Post inventa que OMS recomendou a compra de ‘vacina chinesa de US$ 10 mil’ contra a covid-19
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Post inventa que OMS recomendou a compra de ‘vacina chinesa de US$ 10 mil’ contra a covid-19

Nenhuma imunização concluiu os testes clínicos e pode ser comercializada; OMS lista 166 projetos em desenvolvimento e defende 'maior número possível' de candidatas

Samuel Lima, especial para o Estado

21 de julho de 2020 | 17h21

É falso o boato em circulação no Facebook de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) teria recomendado a compra imediata de uma “vacina chinesa” contra a covid-19, ao custo de US$ 10 mil por dose, e mandado suspender a produção de outra imunização gratuita, produzida pelos Estados Unidos. As declarações foram inventadas. 

Nenhum projeto de vacina concluiu os testes até o momento. Portanto, não existem imunizações disponíveis para venda, nem preços definidos para distribuição. A informação pode ser consultada na própria página da OMS, que mostra 142 produtos em estudos pré-clínicos e 24 na fase de ensaios clínicos, ou seja, com testagem em humanos. Essa mesma lista apresenta projetos de empresas norte-americanas, como Moderna, Inovio, Novavax e Pfizer. 

Boato no Facebook alega que OMS mandou suspender projeto dos EUA e recomendou compra de vacina da China por US$ 10 mil. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Na peça de desinformação, as frases são atribuídas ao diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. O Estadão Verifica não encontrou registro de qualquer declaração de Ghebreyesus recomendando a compra de vacinas chinesas ou descartando pesquisas dos Estados Unidos em notícias e outras fontes confiáveis na internet. Até a tarde desta terça-feira, 21, o conteúdo havia sido compartilhado mais de 2,4 mil vezes no Facebook. 

Em entrevista a jornalistas nesta segunda-feira, 20, Ghebreyesus afirmou que é preciso “continuar acelerando a pesquisa de vacinas” ao mesmo tempo em que líderes e comunidades devem manter o foco em reduzir a transmissão do novo coronavírus com as ferramentas disponíveis na atualidade. Quem comentou sobre o atual cenário do desenvolvimento de vacinas foi o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, que não demonstrou qualquer preferência de projeto. É possível consultar a transcrição da entrevista na íntegra abaixo.

WHO Covid-19 Virtual Press Conference 20/7/2020 (em inglês)

Ryan disse que era uma “boa notícia” a publicação, na revista Lancet, de resultados dos primeiros testes clínicos de duas vacinas. Uma delas é desenvolvida pela Universidade de Oxford, do Reino Unido, com a empresa anglo-sueca AstraZeneca. A outra, produzida pela farmacêutica chinesa Cansino Biologics. Na mesma resposta, o diretor-executivo da OMS citou que outras pesquisas estão em estágio clínico e informou que o projeto da BioNTech em parceria com a Pfizer (uma empresa farmacêutica dos Estados Unidos) também já apresentou dados para revisão por pares.

Por outro lado, o diretor executivo da OMS ressaltou que ainda existe “um longo caminho a percorrer” até o fim dos testes e a disponibilização de qualquer vacina à população. Em outro trecho, Ryan afirma que a OMS está “trabalhando com parceiros para garantir que tenhamos o máximo de candidatas a vacinas” e que existe empenho da organização em “nivelar o campo de pesquisa para que todas as potenciais candidatas possam mover da fase 1 para a fase 2 do ciclo de testes”.

Os ensaios clínicos para testar a segurança e eficácia de uma vacina são divididos em três etapas. Na fase 1, são testados poucos voluntários, de 20 a 80, geralmente adultos saudáveis. Na fase 2, os ensaios são feitos com grupos que podem chegar a centenas de pessoas, escolhidas de forma aleatória, incluindo grupos de risco. Na fase 3, o número de participantes pode chegar a milhares, de modo a simular as condições naturais de presença da doença.

De acordo com a OMS, apenas quatro vacinas já alcançaram a terceira e última etapa de ensaios clínicos. Uma delas é justamente a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, que também está sendo testada com voluntários brasileiros, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O Ministério da Saúdeanunciou acordo para fabricação do produto, caso este se mostre eficaz e seguro.

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também autorizou a realização de testes no Brasil da vacina desenvolvida pela chinesa Sinovac Biotech. As doses chegaram em São Paulo e foram aplicadas a partir desta terça-feira, 21. A primeira voluntária a receber a imunização disse ser uma “injeção de ânimo”. O acordo para produção foi firmado pelo governo de São Paulo e o Instituto Butantan com a empresa farmacêutica, ainda em junho. 

As outras vacinas na fase 3 estão sendo desenvolvidas pelos Institutos de Produtos Biológicos de Wuhan e de Pequim, ambas em parceria com a empresa estatal chinesa Sinopharm. O projeto da Moderna também aparece na lista em fase 3, mas com a ressalva de que o recrutamento de voluntários ainda não foi iniciado.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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