacífica por direitos e acompanhar o julgamento no STF, em apoio aos ministros e ministras do Supremo contra a tese do Marco Temporal”, informou a organização, em nota. “Todos os ataques que se enquadram em crimes de racismo, injúria, calúnia e difamação serão devidamente denunciados para que sejam tomadas medidas cabíveis, bem como as condutas de intimidação e ofensas”.

A comunicadora indígena Alice Pataxó também foi alvo de ataques nas redes sociais após publicar uma foto sua com outras ativistas durante os protestos em Brasília. Na imagem, Alice segura um IPhone. Ao Estadão, ela afirmou que usar celular não a faz menos indígena. “São argumentos falhos, não se pode fabricar indígena, e não se lê em aparelhos na mão ou cabelos ondulados pertencimento étnico”, disse.

A ativista afirma que não existe um padrão de pertencimento indígena. “Onde eu preciso ter o cabelo liso e os olhos puxados? E onde fica a nossa diversidade? A apagaram, e agora usam de nossos rostos, falas e lugares que ocupamos, como se isso anulasse quem somos. É lamentável ver a política do Brasil se prestar a um papel tão ridículo e preconceituoso”.

A miscigenação é a mistura de diferentes etnias humanas baseada em questões socioculturais. Para o professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais Eduardo Martín Tarazona, o post viral apresenta um pensamento preconceituoso que se tornou comum entre a população brasileira, mas que não define se uma pessoa é indígena ou não. 

“Por causa da miscigenação que existe em todo território brasileiro e na América Latina, a diversidade nos fenótipos dessas pessoas também está presente. Não é porque alguém colocou uma roupa jeans ou social que significa que ela deixou de ser indígena. O que define se uma pessoa é ou não indígena são seus aspectos culturais”, comenta o especialista, pesquisador de Diversidade Genética Humana. 


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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