Especialistas esclarecem que levantar-se rápido durante a noite não causa morte súbita

Especialistas esclarecem que levantar-se rápido durante a noite não causa morte súbita

Post que viralizou no Facebook contém informações falsas sobre a prática de sair bruscamente da cama durante a madrugada; na verdade, movimento rápido pode causar tontura e queda de pressão

Gabi Coelho, especial para o Estado

16 de julho de 2020 | 17h16

Um boato publicado no Facebook em maio do ano passado voltou a ganhar força nas últimas semanas, atingindo quase 180 mil compartilhamentos. O post viralizou com instruções para que pessoas evitem se levantar rápido da cama durante a madrugada para “inspecionar a casa ou urinar”, pois essa movimentação poderia causar “morte súbita“. Ao Estadão Verifica, especialistas esclarecem que não existe esse risco — o que poderia ocorrer, na verdade, seria tontura ou queda de pressão.

Especialistas esclarecem que levantar-se rápido não causa morte súbita

A publicação viral orienta que cada pessoa deve aguardar “três minutos e meio” antes de se levantar, pois quando é feito um movimento brusco o cérebro pode ficar “anêmico”, o que causaria insuficiência cardíaca. O cardiologista Diogo Umann explica que isso não é possível. Na realidade, o que poderia acontecer seria queda de pressão e baixo fluxo sanguíneo cerebral ao se levantar de uma vez.

“Essa questão dos três minutos e meio não existe. Geralmente o que ocorre é que, com a diferença de posição, a pessoa deitada ou sentada por tempo longo, até mesmo acordada, pode apresentar uma lipotimia. É uma queda de pressão, que pode ser fisiológica e benigna, e ocasiona tontura”, explica o médico, que atua em uma clínica particular em Belo Horizonte.

O cardiologista também orienta que pessoas idosas precisam de cuidado especial ao se levantarem da cama durante a madrugada. Isso porque, se ocorrer uma queda, as complicações podem ser mais graves.

O post enganoso afirma ainda que o “padrão de ECG pode mudar” com o movimento brusco durante a madrugada. A sigla citada, na verdade, faz referência ao padrão mostrado no eletrocardiograma, exame para avaliar a saúde do coração. “(O ECG mostra) o estímulo elétrico que sai do nó sinusal (uma parte do coração) e passa pelos átrios e ventrículos (cavidades do coração), fazendo com que o nosso coração realize a sístole e diástole, que é a movimentação de uma batida normal do coração. Esse movimento ejeta o sangue para nosso organismo, órgãos e tecidos”, afirma o cardiologista. 

O Estadão Verifica também consultou um neurologista para entender se há situações em que o cérebro fica “anêmico”, como afirma a publicação enganosa. O neurocirurgião Helton Martins, do Hospital da Unimed de Belo Horizonte, explica que o uso do termo não faz sentido. Segundo ele, algumas patologias cardíacas podem levar a perfusão cerebral diminuída — isso significa uma circulação menor de sangue no cérebro.

“O termo ‘anemia‘ refere-se à quantidade diminuída de hemoglobina no sangue. Não faz sentido ser utilizado na forma como foi apresentado no texto. Vale ressaltar que a anemia pode ser uma causa de desmaio”, diz Martins. 

Para o médico, levantar-se lentamente é válido para todas as pessoas, mas não pelo motivo descrito no texto viral. De acordo com Martins, a prática de sair da cama com calma pode evirar redução de pressão repentina, tonturas e outros sintomas que poderiam levar a quedas e traumatismos. 

“Alguns pacientes têm maior predisposição  a apresentar tais alterações de pressão, como é o caso dos mais idosos e portadores de doenças cardíacas”, aponta o neurocirurgião. “Vale salientar que o próprio ato de urinar pode levar a um quadro conhecido como reflexo vasovagal, que pode resultar em hipotensão e queda. Sendo assim, é sugerido que mesmo os homens se sentem para urinar, em ambientes devidamente higienizados”. 

A AFP também verificou a publicação que viralizou no Facebook e confirmou que não existem evidências científicas que comprovem que levantar-se rápido provoca morte súbita.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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