Enquetes de influenciadores no TikTok não têm mesmo valor de pesquisa eleitoral

Enquetes de influenciadores no TikTok não têm mesmo valor de pesquisa eleitoral

Público que participa de enquete não é representativo da população; pesquisas seguem metodologia para garantir que entrevistados têm características de idade, gênero e renda proporcionais aos do restante dos brasileiros

Gabriela Meireles, especial para o Estadão

30 de junho de 2022 | 13h10

É enganoso vídeo que compara os resultados da última pesquisa Datafolha com os dados de uma enquete realizada no TikTok. O vídeo foi publicado no Facebook com legenda que afirma que o Datafolha é uma “farsa”, já que 96% dos participantes da enquete afirmaram que votariam no presidente Jair Bolsonaro (PL). Este resultado, no entanto, não tem valor científico — como a enquete foi promovida por uma influenciadora de direita, há um viés entre o público respondente. Pesquisas eleitorais, por outro lado, seguem métodos estatísticos para garantir que o levantamento vai ouvir uma parcela representativa da população, ainda que em número reduzido. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive, veda a divulgação de enquetes em período eleitoral.

A pesquisa Datafolha mais recente foi divulgada em 23 de junho. O levantamento indicou vantagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47% das intenções de voto para presidente. Ele é seguido por Bolsonaro, com 28%. Em terceiro lugar, aparece Ciro Gomes (PDT), com 8%, seguido por André Janones (Avante), que tem 2%.

No vídeo em questão, uma mulher afirma que a enquete ouviu a opinião de 4.155 pessoas, enquanto o Datafolha entrevistou 2.556 pessoas. Ela também questiona o fato de o instituto ter ouvido pessoas em 181 municípios, enquanto “aqui no TikTok também tem gente de todo lugar e ele entrega para todo mundo”.

Segundo o sócio-diretor do Instituto FSB Pesquisa, Marcelo Tokarski, enquetes como a do exemplo não obedecem métodos científicos e podem ter resultados enviesados. Para explicar, o pesquisador fez uma analogia: “Vamos supor que eu vá fazer uma pesquisa sobre torcidas de futebol, e aí eu publico uma enquete no site do Flamengo”, exemplificou. “Vai dar a fatia da população (brasileira) que é torcedora do Flamengo? Provavelmente não. Vai dar 90%, 95%, talvez até 100% das pessoas como torcedoras do Flamengo, porque um torcedor do Vasco, do Fluminense ou do Botafogo não vai acessar o site do Flamengo para responder aquela enquete”.

Seguindo a mesma lógica, “se um influenciador de direita, por exemplo, publica isso (enquetes de intenções de votos), a chance de ele ter seguidores que tendem a votar no Bolsonaro e não no Lula é muito grande. Ou um influenciador de esquerda, por exemplo, a chance de ele ter seguidores que votam no Lula é muito maior do que a de eleitores do Bolsonaro”, explicou.

Tokarski também chamou a atenção para os resultados muito discrepantes da enquete realizada no TikTok. “As pesquisas de opinião registradas no TSE e divulgadas publicamente têm diferenças mais sutis nos resultados”, disse. “Vai depender da metodologia utilizada por cada instituto, mas você vai ter resultados muito próximos. Você não vai ter uma pesquisa de opinião dando um candidato com 90% dos votos, seja para Lula, seja para Bolsonaro”.

Em 2014, o TSE regulamentou a realização e divulgação de pesquisas eleitorais por meio da Resolução nº 23.400. No documento, foi vedada “a realização de enquetes relacionadas ao processo eleitoral” durante o período de campanha — que, neste ano, começa em agosto.

Como é selecionada a amostra para pesquisas eleitorais

A construção de uma divulgação científica a respeito das intenções de voto depende de uma amostra estatística que represente o eleitorado. Em outras palavras, parcelas de gênero, idade, escolaridade e renda entre os entrevistados de uma pesquisa necessariamente devem espelhar os porcentuais dessas categorias dentro da população brasileira em geral. A partir dessa metodologia, podem ser levantadas informações o mais representativas possíveis do público eleitoral, mesmo que em menor número.

Para o professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor da Quaest, Felipe Nunes, as pesquisas científicas são a única forma de se obter informações assertivas e não enviesadas sobre a população brasileira. Ele detalhou que os institutos de pesquisa fazem o chamado planejamento amostral, no qual se sorteiam os municípios e setores censitários onde serão realizadas as entrevistas. “Isso é para garantir que o critério de participação do entrevistado na pesquisa seja aleatório, sem sofrer interferências externas que possam gerar viés”, explicou. 

Depois que as entrevistas são realizadas, os institutos de pesquisa checam a qualidade das respostas dadas e a distribuição geográfica e sociodemográfica dos respondentes. Além disso, avaliam benchmarks (indicadores de desempenho), variáveis de controle da qualidade da representatividade da amostra obtida. Posteriormente, as entrevistas são gravadas e os áudios são checados. Só depois de finalizado todo o trabalho de qualidade, os números são disponibilizados para a população, segundo Nunes.

É muito frequente ver conteúdos online que questionam a confiabilidade de pesquisas eleitorais e que promovem enquetes sem valor científico. Veja alguns exemplos checados pelo Estadão Verifica:

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